lkkk
lkjhg
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Robert Enke: um grande guarda-redes, um grande homem



Há surpresas destas. Más, muito más. Quando a minha mãe, ao telefone, me deu a notícia da morte macabra do ex-guarda-redes do Benfica, fiquei sinceramente emocionado. Não porque o admirava como jogador, que chegou com a difícil tarefa de substituir o insubstituível Michel Preud’homme, e logo me convenceu, apesar da juventude. Sim porque sei que era um óptimo exemplar da espécie humana, daqueles raros exemplos de generosidade, principalmente num tema que me toca em particular: os animais vítimas de abandono. Na altura em que jogava no Benfica, Enke abriu um abrigo para animais abandonados, em Lisboa. Foi disso que ouvi falar, nunca de excentricidades malucas ou arrogância, como acontece regularmente com jogadores de futebol iludidos pela fama e pelo dinheiro. Depois de perder uma filha, Enke não aguentou a pressão, mesmo com a possibilidade bastante evidente de representar a sua selecção no Mundial do próximo ano. O comboio que o colheu levou com ele uma vida de respeito. Espero que o meu clube não me desiluda e lhe faça a devida homenagem.

Etiquetas: , , ,


Damon at 9:39 PM

Sábado, Novembro 07, 2009

Andei com uma canção na cabeça durante uns tempos. Chamava-se "I've underestimated my charm again". Finalmente, resolvi ouvir o álbum todo (Partie Traumatic) e posso dizer que vou andar a ouvir os Black Kids durante uns tempos... Muito bons.

Etiquetas:


Damon at 7:11 PM

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Hoje, ao fim da tarde, vai ser exibido um filme na sala de cinema da Media School da Universidade de Bournemouth. Os espectadores presentes vão passar a conhecê-lo como “Sensitive Men”. Terá legendas em inglês. Nessa altura, vou estar a (re)ver as pessoas que me ajudaram há 5 anos, mais do que as personagens. Este post é para elas, para um tempo de grande dedicação que nunca esquecerei. Para aquelas que continuam bem presentes e para aquelas que, infelizmente, por um ou outro motivo, se distanciaram. “Havemos de voltar a voar”, estou certo.

Etiquetas:


Damon at 12:52 PM

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

canção do momento: sneaker pimps, "precious"

É pena que as necessidades da mente não se ajustem aos relógios. E à distância. Neste preciso momento, apeteceu-me conversar com alguém que me conheça. Senti uma ligeira asfixia e quis abrir a janela e gritar. Mas em português. Nada de grave.

Etiquetas: ,


Damon at 2:33 PM

Terça-feira, Outubro 27, 2009

A partir de hoje, podem ler-me em inglês, em Thinking Big, Writing Small, um projecto do meu colega Mike Garley. Somos sete escritores, cada um com o seu dia da semana - onde é que eu já vi isto?... - e temos um limite de 99 palavras por post. Publiquei hoje o meu primeiro texto, um poema, para ser mais exacto. Para ser ainda mais exacto, a tradução de um poema escrito há uns anos e que alguns reconhecerão...

Etiquetas: ,


Damon at 12:35 PM

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Saí de casa e fiz o que há muito pretendia fazer. Caminhei até à loja que ajuda animais feridos ou abandonados. Chamam-lhes “Charity Shops” aqui, e há imensas nesta rua. Quem me conhece sabe o quanto sou sensível a todas as questões que empreguem a palavra “solidariedade”. Escolhi os animais porque os adoro, porque são seres inocentes, sem culpa de estarem nas mãos de uma espécie tantas vezes primitiva – no mau sentido. Estou habituado, neste país onde tudo é caro, a ficar de consciência pesada de cada vez que gasto dinheiro. Neste caso, entrei, comprei várias coisas bonitas e saí a sentir-me bem comigo próprio. É uma sensação que todos deviam experimentar de vez em quando – gastar sem desperdiçar.

Etiquetas: ,


Damon at 4:50 PM


canção do momento: muse, "supermassive black hole"

Há notícias que nos atingem como o arrepio do wasabi num restaurante japonês. Depois de breves instantes de incómodo, lá nos recompomos. É mais ou menos isso. Costumo dizer que não gosto de surpresas, talvez por não me sentir confortável no momento do susto. Como todos, aliás. E quando não a percebo, a notícia torna-se corrosiva. A distância aumenta o suspense. Estou aparvalhado. Mas hei-de concluir que tudo não passa do mais natural dos instintos.

Etiquetas: ,


Damon at 11:32 AM

Sábado, Outubro 24, 2009

canção do momento: Czars, "Goodbye"

Acabei hoje de ler o livro de todas as polémicas em Portugal. Confesso que não me satisfez, não pelas ditas questões que têm aparentemente feito disparar as vendas do romance, mas pela escrita apressada que se sente a partir de certa página. Gosto muito do escritor Saramago, mesmo estando muito longe do político Saramago e a alguma distância do cidadão Saramago. Esperava mais de “Caim”. E compreendo que possa chocar os mais comprometidos com o alvo das críticas. A mim não me choca.

Estava frio na praia. O que não impediu a presença de inúmeras famílias nas suas areias. E cães, muitos cães simpáticos. Vi mesmo algumas adolescentes despidas de preconceitos nadando em roupa interior naquele mar gelado. Imagem bonita. Agora, estou constipado… Outra vez.

Etiquetas: , , , , , ,


Damon at 6:57 PM

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

canção do momento: elbow, "powder blue"

Trabalho intenso. Preocupações. Primeiras desilusões. Saudades – mais ninguém as tem. Assim se pode dizer que têm sido os últimos dias. Como a curva trepa pelo gráfico acima para logo a seguir cair numa cova escura, aí como aqui. Gente difícil. Como eu. Talvez não como eu, mas difícil, de qualquer forma. Eu, sozinho entre a multidão. Estrangeiro reforçado pelas minhas ideias: não gosto de beber, não fumo, não gosto do facebook, oiço música alternativa; o pior de tudo – por vezes sinto-me triste.

Etiquetas: ,


Damon at 1:30 PM

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Começo a pensar que não estou em Inglaterra. Segunda semana aqui e só choveu durante trinta minutos, no máximo, e mesmo assim daquela chuvinha minúscula que quase não se sente.

Hoje é o primeiro dia. Mais um primeiro dia que me faz pensar em Sérgio Godinho e na sua canção profética que eu adoro. Daqui a pouco vou encontrar uma universidade a abarrotar de nacionalidades e intenções. Isto tudo com as minhas bem presentes. As intenções, quero dizer.

Sonhei com o meu antigo emprego. Passo as noites em Portugal, entre os meus cães, sítios que quis trazer comigo e, pelos vistos, trabalhos de outra vida.

Etiquetas:


Damon at 10:48 AM

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

canção do momento: Franz Ferdinand, "No You Girls"

E ao quinto dia, choveu, acrescentando a nitidez à ideia de que estamos mesmo em Inglaterra. “E estamos”, respondeu em coro o grupo por vezes designado “Nações Unidas”. Sim, também há ingleses por aqui mas, para já, o sítio parece ter sido colonizado por nós, criaturas multicoloridas, com sotaques mais ou menos estranhos, mais ou menos estranhamente familiares. Suponho que o núcleo duro do grupinho que teve a sorte – nada de ironia, é verdade – de se encontrar na espécie de quintal desta residência é composto por: um português que tem que explicar porque tem sotaque inglês; um sul-africano; uma austro-húngara de origem alemã que tem sotaque americano; uma grega; uma francesa; um indiano da Índia; um indiano de outro planeta, que me faz sorridentemente lembrar um amigo açoreano de outro planeta também :-) Cinco dias depois, começo seriamente a desejar que não nos desencontremos quando as aulas começarem.

Etiquetas: , ,


Damon at 10:47 AM

Domingo, Setembro 20, 2009

Admiro imenso as pessoas que se fazem ao caminho para atravessar meio mundo e depois chegam aqui com um sorriso nos lábios e, aparentemente, sem grandes lamentos. Do pequeno grupo que encontrei para já, sou o mais velho e, tirando a francesa de vinte anos, aquele que terá mais facilidade em ir a casa mais ou menos regularmente. Mas a verdade é que sou eu quem - mais uma vez, aparentemente - está a sofrer mais com a mudança. E estou. Não vale a pena negar, até porque não acredito nessas coisas de esconder as fraquezas para parecer mais duro. Todos temos fragilidades. Talvez esta seja a minha. Ou uma das minhas. Estou aqui há dois dias, vou a casa em Outubro e parece que o mundo me caiu em cima.

Bournemouth, Inglaterra.

Etiquetas:


Damon at 10:11 AM

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Que o João Fernando Ramos é um pivô medíocre, isso não é novidade, mas quando o apresentador do Jornal da Tarde da RTP1 resolve dar uma notícia como a da realização de mais uma tourada de morte em barrancos afirmando, com o seu desajustado sorriso nos lábios, “há contestação mas os aficionados não estão nada preocupados”, consegue roçar o insulto. A televisão pública continua, aliás, a pactuar de forma - direi mesmo - desonesta com a organização de eventos sanguinários, que em nada prestigiam um suposto serviço público cujo primordial objectivo deveria ser o de civilizar as pessoas. No entanto, bastaria ver cinco minutos dos estupidificantes programas da manhã – e nesse caso, não que os dos outros canais sejam melhores – para perceber que “serviço público” é coisa de glossário do tempo em que ainda se pediam “cimbalinos” e se dizia “por obséquio”.

A suspensão do Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes é, acima de todas as suspeitas que possam existir, uma bênção para os amantes do jornalismo. A TVI aliás não faz jornalismo, apenas se limita a prolongar o longuíssimo departamento de ficção. Olha, porque não pôr a Mariana Monteiro a apresentar o Jornal Nacional? O conteúdo era o mesmo e o espaço “noticioso” ganhava contornos bem mais… aprazíveis…

Gosto muito de bebés. E normalmente os bebés gostam de mim, tenho que admitir. Mas também devo confessar que ultimamente tenho receio de olhar para eles e sorrir. Isto anda tudo viciado e, com ou sem razão, há pais que já nem isso toleram. O que está mal é que isso geralmente só se aplica quando somos nós, homens, a tomar a iniciativa. Pergunto eu: não há mulheres mal-intencionadas?

Etiquetas: ,


Damon at 12:20 AM

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Está uma bela noite. Talvez para nos compensar do Agosto a armar-se em frio. Sim, senhora, as estrelas a pintar o céu, até aquele cheiro a fumo que, ao ritmo do ladrar dos cães, leva a crer que alguém pega fogo a uma floresta. Estar-se-ia bem na esplanada, não fosse a inacreditável pontaria de quem achou que a Romântica FM seria a melhor opção sonora para uma noite de fim de Verão – ou para qualquer outra, digo eu. E pronto, é isso. Uma bela noite…

Etiquetas:


Damon at 12:21 AM

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Chega uma altura em que convém perceber a virtude do silêncio – diz-nos coisas bem concretas, como por exemplo, que é tempo de calar e andar, sem necessariamente esquecer, mas desvalorizando as vicissitudes... Não me aconteceu muitas vezes tentar contactar alguém há algum tempo calado e essa pessoa ignorar o meu apelo, permanecendo muda. Aconteceu-me as vezes suficientes para perceber que os interesses mudam ou talvez nunca lá tenham estado, que a certa altura ficamos bem é nas memórias e não no presente. Não deixo de ter pena de cada vez que me mandam calar em silêncio.

Etiquetas:


Damon at 1:24 AM

Domingo, Agosto 16, 2009

Sem querer fazer deste espaço um obituário permanente, não posso deixar de notar que, depois de Sir Bobby Robson, mais um admirável senhor de enorme sorriso nos deixou – cedo demais como sempre seria. Raúl Solnado foi mestre do riso mas foi acima de tudo um grande homem com um GRANDE actor dentro dele.

O Benfica entrou no campeonato com as pernas tortas. Não que tenha jogado mal. Não que tenha jogado muito bem. Não vale a pena arranjar desculpas, mas é um facto que os jogadores do Marítimo são extremamente frágeis, vem uma brisa e desequilibram-se. Isto ainda agora começa e já promete, principalmente grandes anti-jogos de futebol sem brilho.

AJUDEM A UNIÃO ZOÓFILA. Em boa hora reparei nestes anúncios em plena Lisboa, logo gravei o número no meu telemóvel e agora posso – e podemos todos – aos bocadinhos – por uns míseros 60 cêntimos dar uma refeição a um animal abandonado. Não custa – quase – nada.
760 501 015

Etiquetas: , , ,


Damon at 11:35 PM

Sábado, Agosto 01, 2009



Deixou-nos uma das minhas personalidades preferidas, não só no desporto, como a todos os níveis. Bobby Robson, que em Portugal nunca treinou o meu clube, foi sempre um exemplo de dignidade e simpatia. Cheguei a quase passar por portista para chegar a ele. Tinha o desejo de o conhecer, o meu pai negociava regularmente com um portista ferrenho – tinha a fábrica pintada de azul e branco –, homem de alguma influência junto do papado, na altura em que Bobby Robson treinava o Fêquêpê. Nunca conseguiria nada se denunciasse o meu benfiquismo – horror, tragédia, infâmia – por isso, preparava-me para entrar camuflado no estádio das Antas e ser apresentado ao meu ídolo quando o Barcelona se adiantou e o levou para Camp Nou. Diz quem o conhecia que, para além da força, do bom humor, da educação – que exibiu até ao último momento –, tinha uma enorme sensibilidade para com os menos afortunados. Eu diria, recorrendo à vulgaridade das frases feitas, que já não se fazem homens assim. Farewell, Sir Bobby!

Etiquetas:


Damon at 2:27 AM

Quarta-feira, Julho 29, 2009

Às vezes, é preciso bater o pé, desde que não se bata a bota. Também pode ser necessário enfiar a carapuça, desde que não se enfie o barrete.

Etiquetas: , , ,


Damon at 12:35 PM

Segunda-feira, Julho 27, 2009

Hoje, apeteceu-me bater em alguém. Nada de muito extraordinário, embora também não se pense que sou do género violento. Apeteceu-me bater em alguém incerto, sem vinganças pessoais ou qualquer tipo de discriminação. Caminhava, junto ao mar, estava vento e os banhistas eram passados pelo pão ralado da areia. Costuma ser bom caminhar de olhos hesitantes entre o caminho – que há quem diga “se faz caminhando” – e o grande deserto azul. Hoje não. Pensei muito, mas é mesmo isso que costumo fazer, ao ritmo dos passos mais ou menos rápidos. E foi nessa altura que me apeteceu dar um murro em alguém. Enquanto pensava na vida que não levo, em esforços estilhaçados na rocha, na distribuição mal medida de sucessos, em todos aqueles que ontem lá estavam, hoje não se sabe bem por onde andam… Eh, pá, é que me apeteceu mesmo bater em alguém! Tanto que esse alguém começou a ganhar contornos e a já não parecer tão incerto. Tanto que quase bati em mim mesmo, para não variar. Simbolicamente, claro, como uma homenagem azeda.

Etiquetas: , , ,


Damon at 9:15 PM

Terça-feira, Julho 21, 2009

É um orgulho para mim conduzir-vos até ao site desta amiga, companheira de uma aventura americana já com dois anos, dona de um talento absolutamente irresistível. Foi um orgulho trabalhar com ela, lamento apenas que não tenha sido devidamente valorizada então. Mas sê-lo-á agora, certamente. Ela merece por tudo o que aquela imaginação é capaz de desenhar. E por me ter mostrado a vista mais inesquecível de Manhattan.

Vejam:
Rita Sá

Etiquetas: , ,


Damon at 12:44 PM

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Etiquetas: , ,


Damon at 2:38 PM

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Há já muito tempo que não pego nos meus projectos de escrita – aqueles de quem espero beijos e abraços e um agradecimento final. Em vez disso, dedico-me a trabalhos de construção arrastados no tempo ou, pura e simplesmente, a nada. Hoje, enquanto pensava na fruta que me apetecia comprar, reparei num pormenor que me lembrou de uma ideia que tive há coisa de dois anos – um pouco mais, talvez – para me relançar na maratona de escrever um romance. E reparei que continuo a considerá-la uma óptima ideia. Então porque não lhe voltei a pegar, porque estanquei o seu desenvolvimento quando tudo apontava para que fluísse com leveza até ao mar final? Preguiça? Receio? Não, não vou usar a costumeira falta de tempo como desculpa. Estou sempre a tempo, é certo, mas também sei que não devia ter parado. E agora, como recomeçar?...

Etiquetas: ,


Damon at 10:06 PM

Domingo, Julho 05, 2009

canção do momento: patrick wolf, "the stars"

Pronto, fui pela primeira vez ao casamento de um amigo. Daqueles amigos da minha idade, portanto, cuja vida e suas etapas acabam por ter um maior impacto em mim. Não vou a muitos casamentos, por isso, acabo por precisar de esclarecimentos ao longo da cerimónia, particularmente na igreja, onde me sinto completamente a mais. Mas não são esses “pés pelas mãos” a que me fui habituando com regularidade que mais me fazem pensar. É a cena típica de um filme “pipoca”: o solteirão, nostálgico e introspectivo, no casamento do amigo. Sem namorada. Sem uma “escort girl” para disfarçar. Sem nada, a não ser outro amigo – caso único – na mesma situação. Como já deixei claro, a cerimónia religiosa pouco ou nada me diz, a não ser o respeito que me merecem as crenças mais ou menos fundadas dos outros. Mas é a ocasião em si. Eu podia dizer que o casamento me é indiferente, que o que interessa é estar com a pessoa que amamos. E esta última parte é sem dúvida preponderante. Mas eu sou assim, gostava de viver numa casa à beira-mar, com um cão e um gato, a mulher que eu amo e um rebento só nosso. E também gostava de casar. E não me imaginava “tão” solteiro por esta altura da vida. Bom, que o Pedro e a Joana sejam felizes para sempre…

Etiquetas: ,


Damon at 7:01 PM

Sexta-feira, Julho 03, 2009

“You alright? (…) Please note people often do not want to know the answer!”

in BU’s Essential International Welcome Guide

Não é bom sinal… É das atitudes mais irritantes dentro do género “eu estou-me a borrifar para o próximo”. Se as pessoas não querem saber a resposta, então porque perguntam? Porque se convencionou… E há convenções que são extremamente desumanas, egoístas. Cómodas, como qualquer convenção. Eu sou daqueles que não hesitam em responder “não, não está tudo bem” quando me colocam perante essa não-questão “olá, tudo bem?”. É que não faz sentido. Pressuponho ingenuamente – ou teimosamente – que a pessoa que inquire está interessada, nem que pelo mínimo de altruísmo, em mim. Não querem a verdade, então poupem letras e saliva. Tenho dito. Com toda a honestidade possível.

Etiquetas:


Damon at 1:01 AM

Domingo, Junho 28, 2009

canção do momento: amy winehouse, "back to black"

Poucos sabem reagir à tristeza. Dissemo-lo e bem. Na verdade, é bem mais fácil partilhar uma piada numa noite de copos mais ou menos cheios, conversar sobre a vida (dos outros) do que lidar com alguma amargura alheia que necessite urgentemente de uma mão pousada na cabeça. Às vezes, é preciso saber ficar triste com o amigo, mais do que tentar mesmo animá-lo. As piadas por vezes fazem-nos chorar. Mas poucos sabem verdadeiramente conversar com um amigo triste sem entrar em pânico, em excessos de tentativas reanimadoras ou pura e simplesmente na mais egoísta das reacções: o frete. Aqueles que conseguem lidar com as crises dos outros merecem um aplauso, ainda que pouco mais recebam do mundo do que isso.

Etiquetas: ,


Damon at 11:04 PM

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Os amigos movem-se. Mesmo quando sou eu que me movo, há uma ilusão de sentidos que faz com que aqueles que permanecem, aparentemente se afastem. Como o nosso comboio estacionado na linha parece andar quando é o veículo da linha ao lado que inicia a marcha. Os amigos movem-se porque têm vida, daí que não se atirem pedras, não se culpe ninguém, são as vicississississitudes… E há sempre o medo inegável de que não fiquem. Ou melhor, de que não mantenham o seu estatuto, porque a distância é inimiga da nitidez, há imagens que têm tendência a diluir-se até desaparecerem. Não nego esse medo precoce – ainda falta um verão inteiro pela frente – mas não quero com isto mostrar falta de confiança nesses amigos. Pelo contrário. Do que eu tenho mais receio é da minha inexistência sem a sua presença – tão cobarde que eu sou. Os amigos movem-se. Movem-me. Tocam-me. Mais do que ninguém.

E os amigos são também estes inocentes bichos que adoro e que me adoram de uma forma totalmente inocente, porque inconsciente. Vi parte do debate na SIC. Não o suficiente para tirar conclusões que não tivesse já tirado. Mas ainda fico chocado com a podridão humana. Obrigado, Rodrigo Guedes de Carvalho, por trazer o tema à baila, a bem de uma humanidade desejosa de evolução.

Etiquetas: , ,


Damon at 12:32 AM

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Fecho os olhos. Sei que ninguém vai entrar porque tranquei a porta. O espaço é meu. Como se mais ninguém existisse, sou egoísta sem prejudicar ninguém – como seria bom que o egoísmo fosse todo assim. Mantenho os olhos fechados. Agora sim, sou livre de viver. E nem por isso canto, grito palavras de ordem, danço ou tiro a roupa. Limito-me a permanecer. Sentado. Sozinho. Nunca mais do que cinco minutos.

Etiquetas: ,


Damon at 12:50 AM

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Quase chove. No céu, a ameaça dura desde sexta-feira. Acordei e li as promessas no papel de parede cinzento. Li as promessas e sorri triste como faço quando oiço os políticos. Esses também todos cinzentos. As nuvens soaram demasiado sérias. Ainda me assustei. Os cães uivaram à distância. O comboio que um dia passou nas redondezas buzinou mais perto. Mas sempre quase. Sempre esse quase que não deixa ser. Apenas aproximar, ao mesmo tempo que afasta.

Etiquetas: , ,


Damon at 12:51 AM

Domingo, Maio 03, 2009

Viver, às vezes, é ligar a ventoinha a um nível aceitável, apagar as luzes e ouvir a "Gran Torino", pela dupla improvável Jamie Cullum - Clint Eastwood. Que grande filme... Que grande canção...

Etiquetas: , ,


Damon at 10:03 PM

Sábado, Abril 11, 2009

I am yet to decide
Whether to write
Or too wrong...

Damon at 2:03 AM

Domingo, Março 15, 2009



Vou enviar para Inglaterra o DVD que marcou aqueles meses de 2004. Que saudades das filmagens na Afurada, no Palácio de Cristal (schhhiu, clandestinas), na estação de comboios abandonada… Tem um cheirinho a adrenalina bem aplicada, esta curta-metragem, pioneira dos vencedores do LSI Dourado… Vai servir de amostra de tempos (bem) passados, lá em Bournemouth. Com o DVD, vão estes três seres estranhíssimos da fotografia, o Bum, a Bella e o Basil, bem como o sensível Manel, o terrível Inverno, a fria Luísa, o frustrado Graham, e muitos outros… Esperemos que eles sejam “sensíveis”, se percebem a ideia…

Etiquetas: ,


Damon at 11:00 PM

Quarta-feira, Março 11, 2009

canção do momento: "hold still", david fonseca e rita redshoes

Está um fim de tarde daqueles. Eu aqui, a ouvir a “Hold Still”, com o David e a Ritinha, enfim… Parece que viajo e gosto e não gosto. Mergulhei em poemas velhos ou antigos, já nem sei. Recordei revoltas de adolescente e tive saudades. 1997. Tanto tempo. E nada. Estes fins de tarde continuam a ser daqueles. E eu continuo a vê-los com a mesma sensação. Do mesmo sítio. No mesmo número.

Etiquetas: , , , ,


Damon at 6:50 PM

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Às vezes, apetece fazer top's... Quanto mais não seja para descontrair antes de uma conversa importante. Hoje é este, amanhã pode ser outro, etc...

Eis uma lista de canções que me andam na cabeça ultimamente:

1.Franz Ferdinand – Ulysses
2.The Hours – Back when you were good
3.Morning Runner – It’s not like everyone’s my friend
4.The Hours – Ali in the Jungle
5.Kaiser Chiefs – Never miss a beat
6.Franz Ferdinand – Live Alone
7.Lily Allen – The Fear
8.The Hoosiers – Cops and Robbers
9.Goldfrapp – Clowns
10.Morrissey – Piccadilly Palare

Etiquetas:


Damon at 11:54 AM

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Frente ao espelho I

Cá estou eu,
Mais uma vez,
Frente ao espelho.
Fina tela de gozo.
Espera por mim todos os dias.

É como se do outro lado
Eu fosse mais feio,
Pior ainda porque o vidro
Se foi riscando
Com o cair da areia
Da erosão dos tectos.

Cá estou, no entanto, incapaz
De me pôr a andar,
Dar de frosques
A toque de corrida,
Sem nunca voltar o pescoço
Para dizer adeus.

Limito-me a
Contemplar a figura odiada,
Desejar outra em lugar dela,
Chego a ter pena do que vejo.

Fico aqui horas a fio,
Cosendo incapacidades,
Inércias e indecisões.

Etiquetas:


Damon at 6:09 PM


Já me tinham falado do blog, mas confesso que ainda não o tinha ido ver. Sinto-me envergonhado por isso. Iniciativas como esta são louváveis em todos os sentidos e merecem ser apadrinhadas. Por favor, ajudem as meninas do Pintas com Pinta a melhorar a vida de - pelo menos - alguns animais menos afortunados.

Etiquetas: ,


Damon at 11:22 AM

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

História da chuva

Quero chover,
Encharcar de mim os teus cabelos,
Dar brilho à tua pele esquecida
De amor, de abraços, de apoios.

Fazer história, correr rua abaixo,
Em direcção ao rio turvo,
Onde se misturam as lágrimas
E os químicos, lavada a roupa suja,
Quero polir as pedras,
Esculpi-las das memórias
Da minha passagem por ti.

Quero riscar as luzes,
Criar ilusões nos reflexos,
Fazer-te sorrir, acreditando
Na inocência das águas,
As mesmas que matam em alto mar.

Que me bebas,
Que me chores,
Que laves em mim os dedos cansados,
Que te queixes dos meus dias,
Usando-me como desculpa
Para as horas em que és insuportável.

Prefiro chover eu.
Não gosto que chovam pedaços de céu.
E não quero que sejas tu
A desfazer-te em dias cinzentos.

Etiquetas:


Damon at 3:43 PM

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

O dia em que que levei com o vocalista dos Kaiser Chiefs em cima

Não ando propriamente na mó de cima, por isso não estava com um espírito particularmente adepto de concertos rock, com energia e saltos e excessos. Gosto de Kaiser Chiefs porque os considero uma lufada de ar fresco, ao mesmo tempo que me lembram a adolescência ao som dos Blur, dos Pulp, dos Elastica, etc. Ricky Wilson é uma máquina, em palco, não sei - nem quero saber - onde vai ele buscar tanta energia, mas é de facto contagiante. O que eu não esperava era que, estando mais ou menos a meio do Coliseu do Porto, assim de lado, discreto e pacato, acabasse por levar com o vocalista da banda em cima...

Tudo aconteceu quando ele resolveu saltar do palco, misturar-se na multidão em êxtase e escalar até às cadeiras da tribuna, onde se sentou um bocadinho, para logo a seguir mergulhar no público cá em baixo. Exactamente onde eu estava. Lá estiquei o braço, mais para impedir que ele e eu nos estatelássemos do que para tocar a camisola transpirada do moço. Mas pronto, é mais um momento que fica para contar aos netos, quando os Kaiser Chiefs tiverem a idade e o aspecto dos Stones...

Etiquetas: ,


Damon at 4:40 PM

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

A avó Ermelinda (Linda, como lhe chamávamos, por ser linda mais do que por ser Ermelinda) fazia hoje anos. E faz hoje falta, como fazia sempre, mas agora então, aquela predisposição para brincar com coisas sérias… O sentido de humor que lhe permitiu lutar de frente contra as mil e uma doenças e os infinitos azares que lhe bateram à porta, ao longo da vida. Então, agora, aquelas histórias repetidas, do tempo da aldeia, contadas sempre com o mesmo entusiasmo. Então, agora, chegar a casa e encontrar algum conforto bem-disposto na pessoa com mais problemas lá do sítio…

Etiquetas: ,


Damon at 5:23 PM

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Isto não é para mim. Eu sou escritor. Vejo coisas onde elas não estão. Não vejo objectivos. Vejo movimentos. O sol é mais do que um carimbo no céu. Uma porta não é um ponto por picar. Uma porta é o início de uma aventura. Bem se vê, não segui engenharia nem economia nem matemáticas. Isso não é para mim. Eu sou escritor. Mau e Bom. Quem quiser, venha comigo.

Damon at 4:19 PM

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

canção do momento: snow patrol, "chasing cars"

Na sala de espera de um hospital, entre correntes de ar que cumprem o papel de angariadoras de clientes, às 3 horas da manhã.

Distraidamente, a televisão ficou no mesmo canal que dá concursos e telenovelas, e agora provoca com cenas muito próximas do limite diabólico da pornografia. As senhoras mais velhas tapam os olhos com as mãos semi-abertas, como fazem as crianças ingénuas, e espreitam sem querer por entre os dedos. Os homens pasmam. As raparigas sorriem e mordem os lábios. Eu sorrio e dou graças à ironia, que ainda nos faz mexer os lábios para cima.

Se chega uma ambulância, meia dúzia de súbitos samaritanos confundidos entre a realidade e o “Tá a gravar” aproxima-se de imediato, esfomeada, mas faz cara de preocupação, que é o que interessa.

A coluna, rouca, afónica, chama os doentes e seus familiares como se estes fossem “um prato de sopa para a mesa 5”. A maioria das vezes não se percebe metade do discurso, mas nem por isso se repete. A vida desta gente não vale assim tanto. Cabe toda numa sala de espera de um hospital, às 3 horas da manhã.

Etiquetas:


Damon at 3:58 PM

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

É assim o minuto em que tudo parece bem:

O café da máquina hoje até nem sabe tanto a comida fora do prazo. Da sala ao lado, ecoa a voz do Chris Martin numa ironia desgraçada e fantástica: “we live in a beautiful world, yeah we do, yeah we do”. Através da janela, apesar da chuva, um passarito empoleira-se nos braços pouco mais fortes do que ele do arbusto que veio para aqui ao engano, e por cá ficou. Depois, o pássaro voa. O café acaba. A música entra em fade out. Fico eu, o arbusto e a chuva. Unidos pelo minuto que acabou. E pela eternidade menos bonita que regressa.

Etiquetas:


Damon at 11:28 AM

Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

Acho que me habituei a este peso no peito, um aperto de consciência que não sei explicar. Vivo todos os dias com a sensação de ter cometido um crime, como um alarme que encravou e me persegue, obrigando-me a um sentimento de culpa. De quê? Não faço a mínima ideia. Mas entretanto, calafrios, dor de cabeça, dor de barriga, fechar os olhos e viver a montanha russa da Disneyland Paris. Para não encontrar nada. Nenhuma razão. Mas continua, sempre.

Etiquetas:


Damon at 2:49 PM

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

No entretanto,

Enquanto os teus assuntos se resolvem no janeiro quente do outro lado do mar, muita coisa vai mudar, por aqui, vais ver. Vou fazer a barba, cortar o cabelo e comprar roupa nova. Encontrar todos esses seres mais ou menos objectos de que falámos. Voltar a escrever, a pintar, a fotografar. A mostrar o que faço. Erguer-me como se fôssemos chutar uma bola contra o meu portão. Sentir-me eu como tu te sentirás tu. Para que, depois do entretanto, quando voltares, nos sintamos nós. Eu, às vezes, sou assim, como um Mark Renton com um saco de dinheiro na mão, ao som dos Underworld, no fim do Trainspotting. É. Eu às vezes tenho esperança. Enquanto não tropeço.

Etiquetas:


Damon at 10:45 AM

Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

Vi-me rodeado de desconhecidos, muitos deles da tua idade, muitos deles teus colegas, se tu tivesses chegado lá, se te tivessem deixado ser quem merecias ser. São estudantes, estes rapazes e raparigas, meninos e meninas, homens e mulheres, andam na escola e sonham com a universidade, andam na universidade e sonham com uma vida longa. E quase bati no fundo, quase fugi para o pequeno cubículo que serve de armazém. Não te deixaram vir cá, levaram-te para outro lugar, que talvez seja melhor – quero acreditar que sim – mas eu queria-te aqui, a sonhar como os outros, a caminhar como os outros. Estou entre estudantes. Faz hoje três anos que acabei o curso. Faz hoje três anos que não tive tempo para celebrar, porque o mundo quis cair-me em cima. Mas não caiu. Seria uma falta de respeito não viver a vida que tu tanto adoravas e te tiraram antes do tempo. Mas gostava mais que vivesses comigo, aqui, entre os estudantes da tua idade.

Damon at 4:23 PM

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

Poema-mensagem sobre Londres naquele dia

Isto
É uma espécie de SMS.
Mas sabes que, para mim, é
Sempre Mais Simples
Pegar na esferográfica e,
Ainda que risque,
Adultere e viole o espontâneo,
Sou mais capaz de dizer o que sinto.

Mal de mim
Que digo o que sinto.

Londres é cinzento.
É o céu da cor dos prédios
E os prédios da cor do céu.
Aqui e ali,
Umas manchas vermelhas
Escorregam pelas ruas húmidas.

Outras manchas,
Pretas, mais pequenas,
Apregoam o seu estilo
E vendem-se em miniatura
Como Galos de Barcelos.

Londres é azul,
Porque a luz cinzenta
Assim se desenha
Nos edifícios cinzentos.

Londres é dourado,
Só para enganar,
Pintam-se as pontes
E o cume das estátuas,
Que se querem altas,
Para que se confundam com
Aviões que voam baixinho
E contrastem com o céu.

Londres é amarelo,
Porque o dourado
Perde inevitavelmente o brilho.

Ou seja:
Londres é colorido.
Mas só com dois pares de olhos
Se consegue ver as cores.

Londres
Não é como Paris.

Em Paris,
Está escrito
Que se anda de mão dada
À pessoa oferecida.

Em Londres,
Passeiam-se os amigos,
E o romantismo
É o desse abraço quente
E permanente.

Aqui,
Sinto-me mais português
Do que na China.
O meu sorriso é verde
E vermelho,
Com um escudo
Na ponta do nariz.

Sussurro na névoa
Da minha respiração
Palavras da nossa língua,
Cantadas com mais força,
Até parece!

Mas sou generoso.
Dou-lhes o sorriso que não têm.

Em troca,
Peço apenas que me deixem
Viver um bocadinho
Deste país que arrepia.
Que vicia.

Estou triste,
Sem o abraço quente,
Sem distinguir as cores submersas
No reflexo do rio.

Mas sei
Que vou cá voltar.

Again and again.

Mesmo que sozinho
E a preto-e-branco.

Londres, 29 de Novembro de 2008.

Etiquetas: ,


Damon at 3:54 PM

Sexta-feira, Novembro 28, 2008

Ontem, enquanto fazia zapping para evitar o canal 29 da ZON (nem perguntem porquê...), vi outra maravilha da tradução numa série da FOX:

- If left untreated, it could kill you.

Tradução:

- Se a esquerda não for tratada, pode-te matar.

Citando esse grande linguista e sambista nas horas vagas, Alberto João Jardim, "'Tá tudo grosso ou quê?!"

Etiquetas:


Damon at 8:26 AM

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

canção do momento: kaiser chiefs, "try your best"



“Reviver o Passado em Brideshead” é uma história complexa, polémica para a época, mas também, na minha opinião, um dos melhores textos jamais escritos. Evelyn Waugh, que era um homem e sim, Evelyn era mesmo o seu nome, apesar de criticado por George Orwell ou Martin Amis, teve em “Brideshead Revisited” uma obra-prima, a meu ver.

O filme, com o “fininho” Matthew Goode, a orgulhosamente avantajada descoberta de Woody Allen (à falta de Scarlett), Hayley Atwell e a irrepreensível Emma Thompson, está bem feito, os actores são os bons novos pupilos da melhor escola do mundo na arte de representar, em particular, papéis de época.

Então, o que levou um senhor chamado Luís Zanguineto a vir à baila e de forma tão veementemente nauseabunda (bela junção de palavras caras)? Conhecem a sensação de, num jogo de futebol bem jogado, entre duas grandes equipas, aparecer um árbitro (português, pois claro) que, com a sua mediocridade, arruína o espectáculo? Pois bem, o senhor Zanguineto não é árbitro, mas teve o mesmo efeito sob o filme de Julian Jarrold. O senhor Zanguineto é um pseudo-tradutor que fez a maior borrada da História do cinema, pelo menos, dos filmes que eu vi, e já são alguns. Do princípio ao fim, sucedem-se erros em português (“conheçes”, “fizes-te”, etc.) mas também traduções fabulosas como “Parado, eu sei o que fizeste” para “Still, I know what you’ve done”. As frases não são exactamente estas, mas garanto a semelhança.

Talvez noutros tempos eu desculpasse mais facilmente o senhor Zanguineto, vá, teve um dia mau, a mulher trocou-o por outra, o gato deitou-lhe abaixo a pilha de cd’s “Romantic Ballads”… Mas, sabe, senhor Zanguineto, a vida está difícil, e eu tenho amigos que estão desempregados. Um deles é tradutor. E competente.

Etiquetas: , ,


Damon at 11:20 AM

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

“Long ago, we let the stars go free...”
Prefab Sprout, We let the stars go

"Ne me quitte pas, il faut tout oublier..."
Jacques Brel, Ne me quitte pas

O poder da música é infinito. O meu maior vício. Uma seringa que me entra pelos ouvidos... Melhor, uma cotonete, que faz cócegas... Uma fuga para o mundo onde tudo tem o ritmo que eu lhe dou. E os sonhos se realizam quando pressionamos a tecla "play".

Etiquetas: , ,


Damon at 5:23 PM

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Não tenho mais nenhuma amiga com uma voz destas. Desculpem. Tenho amigas fabulosas, lindas, sensuais ;-), geniais e generosas, em suma, as melhores do mundo, mas mais nenhuma canta como a Reni. Ainda agora, mais de um ano depois do nosso último encontro musical, arrepio-me todo ao ouvir a “Swim” ou a “Garden of One” – mas principalmente a primeira – e a lembrar-me de auscultadores em jeito de tapa-orelhas, caminhando pela Bleecker, pela Houston, pela Ludlow, e depois de volta, pela estação de metro da Brooklyn Bridge, pelos destroços vivos do World Trade Centre, de volta a New Jersey. Também não tenho mais nenhuma amiga que esteja a gravar um álbum com uma grande editora – um amigo, sim, o Rui e os “seus” X-Wife – e que me tenha mandado um e-mail esta semana, lembrando-me de que não se esqueceu de mim, de que conserva os meus poemas e as fotos de Portugal que lhe mandei. Cheguei a pensar ter metido a pata na poça, com a minha espontaneidade latina, indisfarçáveis emoções sempre à flor da língua. Pelos vistos, não, e ainda bem. Aqueles que ainda não o fizeram, oiçam “Swim”, de Reni Laine, e percebam o que eu quero dizer. Ou pelo menos aproximem-se.

Etiquetas: , , ,


Damon at 10:21 AM

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

canção do momento: caetano veloso, "the man i love"

Lá fora, senti o vento adormecer-me os membros, enquanto lutava contra o caminho e todos os seus aliados atmosféricos. Senti pequenas lágrimas secas prejudicando a visibilidade, transtornando os olhos forçados a olhar em frente, mas para baixo, quando “the only way is up”. Desculpas. Mas, e cá dentro, porquê este calor parecido com o frio exterior? Porquê estas queimaduras de gelo, esta máquina de acinzentar os dias de sol?

Etiquetas: ,


Damon at 10:24 AM

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

canção do momento: suede, "sadie"

E que tal, um dia, sair do trabalho, à tardinha já escura, com as estrelas a entrar na sala do céu e a instalarem-se lentamente para o filme da noite, entrar no carro e ligar o rádio – Morrissey, “Vauxhall and I”, hoje, pode ser? – e dar à chave como quem sorri, atravessar a cidade como quem voa devagarinho, ver nos sinais vermelhos uma pausa, nos verdes uma aproximação e nos amarelos a certeza de que depressa ou devagar, não importa, chegar a casa – aquela virada para o mar, pode ser? – e encontrar o cão e o gato a brincar juntos, na cozinha, levantando-se em uníssono para as boas-vindas, ir fazendo o jantar enquanto não chegas – lasanha, hoje, pode ser? – e pôr a música a tocar enquanto o forno aquece – Elvis Costello, agora, pode ser? – até que o som de reco-reco da chave na porta me faz aproximar para te acolher nos meus braços – pode ser? – e passarmos o resto da noite a conversar na sala, com o mar cantando lá fora…

Etiquetas: , , , , ,


Damon at 12:02 PM

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

Paus e pedras

Dançam paus e pedras
À minha volta, querem
Que eu seja o Sol,
Que eu esteja só
Como o Sol.

Por vezes, sinto
O toque do quartzo
Nas manhãs, no meu quarto,
Se me intrometo na rota,
Se me desvio do trajecto.

Por vezes, sinto
As farpas do carvalho,
Ardem como o Capitólio
Nos sonhos de um revolucionário,
Espetam-me a pele
Como se me fossem devorar
Com batatas e salada e arroz, ao jantar.

Dançam paus e pedras
À minha volta, querem
Enganar-me com as suas danças,
Esperam a voz de comando,
Entretanto, de mãos dadas,
Dançam à minha volta,
Querem é manter-me debaixo de olho,
Para certeiras, me partirem
Em pedaços iguais a eles.

Etiquetas: , ,


Damon at 6:11 PM


Graças a um comentário muito bem-vindo ao meu último post, achei por bem acrescentar-lhe mais um momento de "muffin-sickness":

-Coffee Republic, Oxford, num Inverno difícil, esperando a chegada de um amigo para ajudar a dar valor à vida

E um outro:

-na Foz, agora e sempre, mesmo que não haja muffins...

Etiquetas:


Damon at 6:07 PM

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

My blueberry muffin...

Tenho andado com saudades dessa especialidade gastronómica anglo-saxónica. E ainda que seja um apreciador confesso do dito “queque”, admito que o facto de o associar a momentos e locais específicos tem um peso considerável na minha nostalgia:

- no Tesco’s, em Inglaterra, retirados de um cesto e postos em sacos de plástico para depois serem comidos num banquinho de Hyde Park, Holland Park, Lightoaks, etc.;

- no Starbucks, em Nova Iorque, perto dos escombros do World Trade Centre, numa pausa rara, entre o metro e o path para New Jersey;

- noutro Starbucks, em Barcelona, perto da Praça da Catalunha, ansioso, fazendo tempo para ir até à Ronda de la Universitat, ao fim da tarde.



Também ando hoje a ouvir demasiado a “Peeping Tom”, dos Placebo. Aquelas linhas “I’m faithless, I’m scared” batem nas paredes num ricochete constante. Nunca vão embora. Vão embora. Embora.

Etiquetas: , ,


Damon at 11:12 AM

Terça-feira, Setembro 23, 2008

canção do momento: monaco, "sedona"

Não me apetece beber leite espanhol. Não depois do episódio insultuoso de ontem, na Galiza, onde se viram rios de leite português – e que fosse sérvio, bangladeshi ou guatemalteco – correndo em rio pela estrada fora, com a conivência – e algo mais – dos produtores da zona, que protestavam ali ao lado contra a importação desse alimento a partir do nosso país. O leite é um bem essencial, pelo qual choram milhões de pessoas por todo o mundo. Este tipo de protesto revolta-me, dá-me vontade de tudo menos de me solidarizar com os manifestantes. E em abono da verdade, é bastante frequente no nosso país vizinho.
Por outro lado, imaginem o que seria se boicotássemos tudo o que importamos de Espanha?...


V. S. Naipaul escreve bem que se farta – pudera, estamos a falar de um Nobel. Mas o que importa realçar é a simplicidade da sua escrita – simples, não básica. A impressão que me dá é que, em Portugal, um escritor que escreva de forma simples só é elogiado se for estrangeiro. O Eça já lá vai, agora confunde-se simplicidade com a banalidade de uma Margarida Rebelo Pinto – entre outras vedetas. Elogia-se imenso alguém que dá a volta ao texto de tal forma que mal se percebe e ainda menos se sente o que lá está. E vamos andando pelos caminhos movediços do pseudo-intelectualóidismo. Leiam “Miguel Street”.

Etiquetas: , , ,


Damon at 3:08 PM

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

canção do momento: prefab sprout, "carnival 2000"

Aleatoriamente, numa lastfm cada vez mais activa, calhou-me a “Carnival 2000”, dos Prefab Sprout. E então senti que a desconfortável cadeira roubada provisoriamente ao jardinzinho se desprendia do chão e, entre uma mistura de confetti e estranhos gritos de guerra – daqueles que não fazem mal a uma mosca – pairava no ar. Mas em 1995. Comoveu-me. Fez o coração bater com mais força, mais depressa, com toda a juventude possível. Pá, os Prefab Sprout… Tanta inocência junta!

Etiquetas: ,


Damon at 6:32 PM

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

canção do momento: the divine comedy, "to die a virgin"

Nada de especial. Nem convém dar importância a episódios destes. Mas não deixa de fazer pensar na efemeridade das relações humanas, na irracionalidade dos gestos mais pensados. Eu explico. Passeávamos num parquezinho perto de nossas casas quando avistámos ao fundo um indivíduo do sexo feminino fazendo o seu jogging vespertino na direcção contrária e, sem hipocrisias, reparámos nas abundantes formas esféricas que lhe povoavam o peito – há sempre uma forma estupidamente cara de dizer as coisas. Uns dois segundos depois, ambos devemos ter pensado se seria a nossa antiga colega de turma – uma daquelas que, não sendo amigas, faziam parte do núcleo com quem nos dávamos bem. E eu, em particular, não me dava bem com muita gente, naquela turma. Bom, confirmámos as suspeitas e preparámo-nos para o encontro – o “então, o que tens feito, blá blá”. Não é que a nossa avantajada amiga, de auscultadores colados aos ouvidos por via do cerúmen, se limitou a baixar os olhos e a seguir? E mais uns minutos, repetia-se a situação. Rapidamente concluímos que não valia a pena comentar. Mas estou certo de que ambos ficámos a pensar nisso. Em quê, concretamente, não sei.

Etiquetas: , ,


Damon at 6:04 PM

Sexta-feira, Setembro 12, 2008

Foi uma honra ser convidado para sugerir alguns livros no blog do Clube Literário do Porto.

Podem ficar a conhecer as minhas escolhas aqui:

www.clubeliterariodoporto.blogspot.com/

Damon at 3:31 PM

Segunda-feira, Março 10, 2008

canção do momento: missy higgins, "sugarcane"

De Espanha não vem bom vento, mas vem bom exemplo…

Nem vou comentar a questão do “bom casamento” poder vir ou não de Espanha… Também não estou a falar das muito comentadas eleições espanholas – demasiado comentadas, quanto a mim, irrita-me a forma como nos colocamos a nós próprios no mapa como a província não-oficial deles.

Esta noite, fui surpreendido – mas não assim tanto – com a demissão de Camacho do cargo de treinador do Benfica. Não vou fazer comentários desportivos, embora possa acrescentar que me entristeceu ver um treinador que admiro ficar muito abaixo das expectativas à frente do meu clube. Quero salientar apenas a dignidade de um homem que se podia ter deixado continuar no seu lugar – era pouco provável que o demitissem – até ao final da época e depois tirar umas férias. Viu-se contestado, assobiado no seu estádio, assumiu a derrota e demitiu-se para dar espaço a quem consiga levar a cabo a tarefa que ele, assumidamente, não conseguiu. Tendo-se demitido, não tem qualquer direito a indemnização. Mas fê-lo com uma dignidade que não se vê todos os dias: no futebol, como disse Luís Filipe Vieira; na vida, e aí entra a razão do meu comentário.

Maria de Lurdes Rodrigues é uma mulher derrotada, vencida pela evidência de ter “os sócios do seu clube a assobiá-la no seu estádio”. Mesmo que “o presidente do clube” mantenha o apoio, seria uma lição de dignidade e bom-senso seguir o exemplo de José António Camacho. Talvez ela diga que a política não é futebol. É verdade. Mas em homens como Camacho, o futebol consegue ser uma actividade bem mais nobre do que a política.

Etiquetas: , ,


Damon at 1:29 AM

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

canção do momento: the beatles, «a day in the life»

Uma voz a sério

Com este artigo, corro o risco de, por mero mal-entendido, passar por moralista, desconsiderando grande parte das muitas associações de defesa dos direitos dos animais em Portugal. Não é, de maneira nenhuma, esse o objectivo. O texto que partilho convosco esta semana passa essencialmente por uma reflexão crítica, embora consciente das dificuldades inerentes a actividades que não rimam com “lucro”, da acção das digníssimas organizações que, em Portugal, combatem os abusos de uma espécie teoricamente inferior sobre outras mais vulneráveis.
A verdade é que, no dia-a-dia, em conversas mais ou menos formais com pessoas que, como eu, gostavam de ver respeitados os direitos daqueles que vivem por cá com a mesma legitimidade que nós, sinto a frustração por muito raramente ver as propostas – seja a título individual, seja institucional – serem levadas a sério por quem tem algum poder decisório. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 3:35 PM

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Não consigo dormir. Na minha cabeça corroída, ecoam frases simples, aparentemente desprovidas de pólvora mas que, ditas por pessoas de quem gostamos, ferem lentamente na contagem silenciosa das horas nocturnas, quando o tecto do quarto é o triste céu onde somos livres de desenhar todas as apoquentações. Sem querer – eu sei que não é essa a intenção – insultam-me e magoam-me. «Superior, eu?» Tem graça… Minha cara, a razão pela qual eu desaprovo essa conduta é precisamente por te achar demasiado valiosa para esses comportamentos…

Etiquetas:


Damon at 3:25 AM


Palhaçadas de Carnaval

Gostaria de partilhar convosco a minha preocupação crescente para com as tradições que fazem com que o nosso país seja um dos destinos mais requisitados no Carnaval. Pelo menos um dos dois países mais procurados na Península Ibérica. O segundo lugar nesta lista não nos envergonha em nada. Preocupa-me é a perda da nossa identidade, através dos tão bem conhecidos “certos e determinados” interesses “derivados da questão” e, citando o desaparecido Octávio Machado, “vocês sabem do que é que eu estou a falar”. E se não souberem, dá sempre para arranjar qualquer coisinha. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 3:23 AM

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

canção do momento: guillemots, «by the water»


«Sometimes, I feel like nothing’s ever gonna change»

Deitado, deixando o sol entrar em fatias não demasiado grossas para não estragar a estúpida melancolia do quarto. Passando uma faixa à frente, «By the water», uma raridade dos Guillemots, e aquele refrão entoado num lamento permanente, como quem está habituado à frase e ao seu choro mas não hesita em repeti-la: «sometimes i feel like nothing’s ever gonna change». É assim que eu me sinto – continuo a sentir. E mesmo que constate o óbvio – muita, tanta coisa mudou – o sentimento permanece: «às vezes sinto que nunca nada vai mudar» e ficam como aço, sem que a água as oxide, as palavras «nunca» e «nada». Sendo que até a paisagem por trás de minha casa mudou: as árvores caíram de pé, cederam o seu lugar a fábricas e ruídos e sirenes e motores. Sendo que até eu perdi três quilos de lastro no último mês. Sendo que tenho menos alguns cabelos que insistiram em ficar a dormir na almofada hoje de manhã. Sendo que já veio a chuva e o sol e a chuva e a neve não veio porque todas as mulheres pareceriam vestidas de noiva, então. E mesmo assim, «sometimes i feel like nothing’s ever gonna change».


Damon at 3:27 PM

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

canção do momento: pulp featuring nick cave, «disco 2000»



Hoje é um belo dia porque hoje é o dia do primeiro episódio da quarta temporada do House na TVI!!! Alegrem-se cínicos, mal-barbeados e coxos, a saúde volta a entreter-nos depois das chamadas entre o INEM e os bombeiros... Vicodin! Vicodin! Vicodin!

Etiquetas: ,


Damon at 7:44 PM

Domingo, Fevereiro 10, 2008

canção do momento: the kinks, «dead end street»

Ontem, pela conjugação de interesses e comodidade, desci pela primeira vez até à Ribeira no elevador dos Guindais, o famoso funicular. Nos ouvidos, by the way, “The Lighthouse”, dos Interpol, estranhamente calma, uma espécie de “Song to the Siren” com guitarras. A visão do Douro das pontes e das cascatas sanjoaninas de casas e mais casas aconchegadinhas conseguiu comover-me. Um sábado de Inverno cheio de sol fez-me sentir orgulhoso desta terra tão genuína.

Hoje comentei com um amigo que, de cada vez que viajo, quando regresso, gosto mais do Porto. E não necessariamente porque as viagens corram mal. Seja a canção nacional, a de Alfama ou a do Choupal, o Porto também tem um fado. Aquela beira-rio é a nossa Severa. E canta que é uma maravilha...

P.S.: Volta.

Etiquetas:


Damon at 11:14 PM

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

canção do momento: o i-tunes encravado

Não querendo passar por arrogante convencido pedante intelectualóide, devo dizer que me choca o nível dos concorrentes que aparecem no Quem quer ser milionário?, a tasca que o Jorge Gabriel reabriu à vez com o Malato e com a Tânia. Gosto do concurso, apesar de admitir que longe vão os tempos gloriosos em que Carlos Cruz dava cartas na televisão. Aprecio o género, é um alívio momentâneo do vómito seboso que é o Preço Certo, sempre põe à prova a sabedoria dos concorrentes e não os cabazes de chouriços, aguardente e papos de anjo que trazem das respectivas freguesias - acompanhados de uma medalha, pois claro, para dar ao apresentador gorducho. Mas francamente... Raramente me sento a ver o dito programa, hoje pareceu-me que o sofá estava mesmo à medida do meu traseiro, vai daí, fiz-lhe a vontade. O Umberto Eco é cubano?! De entre Leni Riefenstahl, Golda Meir, Heidi Klum e Angela Merkl, a concorrente não sabe quem foi a primeira mulher a ser eleita chanceler da Alemanha?! Bem, até posso salivar ao pensar na hipótese Heidi Klum mas sei bem que é um sonho como o de ver a Isabel Figueira abraçar a Cláudia Vieira enquanto lhe diz “Porreiro, pá!”. Os resultados, pelo menos na sessão de hoje foram: a) nenhum dos concorrentes passou dos 500 euros; b) o sofá começou a tornar-se desconfortável e resolvi ir dar uma volta…


Damon at 11:20 PM

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

canção do momento: interpol, «pioneer to the falls»

faz hoje cinco (5!) anos que dei andamento a uma espécie de muro das lamentações cibernético, um caderno tragicómico onde me permiti dizer o que muitas vezes não podia fazer em público, soltando esta garganta - e as outras, as que não tenho. Houve alturas em que deixei de o poder fazer, pouco interessava que o dissesse ou que o escrevesse, a notícia chegava onde cruelmente não podia chegar. Vítima dos humores, o blog dos que passam horas a olhar o mar sofreu intermitências que lhe danificaram seriamente a coluna, o sistema nervoso e muitos complexos de golgi de células inocentes - vêem os nomes bonitos que se aprende em ciências, durante um ano e meio? Reflecti gravemente, mais do que nunca, e cheguei à conclusão de que hoje seria um belo dia para desligar a máquina e deixar descansar um endereço que sofre de comas demasiado insistentes. Sou teimoso, acredito na vida depois do log off. Vai-se aguentar mais uns tempos... Vamos ver. Não deve fazer muita diferença, de qualquer das formas. Se o modo de vida continuar assim tão pouco saudável, então, desligo-lhe mesmo a máquina e guardo-o numa moldura com extensão do word. Depois culpo a Al-Qaeda, o árbitro, o Correia de Campos e o tempero da açorda de ontem à noite.

Etiquetas:


Damon at 3:55 PM

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Olá. A partir de agora, também me podem ler aqui!

Damon at 12:15 AM

Terça-feira, Novembro 27, 2007

E a Suécia ali tão perto…

Lá para os lados da nova romaria. Sim, o grande armazém transformado em local de passeio, então agora, que aos domingos permanece aberto mesmo depois do cozido do almoço. É ali perto, não muito longe do racionalismo sueco, onde se garante que as peças do puzzle encaixam mesmo e se faz crer que os cachorros sabem melhor com cebola frita. Assim, parece que o meu objectivo é claramente o de condenar o senhor que, há umas décadas, apostou num engenhoso método de fabrico de móveis, numa pequena cidade sueca, e que hoje se pode dar ao luxo de baptizar qualquer peça para qualquer sector da casa com nomes tão difíceis de pronunciar como os nomes completos das personagens dos filmes de Ingmar Bergman. Mas não. Nem me passa pela caneta denegrir a imagem do complexo azul e amarelo de Matosinhos, ali como quem vai para o aeroporto ou para o porto de Leixões. Situar-vos é a tarefa. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 7:27 PM

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Os animais e as catástrofes

Fim-de-semana prolongado, neste pedaço de terra abençoado pela sorte e por sabe-se mais quem, dependendo das crenças ou cepticismos de cada um. Já se mudou para a décima primeira página do calendário e apenas olhando com atenção nos apercebemos de que o Natal avança ao nosso encontro e já só está a pouco mais de um mês de distância. As janelas conservam-se abertas, como que para armazenar dentro de casa um pouco desse sol incomum, brilhante num céu cujo azul engana turistas e confunde os vendedores de gelados e os de castanhas. Sinal de perigo, dizem uns, e eu acredito… Desconfio de cada movimento das mãos humanas na manutenção da bola gigante que lhes serve de casa. Principalmente quando o poder ofusca cada um desses gestos, como se os braços precisassem de olhos e, acima de tudo, de coração. Mas isso, de momento, não vem ao caso.
Na televisão, as coisas são diferentes. Chegam-nos notícias de um México ensopado, poucos dias depois de vermos constantes chamas engolindo a Califórnia, não muito longe na simplificação de um planisfério. Já quase não há nomes para dar aos fenómenos – mais ou menos – naturais que todos os anos, durante os 12 meses, reviravoltam a vida de algum povo. As imagens dramáticas arrepiam-nos as refeições e a verdade é que somos verdadeiramente afortunados quando não sentimos na pele a revolta de um planeta demasiado cansado de agressões. Olho à minha volta e vejo os meus companheiros felpudos, acenando a cauda em jeito de concordância. Talvez eles ainda tenham mais sorte do que eu. Se o ser humano sofre com todas estas tragédias que juntam na mesma panela o fogo, a água e o vento, não se pense que sofrem menos os outros animais. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 6:13 PM

Sábado, Novembro 03, 2007

O señor Vargas

A arte, como qualquer forma criativa, não só pode como deve ser colocada ao serviço de ideais, em particular da liberdade, uma vez que seria absurdo que uma actividade tão dependente do livre manuseamento de um pincel ou das próprias mãos, se associasse a qualquer espartilho ou prisão. Os artistas, mais ou menos geniais, mais ou menos inovadores, têm sido responsáveis por inúmeras revoluções, não só a nível político, como principalmente a nível de mentalidades. É bom que assim seja.
A característica primordial que faz da arte um bicho tão estranho, tão difícil de definir no idioma dos dicionários e das enciclopédias, é a ausência de limites ou fronteiras – a liberdade levada ao extremo. A irreverência é uma arma tantas vezes usada e tantas outras vezes incompreendida. Quantos não foram os génios que, espezinhados em vida pela ousadia do seu intelecto, acabaram por ver, do repouso das suas sepulturas, serem-lhes reconhecidas capacidades dignas da imortalidade. Aplausos para todos eles. (ler resto aqui)


Etiquetas:


Damon at 4:23 PM

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

Ciência e violência: a rima maldita

A Associação ANIMAL está a organizar uma manifestação contra a experimentação em animais, e que vai acontecer amanhã, dia 25 de Outubro, às 16 horas, em Lisboa. A propósito dessa acção, mais uma que se espera, desta vez, chegue aos ouvidos congestionados de quem pode fazer alguma coisa, revisitamos um tema que remete de forma macabra para os mais violentos episódios do cinema de terror.
Porquê insistir em rimar ciência com violência, se desses versos não sai certamente poesia? Se desses versos sai o alimento de uma indústria que vive, de sorriso ensanguentado no rosto, do massacre de pobres criaturas com a desculpa do comodismo da suposta e imposta supremacia humana? Como sempre, nestas coisas da dor e do sofrimento, pede-se ao leitor que se coloque no lugar da vítima, que se imagine a servir de objecto de estudo por parte de um grupo de estranhos seres de bata aparentemente imaculada – nem o melhor detergente dos mais insistentes anúncios dobrados do castelhano consegue destruir a evidência da crueldade – que usam o seu corpo, que o cortam, que o queimam, com o leitor a ver, sem perceber, mas a ver, a sentir… Milhões poderiam descrever a sua experiência dessa forma caso tivessem acesso a um alfabeto que se traduzisse em palavras humanas. Assim, estes animais limitam-se a chorar à sua maneira, sendo ignorados porque é fácil fazê-lo. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 4:41 PM

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

À procura de Jamal

Talvez, Richard, talvez a aproximação cúmplice de Jamal aos animais o tenha levado longe demais, a um ardor trágico no fim. Mas talvez a vontade inocente de estar mais próximo desses seres incapazes de declarações de guerra em directo; incapazes de se fazerem explodir por um qualquer ideal vampiro; talvez a vontade inocente de Jamal fosse já uma forma de, sem se aperceber, mostrar ao mundo o quanto ele teria a ganhar com o humanitarismo dos animais, em vez da animalesca vontade do ser humano.
Quem já leu «À Procura de Sana», de Richard Zimler, teve a felicidade de conhecer Jamal, a sua dedicação comovedora, a sua inocência sábia, a sua ingenuidade vítima do pior que o homem tem – a inteligência que julga ser seu património. (ler o resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 7:46 PM

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

canção do momento: feist, «how my heart behaves»

Então, a ideia de esbarrar contra uma parede vazia. Melhor: esbarrar contra o vazio, a escuridão, bater, ricochete, voltar a bater do outro lado, no espelho do mesmo vazio. Caminhar sem saber, livre de perspectivas, expectativas, incentivos; preso à necessidade e à ausência da necessidade concreta. Então, a ausência de futuro. O presente dorido, desembrulhado antes do tempo, para revelar uma caixa vazia. O passado reunido na despensa, fora de validade, gritando «eu sou experiência e deves ver-me enquanto tal», sempre mas sempre insuficiente.

Damon at 11:05 AM

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

O sangue dos tubarões

Confesso que, tal como uns noventa por cento da população mundial, me borro de medo de vir a encontrar um desses exemplares em traje de banho nas praias de Matosinhos. Confesso que admiro os restantes dez por cento de seres humanos que, ou porque as pancadas foram tantas que se confundem com coragem, ou porque – esses então, tão pouquinhos – são verdadeiramente corajosos, se atrevem a lidar de perto com animais tão poderosos. Ao contrário do que possam imaginar, por se julgar que o medo serve de justificação para a violência, não admiro os homens que, abusando dos dentes afiados e esfomeados que se escondem nas suas mentes doentias, roubam sem sentido a vida a outros animais. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 12:11 PM

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

"Time is nature's way of keeping everything from happening at once."
Woody Allen.

Damon at 4:13 PM

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

As vítimas de Vick

Poucas notícias chegam a Portugal acerca do estranho futebol que leva os americanos ao delírio. Afinal de contas, eles até passam mais tempo com a bola nas mãos, aos encontrões uns aos outros, disfarçados de astronautas… Se o desporto não nos desperta interesse, naturalmente que as inevitáveis actividades paralelas dos atletas, drogas, excesso de velocidade, namoradas ou festas privadas para celebrar a primeira vitória do ano – espera, isso é no “nosso” futebol – também não vendem revistas nos quiosques das nossas esquinas. A não ser que as actividades extra-curriculares dos ditos atletas excedam o mero objectivo de vender jornais. E que essas actividades ultrapassem limites que já nem provoquem sorrisos maldosos nos lábios sequiosos dos paparazzi. Fala-se nisso há uns meses, mas só agora a velha Europa deu alguma atenção ao caso de Michael Vick. Esta estrela do futebol americano tornou-se um exemplo para qualquer jovem fã, não só pela sua capacidade de passe nem pela velocidade, mas principalmente por ser afro-americano – como eles gostam de dizer – e oriundo de uma família pobre de um bairro conhecido como «Bad News», no Estado da Virgínia. A zona onde, há 27 anos, nasceu o desportista, é a típica comunidade sem oportunidades, discriminada pela América dos dólares. Não há jardins nem campos de jogos, e o futuro das crianças decide-se entre a criminalidade e o banditismo – não, não há confusão, são mesmo sinónimos. Portanto, Vick tornou-se facilmente uma bandeira da eterna luta pela igualdade de direitos. E muito bem. Até que se misturaram as coisas. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 12:40 PM

Sexta-feira, Agosto 31, 2007

canção do momento: space, "avenging angels"

Está sol. É um fim de tarde soalheiro (e não “solarengo” como alguns condutores perigosos da língua portuguesa teimam em dizer). Os skaters andam de skate, os patinadores patinam… Está quase na hora de mais um fim-de-semana. Vou passar pelo supermercado asiático e comprar os ingredientes para fazer sushi – deu-me as saudades, já não me dedico a isso desde pouco antes de partir para os EUA, passaram-se quatro meses. Há sempre qualquer coisa que falta. Seja o molho de soja. Sejam um rolamento nos patins. Seja uma praia onde pousar o pôr-do-sol. Seja um amor para (se) fazer. Para (me) realizar. Há dias em que isso me deixa triste. Hoje não é um deles. Hoje sinto-me apenas incompleto.

Damon at 5:46 PM

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

canção do momento: mika, "grace kelly" (versão toque de telemóvel)

Chegou ao Benfica um jogador brasileiro chamado Edcarlos. Não vou falar sobre as suas qualidades técnico-tácticas, a capacidade de cabeceamento ou a percentagem de faltas cometidas durante um jogo. Apetece-me dizer que o seu nome demonstra a excelente capacidade de síntese dos brasileiros. Para quê chamar-lhe Eduardo Carlos? Eu, por exemplo, devia ser Carluís. O José Rodrigues dos Santos devia ser Jorro dos Santos. E a Sophia de Mello Breyner Andresen, nome maior da cultura portuguesa do século XX, devia ter sido Somello Breydresen. Espaço é dinheiro e a tinta está cara… Poupar uns centímetros de assinatura não faz mal a ninguém.

Damon at 12:29 PM


canção do momento: clã, "H2Homem" (até é das que gosto menos, deles...)

Parece Inverno, hoje. Apesar de cá dentro a minha testa estar tão humedecida como é costume, apenas e só para chatear os cabelos que teimam em colar-se à pele. Mas as cores confundem-se, esbatem-se e escurecem, ao mesmo tempo, num estranho tom comum de cinza. Apenas o capacete amarelo na cabeça do homem em cima do camião vermelho das obras. O amarelo que se junta à sua versão escurecida na grua gigante para contrastar com tudo o resto. Até eu vim de cinzento, contrariando as regras para um dia feliz com chuva. Um dia grisalho. Um dia que vive a crise da meia idade a caminho do meio-dia.

Damon at 11:56 AM

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

Joga à bola, miúdo. Despeja, sorridente, nesse mundo saltitão, todas as frustrações que ainda não conheces. Nada te pode preparar para o retrocesso que significa crescer. Também nada te pode parar. O que às vezes é pena. Nem a experiência te servirá de desculpa. A experiência traz um cesto cheio de rugas que se colam não só na testa, mas principalmente no peito, onde o coração conhece a senilidade muito antes desta chegar à cabeça. Usa-a para marcar golos, miúdo. Só te peço que o faças do outro lado da rua, para que não tentes este outro miúdo saudosista a partir o vidro asfixiante da janela e a juntar-se a ti. Isso seria incompatível com as responsabilidades inerentes ao estatuto de etc.

Damon at 12:09 PM

Sexta-feira, Agosto 24, 2007

Há dias em que suporto. Há dias em que até gosto… Há dias em que detesto! Parece-me que a agenda me diz que o dia de hoje é um dos perigosos exemplos da terceira opção. Ser forte e admitir que não sirvo para este tipo de coisas?... Ser forte e provar que sou forte e que consigo ultrapassar este tipo de coisas?... Desculpem, às vezes é inevitável que o pensamento se ligue ao teclado e se alivie nas palavras…

Damon at 12:16 PM

Quarta-feira, Agosto 22, 2007

canção do momento: pet shop boys, "you know where you went wrong"

Se o meu dia fosse um filme – ou um episódio de alguma série tipo “Lost”, este teria sido o escape cómico (pelo menos para já). Hora de almoço. Estou no piso 0, chamo o elevador e carrego no -1, onde está o carro. Percebo pouco de matemática mas sei que o 7 é bem acima do 0 e mais ainda do -1. É para lá que o elevador vai. A porta abre-se e não há ninguém. De repente, há umas carinhas sorridentes (umas 5) que surgem do nada e se juntam a mim no espaço apertado do elevador. São asiáticos, provavelmente japoneses (sintomas: olhos em bico e máquinas fotográficas). Sacam todos das suas maçãs, ao mesmo tempo, e quebram violentamente o silêncio, trincando de uma forma verdadeiramente ensurdecedora as suas peças de fruta. Assim descemos até ao piso -1.

Damon at 4:09 PM

Terça-feira, Agosto 21, 2007

canção do momento: ópera, não sei qual...

Pede-se à Verde Eufémia que invada e destrua os meus campos de melancolia transgénica. Parece que a alimentei artificialmente, em laboratórios sofisticados, impregnando os seus genes de químicos repulsivos. Pede-se que destruam sem piedade as suas raízes, revolvam a terra a que elas se agarraram e semeiem novas vidas – até podem ser ventos, cá estou eu para arcar com as tempestades.

Damon at 2:31 PM


canção do momento: rosie thomas, «i play music»

O que estou eu a fazer no meu emprego de impacto sonoro inegável? Formatar caracteres? Hmmm, “isso é xelente!:-)” O que fica melhor entre o nome do jornalista e o órgão que representa? Um hífen? Uma vírgula? Um ponto? Patético.

Damon at 12:01 PM

Segunda-feira, Agosto 20, 2007

Acordei com o sabor discreto da normalidade. Talvez um pouco frio. Mal sabia eu que o calor estava ali tão perto. Foi pouco depois que me apercebi do súbito desaparecimento do sol, da cor adulterada do céu. Enquanto o azul sufocava, ardiam as árvores junto ao muro da minha casa. Há já alguns anos que ninguém acidentalmente incendiava aquele pedacinho verde que nos cura a vista das fábricas que por trás dele se erguem, ameaçadoras. Mas os acidentes acontecem. E com o vento a ajudar, os acidentes podem-se tornar espectaculares exibições de luz. Alguém deve ter esquecido uma lupa por entre as folhas secas. Deve ter sido isso. Porque estas coisas acontecem sempre por razões dessas. Foi um acidente. Estamos todos bem. Tirando as árvores e os pássaros. O pior de tudo é que o autor do acidente também deve estar bem.

Damon at 12:55 PM

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

A velha, velhíssima portuguesa…

Antiga? Velha, velhíssima, caquéctica, senil, xéxé, porque “antiquada” soa demasiado solene, respeitosa até. Diz-se que velhos são os trapos, que as pessoas são idosas, garantia dada por números elevados quando os cabelos brancos não chegam ou foram entretanto tingidos. Mas velhas são também as mentalidades que insistem em defender uma cultura que a mim me faz pensar apenas em campos preenchidos por sementes vermelhas, sementes de carne de onde não crescem flores, de onde não cresce nada, a não ser a degradação de um país que reclama o preço dos livros para justificar o analfabetismo – e tem a sua razão até um certo momento.Por exemplo, as 21 horas do passado dia 9 de Agosto. Arrependi-me de morte – a morte de que eles não se arrependem – de ter escolhido aquele lugar no restaurante. Porque me irritava. Porque sou má pessoa. É verdade, sou mesmo má pessoa por desejar que alguns daqueles senhores sorridentes, pomposos, bem-regados pelo jantar, não acabassem a noite na melhor das condições. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 6:01 PM

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

Da pele e por baixo dela

1 – Da pele

Arrepio? Que palavra tão básica para uma sensação destas. Básica porque nem sequer dói. Quase não se sente. Apenas o eriçar de uns quantos pêlos, o erguer de uma textura de minúsculos pontos e o consequente esgar de estranheza. Se é isso que sentes quando te conto esta história, quando te descrevo o processo desde a raiz malévola, mostras sensibilidade, mas a repugnância solidária não se compara – não pode comparar – ao arrancar do nosso embrulho derradeiro, ao rasgar do invólucro de onde nunca é suposto sairmos. E agora fecha os olhos e sente. Mais do que o arrepio – eles agradecem o arrepio mas é imprescindível que te esforces por sentir. Agora sim, que abriste os olhos, conseguiste aproximar-te minimamente do que sente o animal esfolado vivo. Aquele que nunca percebe porque o fazem, apenas a indescritível nudez, que não fala de pudores, mas de oposição à vida. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 1:30 PM


canção do momento: travis, «new amsterdam»

Os campos de milho a caminho de minha casa deviam ser considerados património da UNESCO. Deviam ter sido nomeados para as sete maravilhas, não de Portugal, mas do mundo. Ao pôr-do-sol, deviam ser emoldurados. Naqueles pequenos segundos entre a curva depois dos armazéns, o riacho invisível e as casas que abrem portas para a aldeia, sente-se a paz, o dourado, o “corn fields forever”, como teriam entoado os Beatles, caso não tivessem nascido em Liverpool, mas na Maia. Depois dessa pausa em que o carro avança mas o tempo pára, tudo volta ao normal. Muito menos interessante.

Damon at 11:38 AM

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Gatos de Amesterdão

No caminho até à capital simbólica da Holanda – perdoem-me os de Haia, roam-se de inveja os de Roterdão – não me saía da cabeça o hálito de poeta de Jacques Brel cantando-me a vida dos marinheiros de Amesterdão. «Dans le port d’Amsterdam» não cabia neste espaço uma descrição detalhada do que fazem os homens do mar holandeses, gente desse país que tem um pouco de Atlântida e que todos dizem que um dia vai mesmo ficar debaixo de água. Enquanto isso não acontece, passeei por uma cidade que sempre quis conhecer, pelos canais, pelos hábitos libertinos que não partilho mas que gostei de ver com os meus próprios olhos. É verdade que eles mantêm uma espécie animal em cativeiro, virada para as ruas, pedindo festas e outros carinhos. O distrito da Luz Vermelha é por demais conhecido pelo à-vontade com que oferece toda a variedade de exemplares humanos, do sexo feminino. Um sentido de humor perverso e de gosto discutível podia apontar no sentido do trocadilho com o título. Mas não é essa a intenção. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 6:37 PM

Quinta-feira, Julho 26, 2007

Fui almoçar. A televisão lembrou-me de que a MTV tem um programa chamado Pimp my Ride, onde se endeusa a arte do tuning. O convidado era o governador da Califórnia, Herr Arnold. Venha o Calvário e as suas groupies de oitenta anos...

Damon at 3:34 PM


canção do momento: antónio calvário, "mocidaaaaade"

Hoje é dia dos avós. Mais um título, o que indica que, qualquer dia, seguindo a necessidade outrora enfrentada pelo Governo Celestial, de criar um dia para todos os santos, de modo a evitar reclamações, ainda vamos ter o Dia de Todos os Parentes. Para já, tudo bem, enquanto não chegamos ao Dia dos Primos em 5º grau Da Parte do Pai. O que não está bem é massacrar os netos ao pequeno-almoço para satisfazer os desejos obscuramente saudosistas dos velhinhos. Isso não se faz. Obrigar-nos a ouvir o Toy ainda se suporta, com um pouco de sorriso amarelo e um copo de sumo de laranja. Agora, o António Calvário a repetir mil e quinhentas vezes o refrão da “Mocidade” dá vontade de desejar que o 25 de Abril tivesse tido um bocadinho mais de violência. Ainda mais quando as 1501ª, 1502ª e 1503ª repetições vêm da insistência do Jorge Gabriel em que o público participe. Sempre tive uma relação especial com os meus avós, lamento que já não estejam cá, talvez nesse caso eu me calasse perante a sua sabedoria incontestável, engolisse em seco e aguentasse o frete. Mas admito que bebi o leite mais depressa e meti umas bolachas no bolso. Mais cinco minutos em frente à televisão e sentir-me-ia tão velhinho…

Damon at 12:10 PM

Quarta-feira, Julho 25, 2007

Para uma gata que morreu saudades

A verdade é que pedi emprestada a beleza triste do título a uma dona enlutada. A quem me dirijo em jeito de carta aberta, ao mesmo tempo que aceno ao animal que acabou por ver a última das sete vidas ser-lhe retirada da frente cedo demais. Era uma gata branca, de um branco como nunca vi em mais nenhum animal, parecia feita de nuvem. Muitas vezes a elogiei por isso. Ela, vaidosa, ignorava-me, deixava-se ficar no seu canto. A dona dizia que eu exagerava. No fundo, sabia que eu tinha razão, que aquele felino que se deitava nas suas costas em noites frias de Inverno era realmente um exemplar de rara beleza. Mesmo que não fosse. Ainda que tivesse o pêlo feio e as cores mal combinadas não mudaria o sentido das minhas palavras e das palavras que deram origem a este texto. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 1:03 PM

Terça-feira, Julho 24, 2007

Só para matar saudades... Porque ontem falei deste cantinho, às vezes quase me esqueço de que ele existe. Está para aqui, uma praia escondida, só minha e dos poucos que a descobrem por entre as rochas durante a maré baixa. Suponho que muitos desistam pela vigilância intermitente. Compreendo. Mas se a minha presença fosse forçada contrariaria a ideia que o fez nascer.

Às vezes, tenho saudades dos primeiros dias. Quando a ilusão de responsabilidade me fazia franzir a testa - o que agora me dá vontade de sorrir e dizer "enfim!". Mais ainda, tenho saudades da partilha dos primeiros dias. Às vezes, pergunto-me se são duas praias, se não se trata tudo de uma grande coincidência de horizontes.

Damon at 12:48 PM

Quarta-feira, Junho 20, 2007

Aquilo que se vê na grande metrópole – a maior do mundo? – pode não ser necessariamente o que se passa no seu núcleo polposo de «Big Apple». Os cães de Nova Iorque aparentam uma saúde invejável, o pêlo bem tratado, a cauda abanando em jeito de realização pessoal. Não vi um único animal abandonado, em dois meses de vai-e-vem entre Newark, capital portuguesa de New Jersey, e Manhattan, centro nevrálgico da grande cidade. Isso é inegável. E positivo. Mas não é tudo.
A questão que se me coloca é a seguinte: por onde andam os rafeiritos de Nova Iorque? Porque os deve haver, apesar de aparentemente todos os cães da cidade serem golden retrievers, huskies, caniches e outras raças difíceis de pronunciar e que muitos dos donos mal saberão apresentar.
A noite de Domingo está longe de ser a mais animada da semana nova-iorquina. Longe da ilusão de uma sexta-feira que aparenta um fim-de-semana maior do que verdadeiramente é; longe do clímax de sábado, quando a manhã de Domingo se avizinha perfeita para uma ressaca na relva do Central Park. Mas o que se vê ao Domingo à noite é que os americanos (incluindo nestes todas as nacionalidades porque aqui só há estrangeiros) escolhem essa altura para passear os seus amigos de quatro patas. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 4:28 AM

Quarta-feira, Junho 06, 2007

canção do momento: a mesma do último post...

Encontrei uma fotografia bonita num site. Uma daquelas em que fazias cara feia sem nunca deixares de ser mais bonita do que um sorriso. Lembrei-me da vontade. Lembrei-me do à-vontade e da proximidade. Aproximei-me para me aperceber dos pixels capazes de te desenhar. Dei-lhes os parabéns. Eras mesmo tu, aquela expressão não é de mais ninguém. E levantei voo. Apanhei o avião mais próximo. Apesar de saber que provavelmente ninguém me esperaria no aeroporto. E fiquei com um jet lag esquisito que me há-de acompanhar o resto do dia. Uma sensação de não estar aqui, mas mais perto. E talvez esta distância não se meça em quilómetros ou milhas.

Damon at 4:14 PM

Quinta-feira, Maio 31, 2007

canção do momento: air (featuring jarvis cocker), «one hell of a party»

Sabes que estou mal-habituado, há sempre alguma forma de chegar aí… Ainda que o telefone por vezes esteja ocupado, ou que os horários sofram de dessincronização. É quando estes dias acontecem – dias que aí chegam a ser noites – que me apercebo do vício de falar com um amigo. Perigoso. Cruel. Caio num poço e pronto, parece que à minha volta as horas não se desenrolam como deviam. Apenas o som do ar condicionado para me fazer companhia. Isto na hora de partilhar. Na altura de desembrulhar os presentes, à meia-noite – que aí chega quase a ser dia. Leio e engulo a saliva acumulada. Leio e reflicto. Leio e sinto-me cheio e com vontade de expelir essa matéria gorda que são as palavras. Talvez se chame a isto crescer-mais-um-bocadinho. Eu chamo-lhe desagradável. Eu chamo-lhe ter-que-ir-trabalhar-sem-comer. Apetecia-me tanto conversar sobre aquilo que já te disse tantas vezes. A novidade é que agora estou longe – que nunca chega a ser perto.

Damon at 2:50 PM

Quarta-feira, Maio 30, 2007

Esta semana, dei uma folga às minhas ideias, aos meus desabafos e opiniões. Deixei que aproveitassem o calor que se faz sentir em terras norte-americanas – pelo menos, em parte delas – e dediquei-me a ouvir os outros. Não que o não faça, normalmente, não me interpretem mal. Trata-se simplesmente de uma promessa aqui feita, há algum tempo, de tentar perceber o que se passa neste país que reclama o estatuto de maior potência mundial. No caso desta rubrica, não se trata da guerra no Iraque, dos discursos mais ou menos engasgados do presidente ou das exigências em termos de energia nuclear, embora todos estes temas sejam extremamente preocupantes. O artigo desta semana foi escrito em torno de uma conversa com David Perle, o coordenador de comunicações de uma das mais importantes organizações de defesa dos direitos dos animais no mundo, sendo talvez a mais activa, ainda que muitas vezes polémica. Já aqui referi antes o trabalho da PETA, cujo fenómeno mais mediático está associado ao mundo da moda. Diversos manequins e criadores juntaram a sua voz à da associação contra o uso das peles – o pêlo, mais concretamente – de animais no fabrico e supérfluo enfeite da roupa. Todavia, a acção da PETA vai muito para além desta área. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 7:40 PM

Sábado, Maio 26, 2007

A fila começa umas ruas antes. Nota-se pela predominância do vermelho-encarnado. Os pacientes impacientam-se com um sorriso nervoso e a vontade de expressar um orgulho futuro. Imaginam-se amanhã, mostrando snobmente um papel, uma camisola, uma fotografia. Espreitam de vez em quando, principalmente se um carro da polícia se manifesta, porque isso normalmente é sinal de tragédia ou de aproximação de alguém importante. E se estes alguéns são importantes... Muito mais do que qualquer chefe de Estado, estrela de Hollywood ou magnata. Passam 45 minutos sobre a hora marcada. E todavia canta-se e dança-se, não se protesta, não se esboçam tentativas de desistência nem se pede o livro de reclamações. A euforia troca-lhes as letras das músicas ensaiadas, até atingir um auge, com a entrada de uma carrinha no recinto. A polícia, demasiado zelosa, apressa-se a afastar os passageiros da ira sorridente dos fãs. Abre-se a porta e saiem três – não mais – pessoas vestidas da mesma forma. De uma forma parecida com a das pessoas que esperam. Gritam-se os seus três nomes, apelando a um sorriso impossível de não retribuir. Como aquelas anedotas que têm sempre um indivíduo de cada nacionalidade, era uma vez um português, um italiano e um cabo-verdeano em Newark. Rui, Nelson e Fabrizio. É o Benfica na América.

Damon at 11:01 PM

Quinta-feira, Maio 17, 2007

canção do momento: lightning seeds, «wishaway»

Não me lembro do dia em que nos conhecemos. Como podia lembrar-me? Apenas das fotos que nos mostravam juntos, pela primeira vez. Eu tinha um dia, ele à volta de oito meses. As nossas mães pisavam terreno inglês, de um hospital com nome de esperança, onde tive a sorte de nascer. Mais ainda do que se possa pensar. Encontrámo-nos mais tarde, repetimos os encontros uma vez por ano, se tanto, até 1995. Perdemo-nos de vista desde então. Eu fiquei pelo pequenino Portugal, difícil de encontrar no mapa mundi. Ele foi para o outro lado do Atlântico, nunca convencido, repetindo no sotaque nortenho, «I'm too proud of being British». Amanhã, reencontramo-nos em Atlanta, na Georgia, onde a família se fixou. Sei que continua «too proud» mas... será que ainda quer ser primeiro-ministro do Reino Unido quando crescer? Espera aí, o tempo passou...

Damon at 3:47 AM

Sexta-feira, Maio 11, 2007

canção do momento: reni laine, «swim»

O sonho americano

Não vejo razões para ficar.
Contaram-me a história de um sonho
E esqueceram-se de que os sonhos
Só se concretizam de noite.
E se a noite nunca acaba,
De que vale ter sonhado?

Ao jantar,
Barra-se pão com manteiga
E ouve-se o tilintar das vozes.
Os dentes dão à luz no escuro,
Comidos por dentro, reluzem,
Insaciáveis, maxilares exaustos
E ainda assim insaciáveis.

Não vejo razões para não voltar.
Pintaram-me a tela de ouro
E eu sempre achei piroso
O tom dourado das jóias
E dos discursos sobre prosperidade.

Nas ruas,
Faz-se poesia de algarismos
E dos tais sonhos, meus caros,
Tão caras miragens são bugigangas.
Da gasolina, não farás luz,
Mesmo que te queimes.

Carrego uns tesouros baratos,
Uma vida que ninguém leva nos saldos,
Insuficiente para comprar estadias
Em sítios assim.


10 de Maio de 2007,
Linden, New Jersey.

Etiquetas:


Damon at 9:17 PM

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Esta semana, na liga principal do futebol português, os eternos candidatos ao título tiveram sortes variadas. Cada um com seu resultado. Cada um com suas contas para fazer. Na sexta-feira, após o empate vazio entre Benfica e Boavista, o Sr. Azul apressou-se a ligar ao colega de trabalho, o Sr. Vermelho, para, fazendo uso da lendária rivalidade entre clubes, dar umas beliscadelas inofensivas de provocação, umas bocas sem maldade – desdentadas, como tal, sem magoar ninguém. No dia seguinte, não é que o F.C. Porto, clube do coração – e de todos os órgãos vitais – do Sr. Azul, resolve pregar-lhe a partida e, num desleixe à vista da praia, permite ao Estrela da Amadora o golo da vitória quando já todos se contentavam com o empate pouco satisfatório. Escusado será dizer que, ao dirigir-se para casa, o Sr. Azul pensava já no que o esperava. E não esperou muito. Ainda mal tinha aberto a porta, já choviam mensagens de telemóvel, devolvendo as provocações da noite anterior. Claro que todas tinham o mesmo emissor – o Sr. Vermelho, feliz da vida por poder rir um pouco com o mal dos outros. Como se não bastasse já a confusão colorida, outro colega de trabalho, o Sr. Verde, tinha deixado, no gravador do telefone caseiro, uma quantidade hilariante de provocaçõezinhas, o que levou o Sr. Azul a declarar-se oficialmente «aborrecido» e quase o fez decretar um «black out» temporário contra os dois colegas. No dia seguinte, foi a vez do Sr. Verde apanhar um susto quando o Nacional da Madeira parecia encaminhar-se para a vitória e se temiam, para aqueles lados, as perigosas brincadeiras dos colegas de outras cores. Salvou-o a reviravolta no marcador. Chegou a manhã de segunda-feira e, como de costume, chatearam-se logo ao pequeno-almoço, porque «aquilo era penalti!» ou «o Idaelson Pernambucano estava fora-de-jogo!» ou «foi falta porque o guarda-redes tinha os boxers à mostra!». (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 5:22 PM

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

canção do momento: the good the bad and the queen, «80's life»

Sentimento imperfeito

Sinto
Um sentimento imperfeito,
Uma folha rasgada
Num dos cantos
Mais insignificantes.

Talvez sofra a erosão
Dos verbos velhos, mal-amados
Do Imperfeito.

Quem sabe,
A jarra pousada
Em cima da mesa
(em cima de mim)
Padeça das flores
Que são, elas mesmas,
Mais imperfeitas
Do que as linhas do meu corpo.
E por isso, mentem
E mantêm a sua versão
Dos factos.

Sinto esta coisa
Que nem objecto nem doença
Nem carne nem sangue
Nem osso nem músculo,
Talvez a guelra que não me pertence,
O meu pulmão de Aquiles.

Barata-tonta,
Bebo a água da jarra
Como se regasse uma planta,
Completasse um padrão,
Tricotasse sapatinhos de lã,
Conhecesse o frio que vem aí.
Ou o calor ou a chuva não sei.

Sinto
Este sentimento imperfeito,
Sinto-me incompleto
E, pelos solavancos da carruagem,
Não tarda nada,
Vou achar de mim
Um perfeito disparate.

Etiquetas:


Damon at 5:02 PM

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

As intermitências de um blog

De intermitências, inconstâncias, pausas e avanços se faz este blog. O blog de um outsider, claro está. Como sempre, um blogger que não se vê ao espelho como tal. Que gosta dos blogs dos outros mas preferiria de bom grado lê-los em papel. Um blogger que critica a geração ligada à máquina para sobreviver. O que é certo – tão certo como estas palavras passando à frente dos meus olhos neste monitor – é que ele aqui continua. Disparate. Continuamos. Nós cá continuamos, quase sempre desabafando, quase nunca piadetizando para fidelizar audiências. Sempre nós. Às vezes fartos, desejando que a palavra «nós» seja finalmente um plural assumido. Outras vezes, conformados – raramente, muito raramente. São quatro anos. 4. Às vezes, esqueço-me de que há tantas outras histórias para trás…


Damon at 6:47 PM


Quando andamos na escola, contam-nos a história d’«Os Três Porquinhos». Mais tarde, deixam-nos de boca aberta quando nos falam das extraordinárias semelhanças entre o nosso organismo e o deste animal, ávido apreciador de bolotas e banhos de lama – terá sido esta a origem dos spa’s, tão na moda? E depois, mais crescidos e teoricamente educados no meio da civilização ocidental, empregamos o seu nome para insultar este ou aquele condutor com quem embirrámos, acompanhando o poema «Seu porco!» da sempre extraordinária buzinadela. (ler resto aqui)

Etiquetas:


Damon at 5:05 PM

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Televida

Senta-te no sofá,
Espera que a tv adormeça,
Depois reza a oração do dia
E pressiona o botão vermelho.
Tudo será verdade.

Os teus olhos
Serão cogumelos anónimos,
Borboletas-traças devoradoras
De todas as cores
De todos os dias
Perdidos no mar,
À pesca de um espelho.

Pobre alma daltónica,
O espelho tem estado sempre
Em cima do napron cor-de-rosa
Com bordados em forma de andorinhas,
Por cima do móvel carunchoso,
Onde guardas as pratas,
Onde guardas as fotos,
Onde guardas os bichos
Para que não te comam,
Por enquanto.

Senta-te no sofá,
Espera que a tv adormeça,
Fecha os olhos que tiveres
E espera o nascer do sol.
Ele há-de vir, a cores
E com vontade de te ensinar.

Etiquetas:


Damon at 7:10 PM

Domingo, Janeiro 28, 2007

Estou num restaurante asiático, daqueles que agora já não são chineses nem japoneses nem coreanos, juntaram-se todos no mesmo tacho. Então, ela entra, ou talvez já lá estivesse e se tenha posto de pé – o simbolismo de uma pessoa sentada não é o mesmo. É como se entrasse, como um sol esperado há muito. E não há qualquer pretensão romântica nesta expressão. Ela não é particularmente bonita. É um ser humano dourado de um cabelo que estica os braços e nos toca, despertando-nos do Inverno. É magra, delicada, sobriamente vestida a preto e branco, de mãos dadas com a sua pele. Não é assim tão alta para os padrões da sua terra – para aí 1m90.

Senta-se. Traz um tabuleiro com o prato reflectidamente decorado de alimentos saudáveis. Come com calma. Mastiga o prazer de estar sentada a contemplar o branco atípico das paredes – de mãos dadas com a sua pele.

É então que, cintilante, o pequeno tesouro se ergue nas suas mãos como uma pomba revelada pelo ilusionista. Um pequeno livro, Penguin de certeza. Começa a ler e esquece o prato e a comida. Esquece a coca-cola que se esvai numa hemorragia de gás. Esquece o empregado que levanta os pratos e atabalhoadamente pergunta se «quele soblemesa». Esquece o mundo. Vira as páginas.

Entretanto, vou encher o prato e passo por ela. Minutos depois, um cliente berra com o empregado por este o ter salpicado de molho de soja.

Depois, entra a polícia para prender um velho ditador sul-americano que comia chop suey como quem escolhe entre Estaline e Hitler.

Entretanto, uma cliente perde os sentidos e estatela-se, abrindo uma frincha no chão com o baque dos seus anéis. É dessa forma que se descobre um antigo túnel escavado no tempo em que Vale e Azevedo era presidente do Benfica.

De seguida, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Guilhufes irrompe pelo estabelecimento acompanhado pela Orquestra Sinfónica do Bahrein, para tocar uma versão de «Saturday Night Fever».

Depois, dá-se um golpe militar que coloca no poder o General Motors, seguido do respectivo contra-golpe que devolve o governo ao Capitão Iglo.

Entretanto, descobre-se que um dos cogumelos chineses é, afinal, atómico e, atónito, o vegetal explode em pleno restaurante.

A seguir, o mundo acaba.

Ela fecha o livro. Fica dois segundos a olhar para o desenho da história no ar, deixa o dinheiro em cima da mesa e sai, sorridente, para ir dar um passeio.

Damon at 6:17 PM

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Apesar de escrever semanalmente neste suplemento dedicado ao concelho de Matosinhos, vivo, há quase vinte e seis anos, na cidade vizinha da Maia. Desde que me lembro de mim que me identifico com a terra – entretanto vila, entretanto cidade, entretanto dormitório dormente dos arredores do Porto – onde o meu pai nasceu, onde já a sua mãe tinha nascido. Gosto de viver nos imediações de uma cidade moderna que, ela própria, fica perto da segunda maior cidade do país. Ainda tenho árvores à volta da casa centenária e o comércio não fica assim tão longe. Todavia… Bem sei que os «no entanto» e os «todavia» são inevitáveis, já dizem os sábios que há sempre um lado bom e um lado mau em tudo. No entanto… preferia, sem sombra de dúvida, outros «todavia» que não aqueles que vos vou contar a seguir. (ler resto aqui)

Damon at 11:50 AM

Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

canção do momento: belle chase hotel e quinteto de coimbra, «verdes anos»


A ética das artes

O que sei eu do fumo
Que se enrola nas nuvens
Para nelas ir ter
Não sei aonde?
Talvez saiba porquê
Mas não diga.

Abre buracos no céu,
Cimenta relações de estética,
A ética das artes.
Não se discute,
Não se pára para pensar,
Admira-se
E talvez se digam umas palavras tontas
Sobre um ismo sorteado.

Depois, este tom cinzento
Combina com a gabardina,
Combina com a plasticina
E com a sina e com o fado,
Ai que tristes que somos,
‘Bora chorar de forma construtiva:

Para dentro das betoneiras
Padroeiras parideiras
Cujos filhos, em idade adulta,
Nos tiram as nuvens da vista

E até nos esquecemos
Do fumo que se funde
Com o nevoeiro, com as nuvens,
Que sei eu das nuvens?
Que sei eu de nós
Quando até o pão for feito de fumo?

Que sei eu do fumo
Que toma conta de nós
E nos enrola nas nuvens
Para sermos cigarros de chuva?


Damon at 3:49 PM

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

A expressão «animais de estimação» carrega na origem do seu sentido uma intenção de «estimar» os ditos «animais». De igual forma, quando nos referimos aos nossos amigos de quatro patas – ou duas ou mais – como «animais de companhia», esperamos deles o conforto de uma presença, tal como eles esperam da nossa parte uma voz que os alimente de carinho, muito mais do que alguém que simplesmente despeja comida numa tigela e a coloca ao alcance de línguas mais ou menos ávidas.
O facto de haver um grande número de pessoas dispostas a albergar cães em suas casas é, à partida, louvável, ainda que insuficiente. Nem todos temos as mesmas intenções quando damos abrigo a um desses animais. Nem todos o fazemos por gostarmos verdadeiramente deles e muitos de nós, seres humanos, nem sequer mostram o respeito devido pela dádiva que eles constituem. Em suma, nem todos deveriam ser donos de animais. (ler resto aqui)

Damon at 7:37 PM


canção do momento: nick cave and the bad seeds, «we came along this road»

Existem manhãs-tardes-noites em que a janela parece demasiado pesada para se abrir. Em que os músculos do seu puxador metálico, enferrujado pela chuva interior, se sobrepõem aos braços da vontade. E mesmo quando ela se abre, renitente, uma infinitude de outras janelas por abrir afasta o ar puro – qual oxigénio, é vontade – dos meus pulmões negros de uma nicotina que é toda ela cinza quando nasce. Só. Ela própria uma palavra com mais letras do que o próprio estado de espírito. Só. Devia ser a única palavra dos dicionários com apenas uma letra. Seria suficiente. E depois o ridículo. Lembrar-me de uma canção pimba que os altifalantes das festas de verão costumam tossir numa voz de ovelha negra: «ai solidãããão, solidããããão…». E depois o medo. A voz da Clara Ferreira Alves e uma infâmia – tão infame de tão verdadeira – pronunciada num programa de televisão: «Raramente os escritores são felizes». E agora? Fico feliz se um dia for escritor quando não posso ser escritor se um dia for feliz? E depois este céu que parece que enferruja…

Damon at 2:39 PM

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

Coisa feia, um homem que chora. Inadmissível, então se for um adulto… E logo alto, robusto, de barba rija e apontada para a frente, firme e hirta. Ainda mais infame se tivermos em conta que estamos em pleno século XXI, quando um sorriso se traduz por dois pontos e um parêntesis fechado que nunca se abriu e a uma piada bem contada se responde com um «lol».
Um homem que viaja com os amigos, também eles homens, por uma estrada sinuosa no meio do verde, em busca do descanso de um domingo. Depois de uma curva, uma varanda perfeita para o rio Douro que, silencioso, lembra a todos a chuva que pode vir mas também todas as praias das suas margens. Pára-se o carro na berma de pedra esburacada pela erosão. Abrem-se os olhos para a percepção de que não precisamos assim tanto do estrangeiro para ver paisagens bonitas. Ali mesmo, à nossa frente, se desenham cheiros e melodias, estórias e história. (ler resto aqui)

Damon at 10:34 PM

Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

Sentei as palavras num café, de manhã, para fugir ao vício dos dias a começar à tarde. Pedi um croissant aquecido, com manteiga e uma garrafa de UCAL, de onde jorram sempre memórias que sabem bem, nesta altura do ano.

Pensei em presentes. Pediram-me uma lista, crença desesperada de que o Pai Natal ainda esteja vivo. Também as peço, de vez em quando, e talvez seja assim que um pouco erradamente ele sobreviva.
De uma forma mais do que certa, também sinto a sua falta sob a forma de um sorriso de olhos grandes e carinhosos. Penso nisso. Sinto a mais lusitana das palavras e talvez uma ou outra de um dicionário um pouco mais vulgar mas nem por isso mais banal.
Penso também num Natal que adormecia, moribundo, desde há um ano, e que quer fazer força para se aguentar de pé, como eu queria e como ela quereria. Depois de nos despedirmos fisicamente, da revolta e da guerra, eis que dois novos seres se aproximam para dar esperança ao mundo (pelo menos, ao que cabe dentro de minha casa) mas nunca para a apagar de nós. Abro-lhes as portas como abro as janelas ao sol.


Damon at 12:18 PM

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Em vésperas natalícias, um e-mail enviado como newsletter da sempre activa associação Animal, surge como a prenda indesejada – mas inevitável e necessária – para o sapatinho pendurado na lareira. Ainda que contendo resultados chocantes, o estudo levado a cabo por aquela associação acerca da criação de coelhos para o comércio de pêlo em Portugal, apenas surpreende quem anda demasiado distraído com o enfeitar do pinheirinho ou o brilho que encandeia da maior árvore de Natal da Europa… (ler resto aqui)

Damon at 12:29 AM


Em vésperas natalícias, um e-mail enviado como newsletter da sempre activa associação Animal, surge como a prenda indesejada – mas inevitável e necessária – para o sapatinho pendurado na lareira. Ainda que contendo resultados chocantes, o estudo levado a cabo por aquela associação acerca da criação de coelhos para o comércio de pêlo em Portugal, apenas surpreende quem anda demasiado distraído com o enfeitar do pinheirinho ou o brilho que encandeia da maior árvore de Natal da Europa… (ler resto aqui)

Damon at 12:29 AM

Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

Ontem fui ao teatro. Quando entrei no sempre resplandecente S. João, não estava à espera de ser «acordado» para mais uma reflexão acerca dos animais e do seu papel no mundo, apesar de ter consciência de que estes despertadores da consciência tocam quando menos se espera. A peça chamava-se «Museu das Frases» – o título original é demasiado impronunciável – e era uma adaptação de textos escritos por Elias Canetti. Reflexões, sobretudo, magistralmente encenadas por Heiner Goebbels. Mas isto não é uma coluna cultural, por isso, adiante… Bem, lá para o meio, surge em palco um objecto esquisito, um robot aparentemente autónomo, com uma antena que parece farejar o mundo que o rodeia. Vou-me apercebendo do que este simboliza – precisamente, um animal. O actor, único em palco, tirando os músicos e o robot, reflecte subitamente acerca da subestimação dos animais ao longo da História, eles que desempenharam papéis fulcrais nas conquistas eternamente atribuídas ao Homem. (ler resto aqui)

Damon at 4:43 PM

Quarta-feira, Novembro 29, 2006

Não tênho nada mas tênho tênho tudo...

As filas para pagar, em estabelecimentos, são óptimas oportunidades para pensar na vida ou, simplesmente, observar os nossos momentâneos camaradas do consumismo. Ainda ontem alguém teve a lata de me vir importunar os neurónios mais murchos e desiludidos – os mais facilmente estimuláveis neste tipo de situação. Não é que um tipo, provavelmente mais novo do que eu, teve o descaramento de estacionar o Mercedes coupé – em 2ª fila, que eu vi – junto ao dito estabelecimento tendo, ainda por cima, tirado da sua cartola de potência germânica uma suposta namorada de feições inegavelmente apetitosas e aparentemente em estado de excelente conservação?... Não é que tenha sentido algum tipo de inveja, como é óbvio… Apenas uma comichão na cabeça e uma enxaqueca fora do sítio, assim como quem vem do ombro, na auto-estrada do braço, a caminho da mão, e pára a meio, numa área de serviço, para tomar um café… Para mais, não é que o sujeito se preparava, enquanto a namorada lhe fazia meiguices no pescoço, para alugar seis ou sete filmes de inegável conteúdo… enfim… físico? A minha comichão pedia-me para levar a mão à cabeça mas eu resisti! Era óbvio que aqueles dois não passavam de pobres coitados sem rumo, enquanto eu, aparente saco de papel que se atravessa no caminho, levava algo muito mais relevante debaixo do braço – o sentido da vida – literalmente! Pobres criaturas viciadas no prazer supérfluo, eu encontrei-o! O SENTIDO DA VIDA!!! E sorrindo, confiante, ergui a cabeça e saí da loja.

P.S.: Para além do «Sentido da Vida», havia lá outros filmes dos Monty Python que valem bem a pena, a preços baratinhos…


Damon at 3:16 PM


O Verão já lá vai longe e levou com ele o azul do céu. Já quase não nos lembramos do calor intenso e anormal que espalhava as suas brasas, há pouco mais de um mês. Não é altura de lamentar os incêndios, ainda que, agora e sempre, eles sejam lamentáveis. E no entanto, foi também lamentável a atitude que me levou a – sugestivamente – atribuir um título algo tablóidesco – Horror! Escaldante! Infernal! – a esta rubrica que se quer lúcida e pouco dada a escândalos. Mas é que há dias em que a vontade de dar um berro se apodera de nós. E não o fazemos por mal… Fazemo-lo por exaustão, pelo acumular, ao longo dos anos, de matéria pouco clara, resíduos de hipocrisia, egoísmo e lixo tóxico que nos cobriu os pulmões como fumo de carros e tabaco.

(Respirar fundo)

(ler resto aqui)

Damon at 2:37 PM

Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Os dias vão esfriando, com uma rapidez indecisa a que não estamos habituados. «Tudo muda, agora nada é como dantes», dirão, com alguma razão pouco menos que científica, os mais saudosistas da praça da Batalha e o Al Gore. E o Bob Dylan, há umas décadas, já apregoava que «os tempos estão a (a)mudar». No entanto, por muito que se altere o clima, que as nuvens venham e vão depois de se hospedarem uns dias por cá, que o calor nos arraste para uma esplanada em pleno Outono, quando já as folhas deviam estalar debaixo dos pezitos esperançados dos miúdos que vão para a escola primária… No entanto… continuarão sempre a haver noites a pedir um serão perto do quentinho de uma lareira e, com a televisão a descansar, uma história simples…
Nas ditas histórias, há quase sempre lugar garantido para um ou mais representantes do mundo animal. Há até alguns contos especificamente escritos com o intuito de dar voz ao ladrar, ao uivar, ao miar e ao zurrar. As fábulas carregam com elas uma tradição centenária e uma vontade, quase sempre bem-intencionada, de exemplificar de forma simples o comportamento correcto. «Quase sempre» bem-intencionada, porque também se escreveram fábulas, nos anos trinta e quarenta, acerca dos judeus na incorrectíssima Alemanha nazi. Mas esquecendo por momentos esse episódio pouco digno da História, a maioria dos contos com animais foi escrita para transmitir às crianças um saber, de forma lúdica e fácil de memorizar. (ler resto aqui)

Damon at 7:29 PM

Quarta-feira, Novembro 15, 2006

Muito antes de ser presença em postais à venda em alfarrabistas, motivo para o lançamento de pacotes promocionais de DVD’s revivalistas e angariadores das poupanças dos mais viciados cinéfilos; muito antes de ser motivo para suspiros de gerações masculinas que, com a cabeça enfeitada por uma boina e barbas compridas, viveram intensamente o Maio de 68; muito antes de tudo isso, Brigitte Bardot foi uma estrela de cinema, inspiração para rebeldias e, acima de tudo, bomba sexual – foi ela a «obra divina» em «E Deus criou a mulher». Aparte algumas metáforas de gosto duvidoso, associando a actriz francesa ao grupo dos felinos, aparentemente, a estrela há muito reformada do grande ecrã não teria nada a ver com esta secção. Aparentemente.
Não sendo totalmente desconhecida dos mais atentos, a vertente de defensora dos animais de B. B. é ainda para muitos uma incógnita. No entanto, não se pense que a defesa dos direitos dos nossos amigos surgiu apenas como passatempo para ocupar as horas livres de uma reformada. (ler resto aqui)

Damon at 7:29 PM

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Há pouco, parecia falar comigo, aquela doida de quatro patas. E se calhar falava. Porque ela não tem culpa absolutamente nenhuma de eu não ser capaz de a entender. Mas se calhar entendo-a. Leio no seu olhar redondo uma vontade simples, apenas e só uma porta aberta para uma liberdade momentânea, que lhe permita voar enquanto salta por cima de um pequeno arbusto recém-nascido; ser a fêmea de um lobo enquanto uiva em direcção ao céu que resmunga – o tempo não é de cantorias; ser Eusébio enquanto persegue a pequena bola corroída, vendo-a bater nas tabelas do portão, das paredes, das esquinas e das árvores. Deixo-a ir. Mas apenas enquanto não chove. «É a vida», digo-lhe, «não olhes para mim assim, faria o mesmo a uma filha». (ler resto aqui)

Damon at 1:05 PM

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Daqui, do fundo da tabela, do extremo Sul de uma Europa a várias velocidades, a Escandinávia é vista como um exemplo de prosperidade, não só a nível económico, mas principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento humano, àquele que não se mede pela quantidade de notas no bolso nem pelo número de centros comerciais por metro quadrado. Habituámo-nos a olhar para suecos, noruegueses, finlandeses ou islandeses como «os senhores que nunca deitam lixo para o chão, não dizem palavrões, não conduzem anarquicamente». Vemos aqueles países como tesouros naturais de Inverno, paradisíacos destinos para férias mais frescas, com florestas que misturam o verde e o branco como só nos postais de Natal, lagos espelhados, fiordes e géisers.
Eu sempre quis visitar esses países, na minha curiosidade pelo idílico e admiração latina por culturas mais organizadas do que a minha. Mas há sempre lugar para a desilusão. (ler resto aqui)

Damon at 2:58 PM

Domingo, Outubro 22, 2006

Porque já não o podes fazer

Por tão pouco que te peça,
Uma palavra bonita,
Enfeitada, mas não demais,
Numa caligrafia bem recortada,
Um pequeno sonho
Na peúga de criança
Pendente da lareira…

Não me vais oferecer
Uma canção empoeirada
Que fale de países onde não chove,
Onde o amor é a lei
E a corrupção mais aguda
Se faz de poemas ousados.

Não me vais regar os vasos
Com gotas de chuva,
Nem borrar a pintura
Com quadros demasiado bonitos,
Daqueles que falam do Inverno
Como um bom banho de imersão.

Já os anjos
Que nasceram das cinzas
Esquecidas em cachimbos
E viajaram pelo seu tubo,
Dos teus lábios quentes
Para a humidade embaciada,
Te ergueram num nevoeiro de orvalho,
Brincando com o que resta de ti
Como se também tivesses asas.

Hoje, não te peço boleia.


Damon at 5:27 PM

Sábado, Outubro 14, 2006

Amei.

Talvez me tenha permitido amar.

Como se amar exigisse uma licença passada após prova física e intelectual, com carimbo da delegação local e assinatura autenticada do senhor director-geral.

Como se amar exigisse a presença de três representantes do registo civil, como nos sorteios do Totoloto.

Como se amar não fosse mais do que uma amálgama de bolinhas coloridas, pintadas de números que, ao percorrerem um curto e estreito caminho, ditariam a nossa sorte, cantarolada na voz esganiçada de uma menina sorridente.

Como se amar fosse uma questão de números.

Como se amar fosse uma questão de sorte.

Não.

Amar é uma questão de azar.


Damon at 4:00 PM

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

A menina tropeça?

Tropeça comigo,
Reinventa o significado
De degrau.

Tropecemos.
Inventa comigo uma dança
Que só os distraídos
E os coxos saibam dançar.

Há quem veja apenas a graça
Do que é certo,
Do que está mais do que certo,
Geometricamente planeado
Em forma previamente untada
Com quadrículas perfeitas
De margarina.

Se cairmos,
Caímos a dançar,
Talvez se riam, talvez
Nos aplaudam de pé,
Cheios de vontade
De cair connosco
E sentir o céu a aproximar-se
À medida que nos erguemos.

Tropeça comigo,
Como tão bem sabes,
Não porque te ensinaram,
Não porque expões o diploma
Como o Manet do teu pequeno museu.

Tropeça comigo,
Sem contar.
Assim é que tem piada.


Damon at 12:54 PM


A conhecida organização internacional de luta pelos direitos dos animais, PETA, sobejamente conhecida pelas suas intervenções arrojadas no mundo da moda, pôs um simpático urso a seguir o príncipe Carlos para todo o lado, pouco tempo depois do seu casamento com Camilla Parker-Bowles. Convém explicar que o dito «animal» não é mais do que um activista dos direitos dos animais, sob disfarce, que pretende alertar o herdeiro ao trono britânico para a chacina de centenas de ursos por ano, nas florestas do Canadá. A sua pele é, então, usada no fabrico de chapéus para a guarda real inglesa. O urso seguiu o príncipe durante toda a sua visita aos Estados Unidos e ao Canadá e fez a sua primeira aparição pública no Reino Unido durante uma visita de Carlos a um museu, em Sheffield. Reparando no insólito súbdito que o seguia, o príncipe dirigiu-se-lhe, dizendo «eu conheço-te, vi-te na América!». (ler resto aqui)

Damon at 12:24 PM

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

Quis o destino que o artigo desta semana saísse exactamente no Dia Mundial do Animal. Coincidência bem-humorada, o que não significa tempo de descanso para os defensores da fauna deste planeta. Também não significa que o dia 4 do décimo mês seja o único do ano em que é suposto lembrar todas as espécies em perigo – de extinção ou da barbárie com origem em nós, humanos. É um dia especial porque serve para lembrar, mais do que tudo, o que falta fazer. E às vezes o que falta fazer é mais do que o que já foi feito. Este dia encerra em si um simbolismo, um apelo às lágrimas, se for necessário, muitas vezes é com elas que se constroem sorrisos. Mas nada de baixar os braços ou as patas. Se acreditamos que é possível fazer deste mundo um local aprazível – não, não é discurso de Miss Mundo – temos que contar com eles, lutar por eles, brincar com eles. Matar-lhes a fome de brincadeira e a sede de carinho. Mas primeiro um pouco de história:
As origens do Dia Mundial do Animal remontam a S. Francisco de Assis. O religioso, para além de ter conquistado o coração de muitos seres humanos que o seguiram e ainda hoje seguem, preocupou-se, ao longo da sua vida, com os animais. Consta que chegou a comprar pássaros em feiras apenas para os poder libertar das suas gaiolas. Francisco de Assis morreu a 4 de Outubro de 1226, dois anos antes de ser santificado. No Congresso de Protecção Animal de Viena, em 1929, foi instituído o dia da sua morte como Dia Mundial do Animal. Um ano depois, celebrou-se a data pela primeira vez. Muito teríamos ainda de caminhar até chegar o ano de 1978. Foi por essa altura que Georges Heuse, cientista de renome, convenceu a Unesco a aprovar a Declaração Universal dos Direitos do Animal. (ler resto aqui)

Damon at 7:31 PM

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Pareces maluco quando corres para mim, atabalhoado e sem olhar a perigos, como se a distância que nos separa fosse a última antes de um longo adeus; como se, de cada vez que chego a casa, regressasse de uma guerra no Oriente. Mas tu não sabes nada de guerras no Oriente, nem de ultimatos do Ocidente, nem do tempo que uma bala demora a percorrer o ar até se cravar num objecto que até pode ser de carne. Felizmente, não sabes. Concentras em ti o último reduto de ingenuidade bonita, a última esperança de poder salvar o mundo (pelo menos o meu, que tenho a sorte de te ter) está na inocência dos teus olhos muito vivos, no impulso das tuas patas quando me sujam a roupa toda para me roubar uma bola amarela que seguro nas mãos. Não uma bala, uma bola. As balas são para gente inteligente… (ler resto aqui)

Damon at 8:01 PM

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

O despertador tocou, por volta das oito e meia, como habitual. Espreguiçou-se, abrindo bem a boca e soltando um ruído agudo, ao mesmo tempo que a agradável sensação das férias lhe provocava um doce arrepio. Levantou-se com um salto e foi tomar o pequeno-almoço, não sem antes proporcionar a primeira refeição do dia ao seu animal de estimação.
A vida de Bobby corria sobre patas, nos últimos tempos. Tinha até arranjado uma namorada de olhos azuis que o fazia pular de contente, de tão derretido que estava. Enquanto lambia o prato para não ter que o lavar, fazia festas na cabeça de Martim, o que fez com que não se apercebesse da chegada do melhor amigo.
- Entra, Becas! Não contava contigo já. Tiveste sorte de eu estar acordado.
- Então, Bobby? Não vais passar umas férias de homem, pois não? Acordei cedo, com o Marcelino a arranhar a porta do quarto. Resolvi trazê-lo cá fora, para um passeio, não é, Marcelino?
Marcelino acenou com a cabeça.
- Ah, ainda não o tinha visto… Nem sabia que tinhas um humano… (ler resto aqui)

Damon at 9:29 PM

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

canção do momento: kate bush, «my lagan love»

Faz-me falta
Uma flor na mão,
Um jantar na agenda,
Um restaurante com vista para o mar,
Ao fundo da rua.

Faz-me falta
Um sonho
Quase, quase, quase
A tornar-se realidade.


Damon at 4:09 PM



No dia em que tomei a decisão, havia muito planeada, de me juntar ao grupo de pessoas dedicadas e incansáveis vulgarmente conhecido por Midas, sabia que a luta pelos direitos dos animais iria exigir uma teimosia psicológica considerável. Nem refiro a entrega física, o trabalho duro de campo, porque esse é executado de forma histórica e não por mim. Seria, aliás, uma hipocrisia reivindicar como minhas essas façanhas. Desde sempre me considerei um «lamechas» em tudo o que diz respeito a seres mais frágeis do que eu. Tenho esta tendência aflitiva para me pôr no lugar dos outros e pensar no que sentiria o meu corpo no momento em que alguém me espetasse um pedaço de ferro para diversão de um público doente, no momento em que alguém me atirasse pela janela de um carro ou me esfolasse vivo para fazer de mim um casaco. Muitas das situações que me chocaram têm sido, aliás, referidas ao longo deste ano, nestas páginas. Outras, calei-as por serem de tal forma indignas que não conseguiria explicá-las por palavras, sem manchar irremediavelmente o texto de vermelho. O estado de espírito que descrevo, ainda que pessoal, reflecte certamente o que vai na alma de muita gente que se preocupa com os nossos amigos. Por exemplo, a quantidade de e-mails «forward» não pára de aumentar na minha caixa de correio, relatando crueldades como o abandono ou os maus-tratos. Mas ainda há teimosos que insistem em remar contra a maré… Ainda se encontram sorrisos no fundo destas caixas. (ler resto aqui)

Damon at 12:57 AM

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Peço-vos que não se assustem. Não vou usar este espaço para vos enfadar com as minhas reflexões da hora de dormir acerca do PIB, da inflação, das taxas de juro nem sequer da Política Agrícola Comum. Também não vou comentar o «Caso Mateus», cujo protagonista – coitado! – conseguiu, em pouco tempo, ultrapassar a popularidade do seu homónimo em estado líquido, o célebre «rosé», e pôr o País inteiro a falar dele. Seria um respeito pelas tradições jornalísticas abordar estes temas em mais uma «rentrée». Não seria sequer completamente descabido nesta secção, uma vez que qualquer um dos casos nos faz pensar, de uma maneira ou de outra, na «Vida Animal».
É uma questão muito mais grave, de uma importância dificilmente definível para o futuro da cultura em Portugal., a que tempera este primeiro artigo depois das férias… (ler resto aqui)

Damon at 3:17 PM

Sábado, Agosto 26, 2006

Solidão (3 actos)

Estar com alguém com quem gosto tanto de estar e sentir saudades, mesmo ali, enquanto conversamos, pressentir o momento a seguir, em que o silêncio me deixa num quarto sem luz. Estar com alguém e sentir-me sozinho, por dentro, apetecer-me pedir para que me virem do avesso e me aqueçam. Me confortem. Não o admitir para não gerar pena. A pena não me faz companhia. Apetecer-me pedir «fica mais um bocadinho» mas pensar «não, que egoísmo da minha parte, estar comigo demasiado tempo deve cansar…». Eu próprio estou cansado de estar comigo.

É engraçado o que podemos fazer para passar o tempo, quando temos um computador. Podemos pôr música a tocar no Media Player e depois acelerá-la para ouvir o efeito. Podemos escrever uma data no calendário do Windows e ver em que dia calha. Podemos mudar os nomes às pastas. Aos documentos. Formatar textos. Patético…

Podia ir ao shopping, gastar dinheiro em roupa (para mostrar a quem?), cd’s, livros e filmes (para partilhar com quem? Para ver e ouvir com quem, no sofá da sala?). Ir ao cinema nem pensar. O terrível peso de não ter ninguém a quem segredar uma emoção do filme…
Para variar, não culpo ninguém senão eu próprio. E já não consigo simular diálogos nem forçar uma dupla personalidade me faz sentir menos sozinho.

Damon at 10:26 PM

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Aparentemente, passei por cá à procura de abrigo. A tempestade anunciava-se por todo o lado menos no céu, o mais optimista dos meteorologistas, dava até esperanças – palavra cara – de que a chuva poderia ser de estrelas. Aparentemente, guiei-me pelos avisos e viajei milhares de quilómetros subtraídos por outros tantos. Mas eu não vim para fugir do mau tempo; vim à procura do sol, o que é diferente. Quis o tempo – sabe-se lá qual deles – que eu chegasse cá e não o encontrasse. Afinal, o sol não estava por aqui.

Damon at 2:33 PM

Domingo, Julho 30, 2006

Há uma luz que nunca se apaga

Leva-me a dar uma volta, esta noite
Até onde haja música e pessoas
Jovens e vivas.
Quando passeamos no teu carro,
Nunca mais quero ir para casa
Porque já não a tenho

Leva-me a dar uma volta, esta noite
Quero ver pessoas e luzes
Vamos passear no teu carro
E por favor não me deixes em casa
Não é minha, é deles
E eu já não sou benvindo.

E se um autocarro de dois andares
Vier contra nós
E eu perder a vida ao teu lado,
Que forma divina de morrer…

E se um camião de mercadorias
Nos matar aos dois,
Perder a vida ao teu lado
Será um prazer e um privilégio para mim

Leva-me a dar uma volta, esta noite
Leva-me a qualquer lado, quero lá saber…
E na escuridão do túnel pensei
«Meu Deus, chegou a minha vez, finalmente!»
Então um medo estranho apertou-me e não fui capaz de perguntar

Mas leva-me a dar uma volta, esta noite
Leva-me a qualquer lado no teu carro, quero lá saber
Nunca mais quero ir para casa
Porque não tenho casa,

Não tenho casa…

Mas há uma luz que nunca se apaga
Há uma luz que nunca se apaga

Stephen Morrissey

(tradução livre e provavelmente deficiente tecnicamente do autor deste blog)

Damon at 2:05 AM

Domingo, Julho 16, 2006

Numa actividade como a defesa dos direitos dos animais não podem existir conceitos como «concorrência» ou «mercado», tal como não «fabricamos», de forma alguma, «produtos». Não podem existir interesses pessoais tentadores que se sobreponham ao bem-estar dos seres vivos aos quais nos dedicamos. É inconcebível que se considerem os animais a quem damos abrigo melhores do que aqueles que foram acolhidos por outra instituição. Ganhamos todos se ocuparmos os nossos lugares e aceitarmos humildemente o papel que nos couber na causa. (ler resto aqui)

Damon at 10:23 PM

Sexta-feira, Julho 07, 2006

canção do momento: beck, «sunday sun»

3 velhotes num banco de rua

Aprenderam com o caminhar cínico do tempo a esconder as cicatrizes. Os três. Os cem. Os mil. Esquecem ocasionalmente as ausências, conformam-se com as realidades espremendo-as num copo gasto na taberna, por entre cartas meias dobradas de tanta batota inocente e dominós apagados pela fricção dos dedos. À pedra onde pousam os pés, sentem-lhe o pulsar da vida de todos aqueles que repousam por baixo dela. E sabem-se pessoas de sorte por ainda os acolher aquele banco tosco, longe de ser túmulo (livra!), onde as tardes nunca parecem feitas de horas, mas de palavras partilhadas, gastas pelo uso, é certo, mas talvez por isso mais deles.
Jogam todos na mesma equipa. Os três. Os cem. Os mil. Vestem todos a mesma farda de cerimónia e orgulham-se dela, usada mas limpa, conservada em tons de cinza e branco, como o cinema quando nasceram. Todos se apoiam em bengalas. Os três. Seja ela feita de madeira, do cruzamento entre os dois braços ou da orelha. Mesmo que um se apoie nos óculos e outro semicerre os olhos quando fala, todos eles vêem bem, quanto mais não seja, para o passado, onde os números se confundem já numa sopa de cavalo cansado mas sábio. E se protegem a cabeça do sol, é porque sabem que o calor lhes pode derreter as recordações e os filhos e os netos não podem ficar sem herança. Os sorrisos que sibilam nas bocas vazias de dentes são o adorno dos seus dias. O resultado de terem aprendido com o caminhar cínico do tempo a esconder as cicatrizes. Os três. Os cem. Os mil.

Damon at 4:52 PM

Quinta-feira, Julho 06, 2006

Há quem consiga ignorar o apelo humilde dos animais, com a máscara da indiferença projectada em sombras pelo rosto, como se ali não estivesse nada, nem mesmo um objecto no qual se pode tropeçar. A mais recente campanha do Midas, à porta do hipermercado Continente, de Matosinhos, deu para, entre outras acções bem mais preponderantes, observar como se comporta o consumidor médio português, quando se dirige ao local das compras, e reflectir acerca da sua atitude perante o problema que tentamos combater. Detectam-se múltiplas reacções, desde as mais desejáveis, sempre – sublinhe-se sempre – benvindas (que nos dão força para continuar, todos os dias, a acreditar que os nossos amigos animais têm ainda muita gente a lutar por eles) até àquelas que nos dão vontade de avançar, perder a paciência, esfregar-lhes na cara o quanto estão a ser insensíveis, o quanto mereciam que lhes fizessem a mesma coisa. Mas não podemos. (ler resto aqui)

Damon at 4:03 PM

Sexta-feira, Junho 30, 2006

«Para fazer uma obra de arte, não basta ter talento, não basta ter força; é preciso viver um grande amor.»

Amadeus Mozart

O amor que vivemos, eu e tu. Lembras-te? Era um futuro pouco próximo, um Inverno de flores a abrir. Jurámos pintar um quadro juntos nas margens do Vltava, que passeava como um mar revolto correndo para ontem. Fá-lo-íamos bruto, como o rio que inunda as casas incendiadas de Praga; fá-lo-íamos com garras, como Kafka lamentava da sua cidade; fá-lo-íamos dos nossos corpos e para sempre.
Lembras-te do amor que vivemos? Aquele que nunca passou da intenção de um pequeno pedaço de papel, preso ao frigorífico pelo magnetismo de uma marca de iogurtes; aquele que nunca existiu…
Ainda ontem me sentei nessas mesmas folhas secas que se banham de sol, junto ao rio, e lembrei esse futuro nada próximo. Reli as cartas que nunca escrevi e reflecti acerca das razões que nunca me deste para a tua partida. Todos esses objectos de alma são palpáveis na minha memória, apesar de nunca me terem tocado as mãos. Talvez porque o Vltava me tenha lavado as ideias, levado as imagens para o passado, eu tenha a certeza de ter passeado por aqui, de mão dada contigo, de olhos postos num sorriso que pressagiava memórias iguais a ele.
É curioso como se desenha na perfeição a forma doce como me apontaste a Ponte Carlos, cheia de turistas pequeninos, insignificantes, prestes a ser engolidos pela magia da tua cidade. É curioso, quase tanto como o facto de isso nunca ter acontecido; quase tanto como o mais provável ser que esse futuro tenha passado sem que eu desse por ele; mas nunca tão curioso como o facto de teres morrido havia muito, quando eu nasci.

Damon at 5:31 PM


Muitas vezes se diz dos japoneses que são exímios no aperfeiçoamento de geringonças que nós, europeus, inventámos e que nunca fomos capazes de desenvolver. Foi, em grande parte, graças a eles que evoluíram, de uma forma tão espantosa, a televisão, a rádio, o automóvel e tantos outros utensílios diários aos quais nunca dedicámos um minuto de reflexão e que se tornaram indispensáveis ao belo conformismo humano. (ler resto aqui)

Damon at 5:29 PM

Domingo, Junho 25, 2006

canção do momento: the divine comedy, «to die a virgin»

Não sei se o álbum é melhor ou pior do que os anteriores. Sei que estou ansioso pelo próximo, o que é preocupante, tendo em conta que este ainda agora saiu. Mas é assim. Não me consigo fartar. Que se lixem as tretas «não estamos aqui para imitar ninguém». Gostava de escrever letras e melodias como ele. De cantar como ele. De ter o estilo que ele tem. Pá, ele é o verdadeiro «Diva Lord»...

Numa palavra:













GENIUS

Damon at 2:40 PM


Progredir, por oposição a regredir, significa andar para a frente, ou seja, a evolução de uma forma positiva. É isso que pensamos, pelo menos, à partida. Mas basta-nos aliar ao pensamento as emoções, os sentimentos, e chegaremos rapidamente à conclusão que, como quase tudo na vida, o progresso tem também um lado mau. Em certos aspectos, caminhamos em sentido contrário à evolução. “Inevitável”, dirão alguns, visto que há sempre sacrifícios obrigatórios a fazer quando se procura o bem-estar da humanidade. Nem todos serão impossíveis de evitar, caríssimo e restrito leque de candidatos ao Nobel…(ler resto aqui)

Damon at 2:38 PM

Terça-feira, Junho 20, 2006

O primeiro a casar

Dez anos. Quem éramos nós, nessa altura? Éramos alguém, sequer? Rapazolas que nem barba tinham, voz aguda e instável de quem, em breve, vai piar mais grosso. Parece que foi ontem ou talvez hoje de manhã. Sim, foi há bocado. Acordei com o sino infantil da campainha centenária e eras tu, por uma vez pontual. Trazias a bola debaixo do braço e no rosto a vontade de trabalhar... por um sonho recente. Não falaste das dificuldades de conciliação do emprego com a universidade, do problema das propinas, do salário mal-pago, da necessidade de ir lá para fora, trabalhar no duro. Falaste do torneio de futebol da nossa escola e de como queriamos fazer boa figura. Passámos a manhã a treinar, fazendo do portão baliza, apesar das reprimendas do meu pai. Falei-te dela (Daniela, Sílvia, Maria João, Joana...) e do sonho menino de a conquistar com flores e poemas. Falei-te dela, de certeza, porque sempre falei mais do que tu... Depois, foste apanhar o autocarro para casa e eu fui almoçar. Apanhei o metro e vim trabalhar, tentando distrair as decepções das flores murchas e dos poemas amachucados. Tu apanhaste um avião para o Brasil, para te casares. O primeiro a casar. Tinhamos dez anos quando nos conhecemos, hoje de manhã. Entretanto, ao almoço, passou tanto tempo...

Damon at 4:12 PM

Sexta-feira, Junho 16, 2006

“Poc”, diz o balde do lixo. Acabam de lhe tirar os seus maiores tesouros. Ninguém o percebe. Chamam “tralha” às únicas coisas que verdadeiramente o preenchem: bolas de papel com contas de telefone, cascas da banana que serviu para enganar o almoço, faxes que não eram desejados, páginas impressas que sairam borratadas, esferográficas cuja tinta secou… E ele só fala quando o pousam no chão. Ou quando o pontapeiam por baixo da secretária, aí é que dói. Sente-se desactualizado. Agora está na moda os baldes do lixo fazerem dietas especializadas: uns ficam com os plásticos, outros com o papel, outros ainda com as pilhas. Mas este objecto vermelho, riscado e ligeiramente lascado, ainda não se habituou às modernices.

“Tap”, diz a secretária de contraplacado quando, acidentalmente, a agrido…

Damon at 6:30 PM

Segunda-feira, Junho 12, 2006

Como se aprende a perceber os animais? Não basta esperar que os ensinamentos transmitidos os façam comportar-se tal e qual como queremos. Não podemos exigir que os nossos amigos compreendam os desejos que lhes impomos sem que nós, os tais que teoricamente nasceram para governar o mundo através uma suposta superioridade intelectual, saibamos colocar-nos no lugar deles, tentar perceber porque se zangam, por vezes, porque se deitam a um canto, porque arranham e porque mordem.
Existem homens que mordem os cães – quem diz cães, diz gatos, diz canários e todo o tipo de animais – por não saberem aceitar que também eles têm direito a revoltar-se, de vez em quando. (ler resto da crónica aqui)

Damon at 2:59 PM

Sexta-feira, Junho 09, 2006

canção do momento: the cure, «plain song»

Há momentos em que me limito a deixar cair a cabeça na janela suja do metro, consentindo o apoio momentâneo dos meus cansaços naquela almofada de vidro fumado. Estou na montra cansada do fim de tarde, vendemos – eu e os outros – ao mundo urbano o mito do trabalhador exausto, frustrado e eternamente expectante de que o dia seguinte seja finalmente…

Há momentos em que, de cabeça trémula da instabilidade dos carris, penso que não sei para que sirvo. Para quem sirvo. E, no entanto, sei tão bem o que quero. Quem quero. É nessa altura que o coro me grita “assenta os pés no chão”, no latim das pessoas sábias. E de repente, “eu quero” fica sujeito a uma censura e transforma-se em “o que eu posso querer”.

Há dias em que a fronteira que divide essas expressões se torna desesperante e anseio por um qualquer espaço schengen onde nos possamos movimentar sem barreiras entre a felicidade que queremos e aquilo que nos é permitido querer.

Em momentos desses, em que as certezas jogam futebol na minha cabeça, transformando-se em dúvidas que esbarram sempre na trave e no poste, apetece pedir que peguem em nós e que nos chutem também. Para a baliza. Ou para o buraco.

Damon at 12:18 PM

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Chamo-me cão. As pessoas preferem «Bobby», «Snoopy», «Timbuktu» ou «inserir-nome-de-personagem-televisiva» porque acham que soa melhor, isto porque os seres humanos são extremamente complicados, depois falam da nossa vida como se fosse a pior coisa do mundo. Olhem para o brilho dos nossos olhos e percebam que aproveitamos bem melhor do que vocês as oportunidades que nos dão para sermos felizes. Espreitem para ver como é simples pôr-nos a abanar a cauda e a agradecer na nossa língua pequenos gestos que pouco esforço exigem aos vossos braços. Chamo-me cão, assim, simplesmente, porque não sei outra língua, a minha varia pouco – boca mais aberta ou mais fechada, rugido mais forte, latido derretido, uivo na hora do lobo. (ler resto da crónia aqui)

Damon at 3:39 PM

Terça-feira, Maio 30, 2006

«Você é A Cabana. Você é o típico melancólico, que gosta de pensar e repensar na vida. Romântico, adora cenários intimistas e pela-se pela doce amargura de um coração partido.»


Damon at 12:39 AM

Segunda-feira, Maio 29, 2006

Não sei para quem escrevo, hoje

Não sei para quem escrevo, hoje.
Se para a espuma que canta as mágoas
No lugar onde outrora eu cantei os meus sonhos
Em silêncio;

Se para os seres pensantes que,
Como eu, se sentam umas horas
Numa esplanada de madeira rangente
E fingem que descansam;

Se para os reflexos perfeitos
Moldados no espelho onde as faces
Se sobrepõem: as que não suportam
Ficar longe do mar (cá fora) e as
Que não suportam ficar longe da lareira (lá dentro).

Sei que não escrevo para ti, hoje,
Porque as musas poéticas também precisam de férias
E eu definitivamente não quero atrapalhar a minha.
As musas poéticas, quando se chateiam,
Conseguem dissolver todos os versos de papel
E fazer estalar o cristal das ideias que ainda não foram
Devidamente acariciadas.

Pequenos pássaros percorrem a areia aos saltos,
Levam no bico pequenos alimentos
E nas asas a vontade de sonhar.
Talvez seja para eles que eu escrevo, hoje.

sei que escrevi este poema num dia frio... a referência à lareira não tem, definitivamente, que ver com os dias que correm...

Damon at 1:39 AM

Sábado, Maio 20, 2006



Chegaste ao meu colo, bola de pêlo que tinha pressa em ver o mundo, tal era a força com que tentavas espreitar do caixote de cartão, mais alto do que tu, cá para fora. Cedo adoptaste a teoria da tua mãe: as casotas não servem para se dormir lá dentro mas sim por cima delas. Cresceste. Gostavas de te enfiar entre as pernas das pessoas para que te fizessem festas e abanavas-te todo, não só o rabo, quando chegava alguém. Quando ladravas, era uma deixa para a brincadeira. Então, rodopiavas, saltitando e voltavas a ladrar. Depois, corrias outra vez e voltavas a ladrar. Houve uma vez que ladraste a sério e apanhaste um ladrão dentro do nosso jardim, a tentar assaltar o carro. Passavas horas a fio deitado ao portão, à sombra, a ver quem passava. Adoravas rebolar no cobertor e ir mordiscando uns sapatos. Eras resmungão com os outros, a tua família de pequenotes chatos. Alguns metiam a cabeça dentro da tua boca e tu ralhavas, ralhavas, ralhavas… Foste um Amigo. Quis o destino que no dia em que estivemos quase a decidir acabar-te com o sofrimento, tu próprio percebesses que era hora de ir embora. A consolação é a de que a dor acabou, esse papo no pescoço que insistia em puxar-te a cabeça para baixo já não te faz sofrer. Encontrei-te deitado na sala, onde gostavas de estar. Apesar da peculiar alergia a pulgas, do reumatismo e dos problemas de pele, espero que tenhas sido um cão feliz, Sandy.

Damon at 2:50 AM

Quinta-feira, Maio 18, 2006

Quanto mede a consciência de cada um? Que capacidade de armazenamento tem, em quilogramas, litros ou mega-bytes, esse recipiente mais ou menos resistente, mais ou menos flexível, que trazemos dentro de nós? Qual é o comprimento dos escrúpulos de um homem? E como se mede a área da cobardia?
Poucas vezes se me afigurou tão óbvio o tema de uma crónica como esta semana. Não só por ser bombardeado todos os dias com lembranças acerca do assunto, graças à televisão pública, aquela que é de todos nós. A vontade de agradar a gregos e a troianos (ou na versão menos polémica, aos «prós» e aos «contras») tem limites, meus amigos. Uma vez ultrapassada essa barreira, ela transforma-se em pura e simples hipocrisia. (ler resto da crónica aqui)

Damon at 6:55 PM

Quarta-feira, Maio 17, 2006

Eis-nos, arquitectos das nossas noites demasiado claras. Uns projectam as casas; outros, lamentam-nas. Esta foi apenas uma das ideias, partilhada, evidenciada nas luzes que dizem ao mundo: sim, ainda estamos acordados. No meu planeta, acredita-se em coisas diferentes. Que, se a chuva vem, é para que nos molhemos, não vale a pena fugir da nuvem cinzenta, é preferível fazer-lhe a vontade, que nunca é eterna. No meu planeta, somos diferentes. Tenho isso escrito na testa, particularmente naquela ruga mais acentuada, a que não compreende, a que não se adapta por ser expressão de sentimentos e não de meras vontades. Sim, já percebeste: já só digo que sou um monstro, de vez em quando; agora, meti na cabeça que sou extraterrestre… Deve ser por isso que desde pequeno passo a vida na Lua e vejo as estrelas como uma esperança.

Damon at 1:32 AM

Terça-feira, Maio 16, 2006

Frase do momento: “Quem está, está, quem não está, não está.”, Gilberto Madaíl, presidente da FPF e filósofo nas horas vagas

Pormenores de reportagem:

Numa peça sobre a greve dos CTT, achei piada a uma situação: a dada altura, a jornalista questiona o funcionário dos Correios acerca do atraso na entrega da correspondência e na forma como o facto pode prejudicar os destinatários. O funcionário diz: “olhe, ainda ontem me ligaram da Câmara de Felgueiras, porque estavam à espera de uma encomenda”. O que é certo é que as imagens seguintes mostram, por entre os montes de cartas armazenadas, à espera de ser entregues, alguns “sacos azuis”… Será que a nossa querida Fátima espera que o carteiro lhe traga algo?…

A Lear, fábrica de qualquer coisa de que não me lembro, está quase a fechar, o que é mau no contexto de crise que atravessamos. Mas o que é menos importante e por isso me chamou mais a atenção, é o nome do sindicato que representa os trabalhadores daquela empresa: o STIEN. Aparece o senhor do dito sindicato, o nome dele e, por baixo, a sigla já referida… Será que tem alguma coisa a ver com o “apoio” prestado aos operários? E os homens do sindicato, sentem-se de alguma forma descriminados pela designação nitidamente feminista? Bem, antes STIEN do que SPARTILHO ou TRUCES…

Damon at 3:39 PM

Sexta-feira, Maio 12, 2006

múzequinha do momiento: rui beloso, "puorto cuobes"

Já tinha lido o “Trainspotting” e o “Lixo” mas nas cómodas versões traduzidas. Agora que decidi ler os romances em língua inglesa na versão original, deparei-me com o facto do lunático Irvine Welsh ter decidido escrever como as pessoas falam… na Escócia. O resultado é que a leitura demora o dobro do tempo. Entretanto, porque não adaptar o formato ao contexto português e, neste caso, portuense? Sim, porque se fomos buscar tanta coisa a Endemóis e afins, porque não estender o intercâmbio unilateral, em que somos tão bons, à literatura? Sendo assim, aqui fica uma amostra do que pode ser o romance “Puorno, uóah”, de Ervino Galês:

“O rio Douro brilhava como o molho da francesinha acabada de fazer. Levou o fino à boca e foi então que o viu. Chamou-o:
-Ó colegueinha, ánda cá! Uoilha, conheces o Quinhe Manieta? O gaijo que bende mortailhas…
-Uóah, o quié que tu queres? Bai masé pó c$?~1ho que te f?da, cabrom de m?~!da! Tu desmarca-te que eu bou mas é ao taicho, teinho a patroua à espera…
-Espera, uóah! Teinho aqui uma ciena pra teie, é bãoe! Bais gainhar munta massa co isso, num seijas assinhe, Leitos…
-Ieeé, choupa-me a ber seu deixo… Tu queres masé chular-me outra bez cumo quándo me lebastes a conhecier o gaijo que era super dragom e que me queria bender gánza. Tás masé tuolo, uoah!
-Num há dubda qués miesmo tone quinhe, ó Leitos! Mas tu bais-te arrependier, deixa o Toneinho Zaruolho apanhar-te em Cedofeita quêle acatrepa-te que tu até bais mánco pra casa, masé!
O rio Douro tinha perdido o brilho, momentaneamente. Já nada parecia importar, nem mesmo a francesinha moribunda, linguiça de fora, esvaindo-se em molho. Foi então que ele a viu. Chamou-a:
-Ó boua, ánda cá, c?ãilho!”

(continua…)

Damon at 4:31 PM


«Os cães e os gatos são bonitos, mas fazem muitas asneiras…», diz a senhora no metro. É incrível como estas pessoas conseguem ter um aspecto tão cheio de razão, logo pela manhã. São oito e meia e as minhas pálpebras atraem-se magneticamente, querem fechar-se de uma forma hermética, como aquelas embalagens modernas para guardar os alimentos. A senhora prossegue, colocando os óculos para ter ainda mais razão: «Eu já tive alguns cães. Em pequenos, têm sempre piada e os miúdos adoram-nos. O pior é quando começam a fazer buracos… Tive um, há uns anos, que me deu cabo das pencas que eu tinha plantado no quintal. Dei-lhe uma coça, claro está, e fechei-lhe o portão para ele ir dar uma volta, a ver se aprendia a lição. Nunca mais voltou.». A senhora no metro olha em frente e acena ligeiramente a cabeça, num gesto exclusivo de pessoas com mesmo muita razão. (ler resto da crónica aqui)

Damon at 12:45 PM

Segunda-feira, Maio 08, 2006

You Should Learn Chinese

Surprised? You shouldn't be - Chinese is perfect for an ambitious person like you.
You're a natural entrepreneur, and a billion people are waiting to do business with you!


Não me façam rir... "Entrepreneur", moi? São demasiados crepes e sopas de ninho de andorinha... só pode ser...

Damon at 5:00 PM


e cá vai mais um... (começo a conhecer-me melhor...:-)

You Are Dr. Bunsen Honeydew

You take the title "mad scientist" to the extreme -with very scary things coming out of your lab.
And you've invented some pretty cool things, from a banana sharpener to a robot politician.
But while you're busy turning gold into cottage cheese, you need to watch out for poor little Beaker!
"Oh, that's very naughty, Beaker! Now you eat these paper clips this minute."

Damon at 4:54 PM


You Should Be a Song Writer

You have the ability to evoke emotion, tell a story, and hook someone...
In a very small amount of words, perhaps with some deft rhyming.
Even if you can't write music, you can sure write compelling lyrics.
Lyrics so good, people will have them stuck in their heads!


Obrigado pela deixa, Inês;-)

Damon at 4:53 PM

Quinta-feira, Maio 04, 2006

Ruas e ruas de barracas com títulos de fazer inveja às piores piadas do Fernando Mendes. Todas iguais e a vender exactamente a mesma coisa. Pessoas que se atropelam umas às outras. Eu diria: pessoas que tropeçam umas nas outras. Hálitos insuportáveis. Convívio salutar com pessoas desconhecidas até então; pessoas que, na semana seguinte, quando não é no dia seguinte, voltam a ser desconhecidas. Vomitado de todas as cores, texturas e odores. Casas-de-banho perfumadas e decoradas com gosto. Mais para o fim, quando não é logo no princípio, pessoas de cor azul-esverdeada de cabeça pendurada fora do carro. Sirenes. Charros. Gente cool. Bêbados, bêbados e mais bêbados (não há nada mais fútil do que um bêbado, seja ele poeta ou pedreiro). Uma geração que se afoga porque não conhece outras maneiras de se divertir. E recordações. Angústias, medo, chuva durante o cortejo (uma chuva miudinha, só minha; uma miudinha vista por entre a chuva, essa nunca foi minha). E a solidão da diferença. Iupi. Está a chegar a queima das fitas…

E ainda que já não seja estudante, sinto-me a ser puxado para o vácuo vazio e com mau hálito.

Damon at 12:16 AM

Segunda-feira, Abril 24, 2006

canção do momento: madredeus, «as brumas do futuro»

Eh, pá, o tempo passa e já estou mais perto dos trinta do que dos vinte, o que é uma bela desculpa para uma depressão e para os primeiros pensamentos «estou a ficar velho». Senão, vejamos:

Eu lembro-me do actual treinador do Benfica, o loiríssimo Ronald Koeman (que a minha mãe diz que tem cara de bebé) jogar no Barcelona e marcar um golaço ao Porto. Lembro-me do Veloso ser capitão do Benfica e do João Pinto ser capitão do FCP e proferir declarações hilariantes. Também me lembro do Figo com o cabelo à cogumelo (ai se a Helen o tivesse conhecido na altura). Na televisão, lembro-me daquelas senhoras que, na RTP, anunciavam a programação; do «Duarte e companhia», do «Agora, escolha», do «Modelo e detective», do «Dallas», da «Vila Faia», do «1,2,3»… E do «Dartacão»! E do engenheiro Sousa Veloso no «TV Rural»! Lembro-me da moda dos Fiat 127 de um castanho duvidoso e depois, do aparecimento do Fiat Uno. Lembro-me do anúncio do Citroen AX com um miúdo tibetano. Eh, pá, lembro-me dos meus primos da Alemanha mandarem postais com a sigla R.F.A. e da Margaret Thatcher ser primeira-ministra. Lembro-me do Artur Albarran apresentar o Telejornal (naquela televisão que a minha avó tinha, que deformava as pessoas, a cabeça dele parecia a de um alien…) e da Manuela Moura Guedes cantar (CREDO). Lembro-me de aparecerem os Panikes (eram da D. Pasolini) e as sapatilhas Pump, da Reebok. Lembro-me das lutas entre o Senna, o Prost e o Mansell e até do Piquet, na Fórmula 1. E da Maia ser uma vila. E dos autocarros de dois andares. E do trolley nas ruas do Porto. E das Tartarugas Ninja e dos livros da Disney com sotaque brasileiro. E de mascar pastilhas da Gorila e comprar aqueles gelados que vinham em tubinhos e que mais não eram do que gelo com corantes. E do Herman José não ser loiro e ter piada (sim, isso vocês também…). Lembro-me do Billy Idol ter sucesso e dos «Momentos de verdade» estarem no cinema. E do Tulicreme e dos anúncios da Planta… E das Brickmanias… Eh, pá…

Damon at 1:46 AM

Sábado, Abril 22, 2006

Existe uma certa probabilidade deste artigo ser lido por seres humanos, como tal, espero que não se sintam ofendidos pela generalização pouca lisonjeia que faço. É que o Homem (o tal, que se escreve com inicial maiúscula…) é um ser mesmo estúpido! Assumo o perigo da generalização. Pertenço, junto com um grande número de outros exemplares, a essa espécie, mas à fatia que compreende a palavra “humano” com o significado de “sensível”, “sensato”. Talvez veja em nós o dever de mostrarmos porque fomos escolhidos – por Deus, por Alá, pelos astros ou pelo Departamento de Jogos da Santa Casa, não interessa – para ser, em teoria, os seres mais inteligentes do planeta. Procuro compreender porque renegamos, a cada segundo e de uma forma tão óbvia, esse dom. Ser inteligente não significa ser espertalhão… (ler resto da crónica aqui)

Damon at 3:39 PM

Quarta-feira, Abril 19, 2006

Os sinais surgem do nada, todos os dias. Como se o ministério responsável pelo destino me enviasse cartas registadas diariamente. E é um fenómeno interessante, digno de ser apadrinhado por comissões científicas. Há algum tempo que sinto a necessidade de silenciar os meus instintos com mais frequência. Tenho menos paciência, não me resigno com mais facilidade, como seria de esperar num adulto que se preze. Antes me sinto irritado com quase tudo, desde o egoísmo de quem proclama só pensar nos outros às obras na baixa do Porto; desde a presunção ridícula da RFM à pseudo-intelectualoidização de certas pessoas que querem a todo o custo parecer cultas.
Tudo isto para dizer que me sinto empurrado. Por uma força que pode ter a mãozinha pouco cuidada e escura do Darth Vader ou não. São amigos que partem, outros que têm mais que fazer, outros que já não dizem nada, outros que já não dizem tudo, outros que se assustam com as minhas saudades, outros que encontraram formas mais bem-dispostas e menos chatas de ter amigos, outros que etc. E o texto não é para os condenar, que isso seria muito feio. É apenas para realçar os empurrões que me dizem que este não é o meu sítio. Que é altura do “desenmerdamento” à francesa e que talvez seja melhor fazer as malas e partir como a Linda de Suza. E do rádio esvoaçam ondas que entoam “you saw the whole of the moon”. Outros tempos. Nessa altura, tudo o que eu queria era ficar. No espaço e no tempo.

Damon at 4:06 PM

Quinta-feira, Abril 13, 2006

canção do momento: cindy kat, "miúdo (com jp simões)"

Está demasiado calor para o meu Abril. Para trabalhar, na caverna do escritório com vista para a balbúrdia poeirenta da Avenida dos Alheados. Para falar, sobre o tempo ou sobre o espaço. E eu que gosto de sol e do azul bem à vista no meu céu. Acodem-me os amigos, refrescam-me com palavras, convites, jantares. Não me encontro. Está demasiado calor para me encontrar. E quando o meu dedo deixa a sua marca no círculo luminoso da porta da carruagem de mais um metro (longo metro), sei que viajo de novo para não me encontrar. Falta alguém que chegue ao pé de mim e, no sorriso de um aviso de tens-o-cordão-desapertado, me diga: “olha, estás a ver ali aquele rapaz, de saco na mão? Sim, aquele ali com ar de quem percorreu a Avenida da Boa Vida a correr e não se cansou; és tu!”. Falta alguém. Talvez que eu ponha cartazes à porta do metro. Talvez que eu crie uma petição na internet. Fazes-me falta, alguém. Está demasiado calor para o meu Abril e mesmo assim o arrepio de estar sozinho percorre-me todos os países do corpo, mesmo os do eixo do mal. Encontra-me.

Damon at 3:48 PM

Quarta-feira, Abril 05, 2006

A Lei do Orçamento de Estado obriga à redução de gastos com a contratação de pessoal. Quem diria que uma frase destas iria servir de desculpa para uma matança à moda antiga? É que quando se diz «moda antiga», não nos referimos ao tempo da «outra senhora» nem ao princípio do século passado… Falamos da Idade Média, de uma caça a bruxas que, neste caso, não são mais do que os animais abandonados, ainda que o possam ser apenas aparentemente, na Ilha Graciosa, uma das que compõem o belo arquipélago dos Açores. (ler resto da crónica aqui)

Damon at 3:58 PM

Segunda-feira, Abril 03, 2006

canção do momento: the beta band, «dry the rain»

O MIDAS tem, neste momento, vários cães e gatos bebés (a partir dos dois meses de idade) para entrega imediata. Tem também um grande número de cães adultos de todo os tipos e de todas as idades. Contactos: 96 457 20 96 ou 93 370 71 85

Damon at 11:20 PM

Quarta-feira, Março 29, 2006

canção do momento: antony and the johnsons, «hope there's someone»

Há uma grande parte de mim que é criança. Que ainda não se habituou a certos conceitos adultos. Mesmo a expressão «conceito» para aquilo que antes não era mais do que uma palavra, um sonho, uma imagem desenhada.

Tenho um lago dentro de mim. Onde, espelhado nas águas, ainda me vejo de calções curtos e onde as coisas mais sérias se constroem com baldes de areia e pás de plástico. Onde um problema grave é o lego que não encaixa ou o carro que partiu uma roda e já não adianta friccioná-lo no soalho, que ele não anda.

Há uma parte de mim – grande, quase tão grande como eu – que precisa de carinho e atenção, às vezes, diários. Alimento-me de sonhos, é isso, e mais do que o lado bonito destas palavras – conceitos – o que importa é que me desiludo quando acordo. Que me parece impossível que certas coisas não tenham acontecido ainda e outras não estejam a acontecer porque, quando brincávamos às casinhas ou fazíamos as emissões em directo do sofá para a mesa de plástico com cadeiras brancas, não era isto que acontecia. Não era suposto…

Daí o vazio. Ainda preciso de pessoas com tempo para brincar e com quem possa partilhar os sonhos e os legos.

Damon at 12:57 AM

Segunda-feira, Março 20, 2006

canção do momento: rufus wainwright featuring dido, «eat dinner»

Odeio faltas de inspiração. Ainda mais estas, causadas pela solidão. Odeio a solidão, sufoca-me, como se uma multidão roubasse todo o meu ar. Engraçado, não é? Como a mais triste forma de nos sentirmos sozinhos nos faz pensar em multidões… Devia estar a escrever sobre animais e só me ocorre que me sinto como um deles. Preso na monotonia de não ter nada de novo para contar. Sempre à espera de ter algo de novo para contar. Algo de que está já toda a gente à espera e que nunca acontece. A monotonia é desinspiradora. A desinspiração é revoltante quando apenas a inspiração nos pode salvar. Nunca a fé. Essa é um mero vocábulo para sermões do senhor abade.

Damon at 10:01 PM

Sábado, Março 18, 2006

Filmes com cãezinhos

Sim, pai, estive a ver filmes com cãezinhos, outra vez. E de novo senti em mim uma cumplicidade que ainda não sei explicar. Estamos em 1988, sou um puto, pouco mais que um bebé que aprendeu a andar e a falar. Já me ensinaram na escola a contar pelos dedos frágeis os oito anos de existência que trago em mim. Muitos sonhos. Muita vida para correr pelas veias. E esta cumplicidade que não sei explicar…

Esteve a dar pela milésima vez aquele filme em que o cão, Benji de seu nome, é capaz de mil e uma proezas para salvar vidas humanas. De certa forma, já sinto que é mesmo assim. Sinto-o no nosso Fúria – nunca me identifiquei com o nome, cão tão dócil não é capaz de sentir essa «fúria» – e no Dique de cá e no Dique de quem a minha avó, lá longe, em Santarém, se orgulha como de um filho. Sinto-o nos animais que se aproximam das minhas mãos quentes da brincadeira, na rua. Aqueles de quem todos se admiram que eu não tenha medo. Medo de quê? Das suas línguas húmidas que me acarinham à sua maneira? Do seu pêlo macio que se enternece à passagem dos meus dedos? É esta cumplicidade, talvez mais tarde, quando a barba começar a picar e o acne enfim despertar da minha pele, talvez então eu consiga entender esta solidariedade.

Não preciso de te dizer, pai. Estou a chorar e não sei como explicar. Comovo-me facilmente com as patitas do Benji que procuram no ser humano o amigo que existe sempre, ainda que muitas vezes adormecido, na irmandade de sermos todos animais. Mas que digo eu? Tenho oito anos e não me ensinaram ainda estas coisas complicadas. Apenas sei que gosto de brincar com o Fúria enquanto ando de baloiço, sacudindo as pernas que ele tenta ternamente agarrar com os dentes. Sei que somos dois cachorros a crescer quase ao mesmo tempo: ele, um pastor alemão; eu um miúdo luso-britânico. Ainda não sei que havemos de continuar a crescer juntos até à idade adulta, correndo pelos quintais, a ver quem chega primeiro, deixando-nos cair na erva fofa, como dois irmãos.

Gosto de ver os filmes do Benji. Ele é simpático, peludo, bonacheirão. Amigo das pessoas. E no filme só os muito maus é que não são amigos dele. Mas, no filme, pai, ele acaba sempre por ganhar. Sem magoar ninguém. A sua audácia salva sempre alguém de cair nas mãos dos malvados. Por vezes, lá magoa uma pata no ramo atrevido de uma árvore mas continua sempre. Depois vêm os créditos finais, com os nomes dos actores. É então que eu choro… E tu adivinhas sempre que estive a ver um filme com cãezinhos.

Não estou triste. Pelo menos, conscientemente. Choro de orgulho por um «primo afastado» do nosso Fúria ser tão corajoso, apesar do tamanho, da fragilidade aparente. Choro, comovido, não aquela lágrima fácil, não a «lágrima de crocodilo», como alguns lhe chamam, apesar de eu nunca ter visto um crocodilo a chorar, estou certo de que, se o fazem, são sinceros na sua dor. Aliás, ainda não aprendi, com oito anos, que o Homem é o menos sincero dos animais. Mas aprenderei, acreditem que a vida me há-de contar essa história…

Sim, pai, tenho estado a ver televisão. Vim até ao jardim aproveitar o sol desta tarde de Domingo. Eu e o meu amigo de quatro patas gostamos do sol e das tardes preguiçosas de Domingo. As lágrimas secam num instante. De qualquer das maneiras, eu, por esta altura, apenas sei que os animais são meus amigos. Desconheço que os mauzões dos filmes do Benji se multiplicam na realidade e às vezes ganham. Sou demasiado novo para saber que há quem não entenda esta irmandade entre animais: eu, o Fúria, o Benji, o Dique, o gatinho do vizinho, as vaquinhas que pastam no prado a caminho da escola, o periquito que canta, mesmo preso, os meus pais que se comovem com a minha comoção e o mundo inteiro… Nunca hei-de perceber como há quem não entenda esta ideia.

Damon at 1:28 AM

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

Há 3 anos pasmado a olhar para o mar. Completos ontem. Sabe-se lá porquê, inadaptado, alheio a certos hábitos, incapaz de chegar às massas, por cá fico, pelo menos, mais um tempo. Quanto quer que seja «mais um tempo»...

Damon at 11:55 AM

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

WARNING II: THE COMEBACK (BLOGGER'S CUT): texto sem acentos nem cedilhas e com a possibilidade de ser escrito a pressa por estar a acabar o tempo na loja do paquistanes...

Sempre gostei de caminhar ao acaso em lugares que nao conheco. Nao gosto de me guiar por mapas, a nao ser que o tempo seja pouco. Nao e o caso, comeco a conhecer Oxford relativamente bem, as suas ruas de tijolo vermelho com o sol mais frio que ja vi e senti a espreitar ao fundo, por entre os ramos humedecidos das arvores. Sai do hostel em busca da maior livraria do mundo e acabei por ir dar ao ringue de gelo. Ao lado do edificio que nao tem nada de especial, encontrei mais uma pequena maravilha que os ingleses sabem sempre conservar, mesmo no meio da cidade. Caminhando ao lado do rio Tamisa, apressado em direccao ao trafego de Londres, um parquezinho agreste, cheio de relva, pontes romanticas e arvores intocadas ha mais de cem anos. E certo que borrei as sapatilhas na lama e que encontrei um junkie a injectar-se mas nem mesmo isso consegue retirar a beleza aquele lugar. Sao 16:15, fim da tarde, aqui, portanto. Imagino que la fora estejam temperaturas negativas. Vou beber um chazinho e preparar-me para ir a uma exposicao de arte. Ate breve.

Oxford, 24 de Janeiro de 2006.

Damon at 4:08 PM

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

WARNING: post sem acentos nem cedilhas...

oxford esta gelada. sexta feira a noite e as inglesas andam de mini saia, em busca dos copos perdidos que as compensem do frio. amanha vou voltar ao sitio onde eu proprio comecei... vou ver a maternidade com o simbolico nome "hope hospital". vou ver durham road e os patos no parque, ao lado de nossa casa, aos quais o meu primo dava bananas. talvez me encontre por la. espero de qualquer das formas encher mais umas paginas do meu surpreendentemente preenchido diario de viagem. eh, pa, cheiro mesmo a caril...;-)

ate breve!

oxford, 13 de janeiro de 2006.

Damon at 8:49 PM

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

canção do momento: rodrigo leão, «a janela»

Alguma vez te disse – eu sei que não – que é tão fácil ter saudades tuas? E que as oiço no cismar dos ponteiros do relógio? E que as vejo no olhar da minha gata? E que as sinto na respiração mais lenta do que o costume, entalada em suspiros e sorrisos tristes de recordação… Nunca te disse, mas escrevi, como é costume, aliás. E por muito que tente passear pelos parques, ler e ver filmes com a Natalie Portman, gravar bandas sonoras para cada momento, repito a frase mesmo que não queira; mesmo que não a diga… Está a chover, se te interessa… Está frio mas nada que não se suporte. E tenho saudades tuas – não sei se já te disse. A tua prenda de Natal espera por ti, pousada com carinho ao lado dos meus livros de poesia. E não… não queria mais do que o sorriso amigo que cura qualquer doença, indisposição ou mariquice…

Damon at 1:52 AM

Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

A dor é indescritível. Não vale a pena o refúgio dos advérbios de modo nem a arrogância dos adjectivos. Não vale a pena palavras e frases feitas, de ocasião. Não vale a pena. Se as quiserem dizer os amigos, digam, não terei nunca a insensatez de as levar a mal. Sou o farrapo com que absorvo as lágrimas. Acima de tudo, sou o fiel depositário dos sonhos que nunca realizaste. Aos dezassete anos, um deus desconhecido, impotente como um homem, achou por bem acabar-te com a força, toda aquela força que te fez correr e saltar e lutar. E na derrota, foste a grande vencedora. Eu não te vou recordar pelo dia de hoje, mas pelo teu legado jovem, tenro, de coragem e vontade de viver. Para mim, ainda hás-de ganhar a maratona, bater recordes nos jogos olímpicos da minha saudade. E acima de tudo, da minha admiração. Descansa em paz, minha querida.

Para Maria Teresa Ramalhão Pereira (1988-2005)

Damon at 7:40 PM

Sábado, Dezembro 10, 2005

canção do momento: craig armstrong, «let's go out tonight»

Bio-amnésia

Às vezes,
Esqueço-me de quem sou
E dedilho hipóteses
Na guitarra do meu avô,
Aproveito as horas mortas
E os dedos compridos.

Esqueço-me
De quem já não sou,
Da razão e de aprender
As filosofias
Que mudam a cor do cabelo.

Se tenho uma janela
Que se estende em campos, à minha frente,
Emigro por ela,
Procuro trabalho lá fora,
Estendo os braços à enxada
E escavo, escravo
Da liberdade de viajar.

Se todas as janelas se fecham,
Mascaradas de agentes da PIDE,
Murcho no meu vaso, mas só cinco minutos.
Depois, acordo para o sono
E para os aviões de papel
Que sobrevoam a minha casa
Nas proximidades do aeroporto.

Às vezes,
Esqueço-me de quem sou.
E quando me lembro, de novo,
Nem sempre fico satisfeito.

Damon at 2:45 AM

Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

canção do momento: thomas newman, «dead already»

Sono desconhecido

Esta noite sonhei
Que chovia no meu quarto,
Chuva verdadeira, daquela que molha,
Daquela que rega, daquela que inunda,
Daquela que bate contra a janela,
Mas desta vez batia por dentro.

Os seus cabelos longos
Penduravam-se do tecto
Como candeeiros de cristal
E não descansavam até tocar o chão,
Rendido à sede, rendido ao brilho,
Rendido às previsões meteorológicas,
“Eles bem diziam que ia chover
Por estes lados”.

O mais engraçado é que
Apesar de cair incessantemente,
A chuva não inundava o meu quarto,
Não fazia barulho, não me encharcava
E deixava-me dormir, tranquilo,
Um sono desconhecido.

E a chuva passava,
Como a chuva verdadeira,
Não sei porquê, mas eu sabia
Que o sol estava ali à espreita,
Como a senhora da limpeza,
Para arrumar o quarto
Depois da tempestade inofensiva.

Talvez fosse esse conhecimento
Que não me deixasse molhar,
Que me protegesse de gripes,
Constipações e febres
E me deixasse dormir, tranquilo,
O sono desconhecido.


Damon at 10:24 PM

Domingo, Novembro 27, 2005

canção do momento: kent, «september»

O palavrão

Há palavras que nos vêm à cabeça
Como sonhos,
Do meio de uma escuridão
Onde se abrem brechas,
Ocasionalmente,
Através das quais os contrabandistas
Trocam tabaco por dinheiro,
E os poetas trocam cartas de amor
Por felicidades incompletas.

Essas palavras,
Filhas da noite,
São cegas como o Rogério,
Da Rua José Falcão mas,
Tal como ele,
Aprenderam música
Sem saber ler as pautas.

São palavras que nos surpreendem
A meio do rude ressonar,
Apanham-nos de boca aberta,
Salivando sem dar por isso,
Despenteados e feios.

São, talvez por isso,
Mais puras, mais genuínas,
Feitas da beleza
Que não enche capas de revistas.
Vêm de dentro,
Do escuro de becos sem saída,
De poços onde a água espera
Para matar a sede
E fermentar a vida.

Saltamos da cama,
Feios, despenteados, desnorteados,
Queremos agarrá-la, não deixar
Escorregar a corda que segura o balão.
Procuramos papel, caneta, lápis, um batom serve,
E a palavra entretanto cresceu,
Ganhou ares de importância,
Tornou-se falsa, quase adulta,
E no sufoco de não haver papel
Nem caneta nem lápis nem batom,
A palavra, que antes era bela e pura,
Acaba por sair pela boca
Transformada em palavrão.


Damon at 6:06 PM

Quinta-feira, Novembro 24, 2005

canção do momento: radiohead, «creep»

Os dois extremos de uma corda (antes que o mundo acabe)

Um casal de velhotes
Brinca no parque,
As folhas planam à sua volta
E eles, de mãos dadas,
Rodopiam e fazem piruetas,
Desembrulham sorrisos
Como castanhas assadas de dentro do cartucho,
E caminham sobre o chão estaladiço,
Fazem o pino
E caminham sobre o céu.
Fingem-se crianças.

Entretanto,
Junto à lareira
Que dá estalidos com a língua de fogo,
Adormecem os pais
Enquanto os filhos, faces vermelhas,
Arrumam tachos em miniatura,
Dão de comer aos Nenucos
E caminham no tempo,
Antecipam os sonhos que viram na telenovela das 9,
Onde tudo é ainda quase desenho animado,
Fazem o pino
E abraçam-se.
Fingem-se um casal.

Ás vezes, somos uns;
Outras, somos os outros.
Ambos extremos simpáticos
De uma corda de salto,
De uma pista de carrinhos,
Talvez um lanche kinder, daqui a pouco,
Talvez chá e torradas com geleia
E mais tarde, cansados da brincadeira,
Um pôr-do-sol amornado
Num abraço,
Ao som do acordeão
Nos altifalantes roucos da praia.

No fundo, é tudo medo
De me perder
No meio-termo.

No fundo, é tudo medo
De te perder
Na multidão do tempo.


Damon at 7:34 PM

Terça-feira, Novembro 22, 2005

canção do momento: gorky's zygotic mynci, «face like summer»

Esteve um dia bonito, hoje… Eram 7 da manhã quando me ergui das trevas do meu leito gripal, garganta dormente, narinas congestionadas em hora de ponta e a cabeça com a sensação de ter acabado de sair de uma discoteca. Se fosse mesmo preciso acordar cedo, não conseguiria mas, assim, fui-me sentar na sala a lamentar o acordar doloroso da garganta e a pedir cházinho e paciência. E lá fora, quem diria, o céu azul, a tonalidade amarela a projectar-se nas árvores – aquela tonalidade que me faz sempre pensar no acordeão da «To the end», dos Blur – e as notícias: o trânsito, longe dali, os jornais económicos na revista de imprensa, o Marocas que é um puto e o Cavaco que só anda nisto pelo desporto… Dei preferência aos desenhos animados, à Lilo e ao Stitch, e ao episódio já visto do «Coupling», no People and Arts. E depois, no canal Hollywood, quem diria, àquela hora da manhã, um filme daqueles: «Equus», com o inacreditável Richard Burton – bebia quase tão bem como representava – e a Jenny Agutter, curiosamente, actriz-fetiche de uma das personagens de «Coupling». Depois… fui sonhar com uma sala de aulas cheia de vereadores da Câmara do Porto, com um professor que escrevia nomes de jogadores de futebol no quadro e frases incompletas. A luz foi entrando através das frinchas na janela. Projectou-se no tecto em pequenos traços que pareciam código e fui tendo saudades intercaladas com sonhos estúpidos. Esteve um dia bonito… Pena ter-me passado ao lado.

Damon at 6:55 PM

Sexta-feira, Novembro 11, 2005

Faltam 130 anos

Sinceramente não me lembro bem se eram estes os números exactos, mas que eram acima dos 110, disso não tenho dúvidas. Refiro-me ao tempo que será necessário a Portugal para atingir a produtividade média da EU, segundo um estudo recente. Sem grandes comentários, apenas uma imagem: aqueles placards electrónicos que começaram com a Expo, continuaram com o programa Polis e o Euro 2004: “Já só faltam 130 anos para sermos tão produtivos como os outros”. Lindo…

A Joana

E a velhinha, pobre coitada, vivida e experimentada e com dores nas cruzes, que foi para a porta do tribunal às 8 da manhã, para ser “a primeira da fila” a entrar para o julgamento de Leonor e João Cipriano, mãe e tio imerecidos da pequena Joana? A senhora, sedenta de alguma coisa para fazer para além de se queixar da reforma e das dores nas cruzes, sorrindo para a câmara da SIC, admitiu que “sim”, só estava ali “por curiosidade” e apenas lamentava ter perdido “uma das sessões do julgamento”. A senhora, coitadinha, precisava de uma distracção… Pobre Joana!

Louise Wener

Vinha eu no metro, que a esta hora é bem mais agradável, sem empurrões para conseguir o melhor lugar ou o pivete de um dia de trabalho, quando me apercebi de uma coincidência: a autora do livro que eu estava a ler era a dona da voz que eu estava a ouvir no meu discman: Louise Wener, a ex-vocalista dos desafortunados Sleeper, que podiam ter dado muito mais se a Britpop não tivesse ficado fora de moda. Ainda assim, conseguiram ser a banda sonora do momento em que o Mark Renton (leia-se: Ewan McGregor) e a Diane (leia-se: Kelly MacDonald) estão os dois e tal e coisa, no Trainspotting. A menina Louise, finda a aventura musical, virou-se para os livros e é agora escritora a tempo inteiro como, aliás, vem escrito no livro. E estou a gostar bastante dele. Consta é que ainda não está traduzido para português, este “Big Blind”. Estejam atentos, senhores tradutores… Ah! E por acaso, a Louise era uma das vocalistas mais sexy do tempo da Cool Britannia, rivalizando com uma tal Sophie Ellis Bextor, mas com o dobro do talento.

Damon at 4:42 PM

Segunda-feira, Novembro 07, 2005

Pensamento de hoje, às 13h30

O tempo frio, a longa caminhada entre Outubro e Abril, faz-me sentir mais vulnerável. Como se a chuva pudesse arrastar consigo a minha pele, deixar-me nu de razão e significado. Daí o buraco para onde me apetece migrar, um buraco tapadinho, onde me sinta seguro e onde os vermes, o plutónio e os monstros que desenho no espelho e os monstros que se apoderam de uma ausência na minha vidas, não consigam chegar. E o frio, o frio que faz desejar chocolate quente e um bom filme enquanto os braços seguram o nosso maior tesouro… O frio quebra-me os ossos e conserva as memórias que eu quero longe da vista.

Pensamento de hoje, às 16h00

Eles olham e chamam-me «estrangeiro!». Eles não permitem bons dias, boas tardes, boas noites, então, como estás, és daqui, por que estás aqui, etc. A porta abre-se e eu estou aqui. Passam e fazem-me velho. Como é que alguém com 25 anos se sente velho?... Quando se sente desnecessário, supérfluo, a precisar de ir à revisão ou de um passeio pelo ecocentro. Eles olham e não me chamam. E eu faço o resto. Nem sequer refiro as excepções…

Pensamento de hoje, às 17h30

Há alturas em que os olhos deviam estar quietos. Os olhos, um bocado crianças a brincar num jardim, podem cair e partir uma perna ou simplesmente magoarem-se. Porque os olhos, tal como as crianças, fartam-se de fazer desenhos que não têm nada a ver com a realidade. Nesses desenhos, a vida é bem mais justa. Esses desenhos são bem mais bonitos do que muitas fotografias. Alguns desses bonecos desenhados merecem bem melhor. E os meus olhos querem muito o bem de alguns desses bonecos.


Damon at 8:58 PM

Sexta-feira, Outubro 21, 2005

cançao do momento: blur, «the universal»

Aqui estou eu, o rei sem trono das idas e voltas com grandes intervalos pelo meio. Cá estou eu, regressado dos e-mortos-vivos da nossa web. E para dizer mal dela, ainda por cima, desgraçado sou… Porque de momento sinto-me farto das artificialidades das novas ferramentas de comunicaç?o: os blogues e a ansiedade que os comentários (ou a aus?ncia deles) provocam; o messenger, sempre t?o cheio de smiles e lol’s e onde n?o é possível distinguir sorrisos de esgares e olhares tristes de um rosto corado por algo de bom; mais recentemente, o hi5, esse belo instrumento para saber quem s?o os amigos dos amigos e onde o melhor amigo é aquele a quem atribuímos um 5 (cinco qu??!). Querem maior prova de amizade…?

Parece-me a mim que tudo isto encerra demasiada aus?ncia de sensaç?es. É t?o bom receber cartas ou mesmo um telefonema… Sentir um abraço, uma carícia, e retribuí-la. Estamos (eu incluído) demasiado dependentes da Internet. Ainda há cem anos, n?o havia luz e agora, se nos falha o modem, ai Jesus Nosso Senhor Bill Gates!

Basicamente, é por todas estas manias do Restelo que n?o me tem apetecido ir a blogues, escrever em blogues, ligar o messenger, etc… Basicamente é porque tenho sede de toque, de sorrisos que n?o sejam bonecos amarelos e redondos. É óbvio que gosto de ter comentários no staringatthesea. E também acho que fico demasiado ? espera deles, ?s vezes. Mas gosto ainda mais da voz, do olhar e da pele.

Queres ir tomar um café?

Damon at 5:42 PM

Domingo, Setembro 18, 2005

Há já muito tempo que o papel se transformou em muito mais do que um lenço de enxugar as lágrimas, de uma maneira ou de outra, nunca deixando de o ser. Há muito tempo que escrever deixou de ser uma desculpa para declaraçoes a donzelas demasiado longínquas, demasiado encerradas nas suas torres ou demasiado livres dos meus braços. A escrita tornou-se motivo para ser alguém, vontade de um dia encerrar o canudo num baú de memórias e ser apenas e só: escritor. As ilusoes já lá vao, mirradas por cada uma das cartas a recusar publicaç?o, a n?o ser... a troco de uns trocos... E por vezes, a confiança foge. Há alturas em que penso que nao vale a pena, deixá-lo para outros, com mais talento e paciencia. Nao fosse o vício, e acho que me forçava a desaprender o abecedário...

Damon at 1:11 PM

Sábado, Setembro 17, 2005

aguentei as dificuldades óbvias do fotolog durante um tempo considerável. nao o considero morto. digamos que se reformou depois de dar a luz tres novas crias: o memorial, seu herdeiro directo numa faceta generalista; o face, para fazer realçar o que ainda resta de bom em ser humano; e o patas, onde a máquina fotográfica é a melhor amiga dos animais... espero que apareçam!

Damon at 8:09 PM

Terça-feira, Setembro 13, 2005

cançao do momento: doves, «black and white town»

Stansted, 23:59

Schhhh,
Estes pequenos seres adormecem
Enquanto, lá fora,
Na grande massa nocturna,
Monstros meio-pássaros, meio-homens,
Se preparam para mais uma migraçao.

Aqui e ali,
Pequenas cançoes:
O aspirador que estica a tromba
Para lamber o chao;
Ela tosse, em voz baixa;
Eles sussurram, fingem-se em casa
E só lhes faltam
Os lençóis e a escuridao;
Pequenos comboios movidos a empurrao
Transportam baús,
Tesouros incalculáveis,
E as suas rodas segredam o caminho.

Esta aqui,
Sem pudor de mostrar as peúgas,
Dança com os caracóis imaginários
Do seu cabelo virgem.
Olha-me, curiosa:
“Por que nao dormes?”.

Schhhh,
Prometo nao fazer muito barulho
Com a caneta, que nao ressona,
Pelo menos, acordada.
Fico aqui sentado, a ver-vos.

Os polícias marcham delicadamente,
Sem sabendo bem se nos protegem
Ou se nos vigiam.

Os grandes pássaros chegam
E partem logo a seguir
E eles, os mais pequenos,
Quase nem dao por isso
E sem querer, imitam-lhes os voos,
Entre um e outro sono.

Chegam mais pequenos seres,
Fazem os ninhos
Nos poucos sofás livres
Que subsistem por estes ramos.
Fazem barulho
Ao pousar as malas,
Porque ainda nao perceberam:

Schhhh.
O voo destes pequenos seres
É mais sagrado
Do que o dos monstros lá fora.
Fico aqui, a olhar por eles.

Stansted, Londres, 31 de Agosto de 2005.

Damon at 12:24 AM

Domingo, Setembro 04, 2005

cançao do momento: green day, «wake me up when september ends»

Tram 25

Atravesso a ponte
Já o Sol faz a cama onde se deita.
Subo todos os andares
De todas as torres que se erguem
Como casas de papel a tres dimensoes,
No quadro a minha frente.

E sobre os carris, continuo.
Entras na próxima estaçao,
Sobrevoando o chao em passos leves,
De olhar baixo, para nao acordar os sonhadores
E nao lhes desviar os caleidoscópios
Para sonhos mais difíceis de concretizar.

Aproximas-te.
Sabes que ao meu lado
Nao há rio que te leve,
Regime que te oprima
Ou velho viagradependente que te assedie
Com estalidos da língua obscena.

No prenúncio da próxima estaçao,
Misturamos as cores,
A escuridao dos meus olhos
Pede alguma luz emprestada
A serenidade dos teus
E, a partir daí, em micromomentos,
Colhemos frutos e flores
Nas margens de cada um de nós.

Sorris, mas és tímida.
Talvez para nao desvendar
O pequeno arame que te prende os dentes,
Indicando-lhes um caminho para crescer
Na sua juventude desencontrada.

Nao faz mal.
E encolhes os ombros
Num arrepio súbito,
Como se sentisses os beijos
Das minhas maos no teu pescoço.

Estamos quase a chegar.
Saio na próxima paragem
E vou visitar museus e palácios
E lojas de recordaçoes.

Por entre os teus lábios,
Oiço-te dizer:

«Corre comigo,
Apesar de teres as pernas em chamas.
Dança, pega em mim ao colo,
Eleva-me aos astros mais serenos,
Também eles feitos em fogo.

Ama-me,
Apesar do teu coraçao
Nao ser mais do que um céu choroso,
Uma arma que, a qualquer momento,
Pode disparar contra si própria
E fazer chover
As palavras erradas.»

E eu?
Eu sou um turista,
Uma nuvem que rasteja e vai embora.
Hao-de passar muitas épocas altas
Até que nos encontremos de novo.

Praha, 28-8-05.

Damon at 7:46 PM

Quinta-feira, Agosto 25, 2005

cancao do momento, "os parabens em checo, no restaurante do hotel"

Vltava

O rio cai
Em desalinho,
Arrastando as pontes,
As pedras e o po.

O rio cai
Num protagonismo bruto,
Deixa/nos mudos e surdos
E leva/nos com ele.
E quando nos leva,
E para nunca mais nos trazer.

As sirenes, ao longe,
Anunciam catastrofe,
Provavelmente mais algum poeta
Checo com um ataque de inspiracao,
Talvez outro Jan Palach,
Ainda e sempre envolto em fogo,
Protestando a invasao sovietica.

Indiferente,
O rio cai em fios
Para depois da espuma.
Desenha cordas de brilho,
Bracos que arrastam as pontes,
As pedras, o po
E os meus olhos
Que procuram no futuro
Um encontro sonhado.

Praga, 24 de Agosto de 2005.

(desculpem a falta de acentos e a pontuacao esquisita mas nao e facil usar um teclado checo...)
Beijos e abracos para todos.

Damon at 1:20 PM

Sábado, Agosto 20, 2005

cançao do momento: the clash, «london calling»

nao podia deixar de partir sem dizer qualquer coisa... a verdade é que nao me tem apetecido escrever por aqui, ou melhor, nao me tem apetecido sequer ligar o computador. dessa forma, decidi que o melhor era nao forçar, nao me por para aqui a inventar sob o risco de deitar tudo por água abaixo e ainda ficar perdido no meio do mar, sem bóias nem ilhas aonde me agarrar. mas antes de rumar a capital do país onde nasci, tinha que vir cá dizer qualquer coisa. tinha porque tinha. nao podia abandonar um blog durante dez dias sem sequer dizer "até já". nao podia deixar o meu filho cibernético morrer a fome. cá estou. e espero que voces também. até breve, com um aroma de Trafalgar Square e do país de Kafka, Kundera e Poborsky...

ah... hoje um miúdo veio-me pedir que lhe comprasse um papel onde se lia nossa senhora de qualquer coisa. disse que nao podia ajudá-lo e ofereci-lhe um gelado. é bom ver que as crianças ainda sao iguais em toda a parte. o brilho nos olhos e o orgulho com que, minutos mais tarde, o vi passear de gelado na mao...

Damon at 1:12 AM

Domingo, Julho 31, 2005

Quando choro, tenho olhos de velho. Dizem-me que nao devia chorar, «nao é coisa de macho». E tem razao, é coisa de humano. Por isso, sou um ser que chora, de vez em quando. Mas o que eu queria era que, tendo em conta a inevitabilidade das lágrimas, eu n?o ganhasse essas olheiras, essas rugas de trapo e esse esgar agudo de aperto no peito. Nao queria ter olhos de velho, quando choro. Queria ter aquela expressao dos bebés, que também choram, mas conservam nas faces a pele tenra de quem sabe que as lágrimas secam e que basta um brinquedo ou uma cançao para que tudo fique bem. Queria ter a inocencia de achar que tudo muda. Para melhor.

Damon at 7:37 PM


Cançao para alguém que voa

Voa como um pássaro
Daqueles cujas penas
Desenham no céu
O nascer e o por-do-sol,
O arco-íris que alivia a tempestade,
O supremo sorriso das pétalas de chuva.

Voa como as aves
Que me confiam um rumo,
Inocentes e sábias,
Sabem apenas que voam sempre
Para algum lugar,
Por mais longínquo que seja
E nunca se esquecem
Do ramo onde repousa o seu ninho.

Abre os teus olhos, lá em cima,
Abre-os como se abre a janela, de manh?,
Para ouvir as cançoes do mundo,
Ve-nos cá em baixo, pequeninos,
Atarefados, desejosos por voar como tu.

Abre os teus olhos, lá em cima,
Limpa com eles o céu,
Dá-nos dias azuis, horizontes de luz,
Lanternas nocturnas
Que contam segredos
Em código morse, intermitentes.

Mas regressa.
Quero que me contes
Quantas nuvens s?o precisas
Para guardar os teus sonhos.

Damon at 1:03 AM

Sábado, Julho 23, 2005

As pessoas deviam ser mais profissionais quando avaliam o trabalho e, acima de tudo, o esforço de um conjunto de seres humanos. Um estágio deveria ensinar-nos um pouco do nosso valor, o que podemos ser na eventualidade de seguirmos este caminho, dar-nos uma ideia, pelo menos. Mas quando o exemplo que vem de cima deixa tanto a desejar, a sensaçao que fica é a de que
a) o nosso valor é quase sempre superior ao daqueles que, supostamente, e apenas em teoria, nos orientam;
b) talvez seja mesmo melhor nao ir por aqui...

Damon at 10:06 PM

Quinta-feira, Julho 21, 2005

Cançao do momento: The Divine Comedy, «Oh yeah»

A Padme anda maluquinha. Nao pára quieta na sua inocente e ao mesmo tempo felina vontade de brincar.

Uma amiga minha que me fala de ideias bonitas para fazer algumas das coisas de que mais gosto. Sinto-me confuso. Porque nao sei onde estou. Nao sei para onde vou.

Nao sei para onde vamos.

Na minha cabeça, um turbilhao de locais, uma misturada de pontos cardeais e de coordenadas. Para onde vamos, quando tudo acabar?

Maia Porto Braga Oslo Manchester Castelo da Maia Londres Praga Bruxelas Paris Gueifaes Moreira da Maia Vila do Conde Lisboa Aveiro Vermoim Tubingen Botswana
S. Jorge Marco de Canaveses Roma Santarém Tampere Vila Nova de Gaia Santa Maria da Feira Madrid Mercúrio Vénus Terra Sistema Solar Via Láctea Universo

Damon at 12:59 AM

Domingo, Julho 17, 2005

Passeio nocturno

O teu corpo nu
Propaga-se no ar
Como incenso.

Erguem-se
Pequenas chamas
Dos candeeiros de rua
E a noite parece mais calma,
Mais doce,
As estátuas ronronam
E as bocas de inc?ndio
Uivam a Lua.

Conseguem ouvir-se
Ranger as molas
De um colchao na relva
E os manequins,
Encerrados nas montras,
Esboçam sorrisos.

O teu corpo nu
Passeia o odor
Pelas paredes.

E as sombras agradecem,
Desenham esgares
Nos teus contornos,
Navegam em círculos,
Até que o dia nasça.

Querem se encontrar
Para depois se perderem
Na luz.

E o teu corpo nu
Regressa a casa,
Onde te encontra
Quieta, inocente,
Ingénua quando pensas
Que tudo nao passou de um sonho.

Damon at 2:10 PM

Terça-feira, Julho 12, 2005

Sonhar é perigoso

os sonhos sao perigosos
como as flores,
as mais belas sao, muitas vezes,
as mais venenosas.

Algumas tem espinhos,
Algumas nao tem cheiro
E perdem a cor
Com a ameaça de chuva.

A noite passada,
Piquei-me num espinho
De um sonho cor de rosa.

Molhei os lençóis,
As minhas veias choraram
E os rios regaram
Pétalas de papel crepe
Que em vez de crescer,
Murcharam.

Por isso, jurei
Parar de sonhar,
Pelo menos até
A próxima Primavera.

Mas os sonhos
Sao teimosos
Como as ervas daninhas
E chamam por mim
Como campainhas
E pelo menos
No perfume decantado
Do encanto enganador
Dos sonhos,
As flores deste canteiro
Serao minhas.

Serei jardineiro,
Regador,
Estufa,
Alquimista,
Farei do veneno,
Perfume
E do perfume,
Veneno
Para matar
Os pesadelos.

Damon at 7:47 PM

Quinta-feira, Julho 07, 2005

cançao do momento: michael nyman, «miranda»

esvoaçar por aí. por em prática todas as teorias que levaram o super-homem a acreditar. fazer da «tonight we fly», dos divine comedy, um motor, que embale as asas, que crie um sopro leve, só isso. sem perigo. sem atacar senhoras loiras (ontem a noite vi «os pássaros», do hitchcock). é isso. vou fechar os olhos. fechando os olhos, tudo é possível.

Damon at 2:48 PM

Sexta-feira, Junho 24, 2005

Apetece-me dar um passeio contigo. Para os lados da Foz, se preferires o rio ao mar, eu nao me importo. Apetece-me dar um Passeio Alegre:

comprar um gelado e partilhá-lo contigo.
rir como só as pessoas felizes riem.
sentir nas linhas da minha mao o destino da tua.
por as tuas estrelas no céu da minha boca.
adormecer na almofada do teu peito.
acariciar-te e ficar com as maos cheias do perfume do teu cabelo.
colar os meus olhos aos teus e ficar assim, sem ter medo de que percebas.
regressar para ficar horas a saborear o momento.

Sei que nao existes. Nem mesmo na minha imaginaçao. Nao tens rosto nem cheiro. Mas o verao assim é um gelado de nada. Insípido e frio.

Damon at 2:36 PM

Quinta-feira, Junho 23, 2005

cançao do momento: gene, «save me, i'm yours»

O poder do papel e da tinta

Duas folhas brancas,
Coscuvilheiras,
Em cima da mesa,
A espera que eu lhes conte
Os teus segredos.

E a esferográfica,
Vermelha, cúmplice,
Trinca-espinhas sanguinária,
Seduz-me com o olhar
Matreiro, de quem conhece
Todas as minhas asneiras
E que orgulhosamente
Lhes cuspiu em cima.

Recuso-me.
Argumento com
Uma crise de inspiraçao
E luz insuficiente,
Para além do reumatismo
Que me tem afectado
As pontas dos dedos.

Dói-me a cabeça.
E sabendo que a memória
É uma despensa,
Doem-me as costas
E nao posso baixar-me
A procura das caixas de papelao
Onde guardei o que me contaste.

As duas folhas, brancas,
Pele macia a fazer inveja
As modelos nórdicas
Dos anúncios ao creme Nívea,
Ameaçam o suicídio,
Fazem chantagem emocional,
Aproveitando uma rajada de vento
Para se atirarem do Evereste desta mesa.

A esferográfica,
Vermelha,
De vestido transparente,
Simula uma hemorragia
E diz-me que se esvai
E que vai perder todo o sangue
E que há palavras que nunca escreveu
E tem tanta pena de morrer
Sem as dizer.

Eu,
Que nao posso
Com este sofrimento,
Acabo por fazer-lhes
A vontade e,
Em cento e vinte linhas,
Conto-lhes tudo o que sei
Sobre ti,
Tudo o que me contaste,
Tudo o que n?o me contaste,
Tudo o que me disseram
E tudo o que vi
Através da fechadura
Que me mostrou
O teu corpo
E o teu quarto.

Satisfeitas com a refeiçao,
As folhas levantam voo,
Para eu nunca mais as ver.

Mas diz-me o vento
Que o livro vai ser publicado
Em breve.

Damon at 9:31 PM

Domingo, Junho 19, 2005

Nao sei quando comecei a correr. Apenas que a meio do caminho, noite feita daquelas cheias de luz, já tinha deitado abaixo metade dos obstáculos e que os pontos se acumulavam nos meus bolsos num retinir de vitórias que fariam os miúdos pular de alegria no salao de jogos. Mais a frente, sentindo por baixo dos pés uma substancia macia e ao mesmo tempo crocante, descobri-me na praia, deserto onde o luar se avolumava, de uma forma meiga, amaciava o chao. Atravessei-a toda, de vez em quando, sentia o fresco da água do mar nos meus pés e a espuma perdendo-se na minha pele. Até que o mar acabou. Entao, corri por campos agrestes, cobertos de fetos e outras plantas com a forma de lágrimas que secaram. Corri com um pastor alemao ao meu lado, riamo-nos os dois, a cada passo, uma gargalhada, pareceram-me anos a ficar para trás. Entrei no cinema quase sem dar por isso, saltitando por entre os baldes moribundos de pipocas, na fase em que apenas alguns melodramáticos seres ficam a ver os nomes das pessoas que fizeram o filme. Encontrei-me de novo cá fora, em caminhos estreitos de uma cidade árabe. O cheiro a especiarias inquietava o vento quente. Deram-me o pau de uma bandeira, cujo pano havia entretanto sido levado pelo vento carregado de especiarias. Entrei naquilo que parecia ser uma pista de corridas, fiz alguns pioes que me levaram ao sub-solo, onde canteiros de violetas eram regados por homens que faziam o pino para sorrir. Atravessei um túnel. Ouvi um comboio por perto. Ouvi cançoes antigas na voz de crianças. E de novo a luz. Era dia e eu continuava a correr. Nao sei quando comecei a correr. Mas sei que já corria há muito tempo e as horas apenas pareciam dar-me mais energia. Cheguei a um planalto onde o sol se punha apesar de ser manha. Acendi uma fogueira e vi o pequeno fogo sorrir. Ali estava o mar de novo, povoado de minúsculos pontos de luz. Enquanto recuperava o folego, apeteceu-me contar as estrelas. Fechei os olhos e contei-as. Mergulhei nelas. Senti-as molharem-me o corpo enquanto os seus braços me despiam. Senti-me adormecer por dentro. Quando dei por mim, estava deitado no ventre da minha mae, a espera de uma oportunidade para nascer de novo.

Damon at 2:30 AM

Domingo, Junho 12, 2005

As consequencias do amor

Ah, o amor… Essa entidade que nos pode fazer ver «a vida em rosa»… E que pode fazer com que nos «enterremos» nas suas areias movediças…

Damon at 1:13 AM

Quinta-feira, Junho 09, 2005

cançao do momento: coldplay, «square one»

Ontem, enquanto atropelava sacos de plástico numa espécie de auto-estrada, aproveitava o caminho em linha recta para pensar. Conduzia os meus pensamentos através das ruas habituais. Pensava nas tendencias depressivas. Pensava no sentimento tragicómico que desperta em mim o facto de alguém ser capaz de pensar que eu pudesse, alguma vez, aproveitar-me de um ser inocente. Senti-me insultado. Conseguiram fazer-me por em causa uma ingenuidade que eu vou guardando apesar das mil e uma quedas. Continuei a conduzir, atropelando sem piedade os sacos de plástico que se atreviam a atravessar fora da passadeira. Porque é disso que eu sou capaz. De atropelar sacos de plástico. Quanto aos seres plenos de sangue e de vida, sou bem capaz de me precipitar na ribanceira para nao os abalroar. Se puder desviar-me das moscas, faço-o. E a noite, encontrei a primeira rapariga a quem me declarei, há treze anos.

Damon at 11:43 AM

Sexta-feira, Junho 03, 2005

cançao do momento: marianne faithful, «crazy love»

Aqui, neste canto mais escuro da minha cama, apenas o piano de marianne faithful sussurra lamentos nos meus ouvidos, enquanto a selecçao sub-21 acalenta esperanças contra metade da antiga Checoslováquia. Uma gata espreita, por entre os orifícios das persianas que nos fecham cá dentro, uma oportunidade de ir ver o mundo, mesmo que ele nao seja mais do que um jardim com uma árvore no meio. Apenas o piano de marianne faithful… e daqui a pouco os violinos, que acrescentarao argumentos ?s queixas de uma sexta-feira ? noite. Há uma feira do livro no palácio de cristal. A brisa que sopra poder-me-ia empurrar para um passeio, apesar das dores nas costas. Na mesinha de cabeceira, um livro espera que o completem, que lhe fechem a porta, que o encerrem para que finalmente possa descansar em paz. Uma mensagem espera resposta. Uma gota de suor arde-me no olho direito. O piano de marianne faithful… para me lembrar que tenho saudades de um sorriso. Saudades que nao posso admitir, apesar de nelas apenas sobreviver o desejo inocente de conversar. É sexta-feira, faz-se tarde na noite e as primeiras estrelas sobem ao céu ou descem ao meu mundo, depende da perspectiva. As luzes eléctricas, que também sao estrelas, desenham caminhos ao fundo do horizonte. Aqui, neste canto pequeno da minha cama, pousado na colcha encorrilhada dos pés que tentam em vao caminhar, apenas o piano de marianne faithful lamenta os sussurros da ausencia. A selecçao está a ganhar.

Damon at 9:32 PM

Quarta-feira, Junho 01, 2005

cançao do momento: jeff buckley, «grace»

As viagens de Sara

A Sara voltou a viajar, como sempre, entre o Porto e Lisboa e vice-versa. A Sara voltou a sentir nas veias amolecidas pelo ar condicionado a aridez plácida dos campos ribatejanos; voltou a olhar a estaçao de Santarém como quem olha para um sorriso num dia simples de verao, em que um mini aguardava com uma avó ansiosa lá dentro. Sara voltou a refrescar os olhos nas lezírias, pegando em livros, em cadernos, em cassetes, em cd's, em leitores de mp3; voltou a passar pela praia imensa de Espinho, sentindo o combóio enfiar os pés na areia quente, espreitando sempre em busca de caras conhecidas que ali se tivessem refugiado das aulas pouco apetecidas.

Sara apercebeu-se das mudanças. Mas acima de tudo, apercebeu-se do que nao mudou e da vontade de seguir viagem mesmo depois de se anunciar o fim da linha.

Damon at 2:44 PM

Quarta-feira, Maio 25, 2005

no domingo passado, corremos como loucos pela avenida abaixo, uma das maiores avenidas da europa, em passo de corrida, saltitante, atrás do autocarro que lançava uma chuva de pequenos papéis vermelhos e brancos. vivemos a glória que tantas vezes nos escapa nas superligas do dia a dia. fizemos de putos que idolatram os homens grandes, eufóricos, no topo do mundo e do autocarro ? nossa frente. da rotunda da boavista até ? foz. parte do percurso a correr. sem pensar no cansaço e fazendo de conta que o dia seguinte era um conjunto de horas leves, como no passado. regressámos a conversar e chegámos ao carro. o Benfica está de novo no topo. e nas nossas faces l?em-se esperanças de dias melhores porque, bolas... da última vez que o Benfica foi campe?o, éramos bem mais felizes...

Damon at 2:23 PM

Sexta-feira, Maio 13, 2005

cançao do momento: a mistura de ruídos entre quatro televisoes, um rádio e algumas (poucas) pessoas a falar numa redacçao.

descrever. já escrevi tres textos para o jpn hoje. todos eles sobre futebol, é curioso: o meu clube ingles foi comprado por um milionáriozeco qualquer americano e o país revoltou-se; o dínamo de moscovo quer tantos jogadores portugueses quantos os operários da construç?o civil em portugal; amanha é o jogo do título, ou se calhar nao, nao acredito que o meu benfica vá ganhar, mas pronto(s)... almocei. uma francesinha, para variar um bocado. o molho estava fraco... comprei a prenda para o meu pai, que faz hoje anos: um livro sobre o tep (teatro experimental do porto) do qual ele, num tempo remoto, fez parte como actor. espero que ele o leia, para variar, porque o livro foi caro como o caraças (que é muito caro!) e porque ele quer sempre os livros todos e duas páginas depois, na melhor das hipóteses, deixa-os esquecidos a acumular pó e jornais velhos. e é a vida. há que alimentar o blog. quando nao há muita coisa para dizer, descreve-se o dia. vou para casa, (es)tá bem?...

Damon at 4:56 PM

Quarta-feira, Maio 11, 2005

Segundo eles, eu sou assim:



Your #1 Match: ENFP


The Inspirer
You love being around people, and you are deeply committed to your friends.You are also unconventional, irreverant, and unimpressed by authority and rules.Incredibly perceptive, you can usually sense if someone has hidden motives.You use lots of colorful language and expressions. You're qutie the storyteller!
You would make an excellent entrepreneur, politician, or journalist.


Damon at 3:02 PM

Quinta-feira, Maio 05, 2005

cançao do momento: coldplay, «speed of sound»

após receber cartas de reclamaçao da alta autoridade para a comunicaçao anti-social, do Deco, do alto comissário para as minorias éticas, do movimento das forcas amadas, do sindicato dos trabalhadores da disfunçao púbica, da comissao de desprotecçao aos hiper-protegidos, da confraria da maç? frita com run, do cónego cogumelo, do tapa-bento XVI, da comissorum praxorum sopensorum em bebedorum e da associaçao dos leitores de jornais, revistas, blogues e dvd's e cassetes, a gerencia deste blogue deliberou que era altura de quebrar o ritmo depressivo e com um ligeiro sabor a xarope para a tosse comprado no ervanário que esta instituiçao de inutilidade pública vinha adoptando nos últimos tempos. Assim, como nao temos o jeito para contar anedotas da mulher do presidente dos EUA, resolvemos presentear-vos com uma lufada de boa disposiçao na melhor tradiçao centenária dos blogues:

lol lol lol lol lol lol lol lol lol lol lol lol
:-) ;-) :-) ;-) :-) ;-)

estao a ver como somos felizes?
o mundo nao gosta de pessoas tristes!
pronto, vamos lá voltar ao costume...

Damon at 12:22 AM

Domingo, Maio 01, 2005

este domingo, fizemos uma petiscada de silencio... convidamos os fantasmas, as paranoias e a ausencia e depois de nos fartarmos de engolir angustias, refastelámo-nos lá fora, na apatia. só ao fim da tarde, quase a hora do jantar, alguem se lembrou de propor uma musica e assim, dançámos ao som das portas a bater.

Damon at 8:18 PM


cançao do momento: new order, «hey joe»

Piromania

Pelo teu olhar de terra queimada,
Presumo que também olhes para lá,
Na direcçao de um horizonte
Frequentemente embaciado
Pela poeira das cinzas.

Pelas tuas maos, cavadas do trabalho
De encontrar um poço onde um dia
Te possas esconder do mundo bonito,
Presumo que nos devamos apresentar.

Mas para que palavras?
Vamo-nos sempre lembrar
De um encontro
Num dia seco
Como uma queimadura.

Nao trocamos
Morada nem e-mail
Nem número de telemóvel,
Sabemos que um dia…

Nao apressas o passo,
Tens a sabedoria de quem reconhece
Que o inevitável acontece
E que a trovoada é pólvora seca
E que os deuses também se cansam
De esperar sentados.

Entre os teus cabelos cinzentos,
Cabos fire wire na tua pele,
Corre o vento sul, guardiao de um deserto,
Decerto faminto de um curto-circuito.

Pelo amor de Deus ao Diabo
Que lhe trata do solário
E do aquecimento central,
Presumo que ainda nos vamos encontrar,
Refrescando os olhos no brilho.

Há um calafrio,
Um calor frio que nos percorre,
Que nos une e damos as maos,
O tempo suficiente
Para que as rochas dos nossos dedos
Se toquem e criem ciencia,
Numa maravilhosa experiencia
De electricidade estática.

Uma pequena amostra,
Um desenho de cores quentes
Nasce dos nossos corpos
E entao viramos as costas
E partimos sem dizer adeus.

Nunca te disse o meu nome
Mas sabes que ele se pronuncia
Como o riscar de um fósforo.

Nunca me disseste o teu nome
Mas eu sei que já o ouvi dizer
Numa noite de S. Joao.

Um dia,
Ainda nos vimos
Num vulcao
E há-de ser a lava
A fermentar
A nossa descendencia.

Um dia,
Ainda nos vamos
Ver
Com olhos
De luz.

Um dia,
Ainda nos vamos
Ver
Nos incendios.

Obrigado, Gonzaga, pela contribuiçao... Há frases que saem por acaso e depois, estao lá os maldosos para lhes deturpar o sentido... :-)

Damon at 4:37 PM

Sábado, Abril 30, 2005

Adoraria dar a alegria aos meus amigos de lhes dizer que me sinto feliz. Aos amigos que tenho, que sao daqueles fortes, rijos, que cheiram bem e nao sao geneticamente modificados, como os produtos do campo.

Se fosse suficientemente importante para os ter, adoraria mostrar aos meus inimigos o quanto sou forte e rijo, o quanto cheiro ao suor dos vencedores, que toda a gente sabe tem o cheiro dos louros, da camomila e da hortela-pimenta.

Tive a má sorte de nascer assim, carne, osso e este maldito sumo que as vezes é mais ácido que a toranja. Nasci homem mais do que mito, ou seja, frágil como todos os homens, ou seja, ao contrário do mito, que é forte e rijo, com um coraçao que levanta halteres em provas olímpicas.

Sou um homem pouco forte, porque estou cansado. Triste. Só. Coberto de poeira que se mete nos olhos e faz chorar. Choro demasiado. Mais do que o senhor doutor recomendou. Nao preciso de lágrimas artificiais. Elas vem. Lá do fundo de um poço de ras. Choro no caminho para casa. Sozinho no quarto. No géiser de uma conversa, quando já nao se aguenta.

Nao me apetece estar sozinho. E o silencio é terrível no meio do barulho. Tal como a escuridao é asfixiante em frente aos holofotes. Como a solidao é aterradora enquanto os outros dançam. Nao me apetece continuar sozinho. Com uma vergonha secreta dos «eu nunca…», cartazes que jamais foram arrancados das minhas paredes.

Vinte e cinco vezes as velas se apagaram. Qual menina dos fósforos, vou acendendo a madeira húmida para me aquecer. Mas já nao chega. E nunca. Nunca. Alguém me censura quando eu nunca…? Alguém me censura quando eu nunca… apesar de ter sempre… sempre… tentado, com toda a força, com todo o sumo, sentir o que é verdadeiramente viver?

Cometi um crime? O horror de ter assassinado jovens indefesas com uma seta sem sentido, uma vontade de ser especial, de dar e receber, já agora, de ser abraçado, essa obscenidade, esse palavrao que os lábios expelem quando se tocam. Saber a que sabe. Obsceno! Criminoso! Sentir o conforto de uns braços, o odor das palavras que cheiram bem… Santa Inquisiç?o vos proteja de hereges como eu…

Sinto-me triste. Só. Cansado. Frustrado. Curvado na hora das refeiçoes. Com uma ruga no meio da testa e os olhos descaídos, habituados ao cimento do chao. Incapaz de disfarçar. Só. Até que alguém me desse a mao. Só me desse a mao. És capaz de me censurar?

Aqui estou eu, nu perante uma plateia pouco estupefacta. Sou eu como tu, amigo por tempos desaparecido, sempre disseste conhecer-me. Sincero. Se tentasse nao s?-lo, nao conseguiria. É que eu sou assim, mais homem do que mito, feito de carne, osso e sumo. E água que mata a sede aos canteiros por onde passo. A caminho de casa. Sozinho no quarto. No géiser de uma conversa, quando já nao se aguenta.

É só uma fase, pouco mais do que uma frase…

Damon at 4:50 AM

Segunda-feira, Abril 25, 2005

cançao do momento: morrissey, «i'd love to»

O dia de hoje é feito de ar. O dia de hoje é feito do vento que eleva em danças soltas as serpentinas e os braços das crianças. O dia de hoje é feito de marés e de luas e do azul intermitente do céu. E sao os cravos vermelhos que dao cor aos coraçoes livres.

Damon at 6:23 PM

Domingo, Abril 24, 2005

Acredito que, quando nasceste, trazias nos grandes olhos castanhos o desejo de viajar. Acredito que quando, pela primeira vez, os grandes olhos viram o mundo, mexeste os bracinhos inocentes e tentaste comunicar as tuas primeiras vontades através de gestos que apenas enterneceram. Irritada, por momentos, franziste duas sobrancelhas minúsculas de uma forma que mais ninguém consegue, acabando por desenhar duas infantis manchas vermelhas nas bochechas, quando te apercebeste de que havia gente a olhar para ti. Acredito que nasceste com sono. Ou melhor, tu é que dizer que queres dormir porque, no fundo, acredito que o que tu desejas é sonhar. Mesmo que os sonhos passem por ti sem que te apercebas. Acredito que, momentos depois de nascer, sorriste e os dois grandes olhos castanhos sorriram contigo. Acredito que esse dia foi há precisamente vinte e dois anos. Acredito que os culpados pelo teu repentino existir merecem uns valentes parabéns… (e já agora, tu também).

Damon at 4:52 PM

Sábado, Abril 23, 2005

cançao do momento: lamb, «darkness»

Partir e ficar

Há quem parta os dias
Com a faca do queijo
E os corte em pedaços brutos
E os vá comendo com o pao
Que o padeiro mal amassou
E a felicidade é manteiga
Fora do prazo.

Há quem parta como os dias
Um pouco de cada vez.

E eu nao posso por a esperança
Na folha grande do jornal,
Esperar dele boas notícias
Para o lado escuro da rua.

E nao posso por a esperança
Nas maos do cardeal, coitado,
Ainda agora lá chegou
E já viveu quase todas as vidas
Que o Evangelho lhe ditou.

E nao posso por a esperança
Nos abraços que eram eras e horas
E agora pedem desculpa
“Mas há uma vida ridícula
De jovem empresário de sucesso
Para (sobre)viver”.

E nao posso por a esperança
Nos livros, nos cadernos,
Nas folhas soltas presas ao céu,
Como os pássaros.

Há quem parta os dias
Como quem parte um copo,
Só para que o vinho se espalhe
Pelo chao, em pequenas veias,
Para ver até onde vao os rios,
Até quando vao os rios
Ter ao mar.

E eu nao posso por a esperança
Nas colheitas, nos frutos,
Nos cereais, na comida ultracongelada,
Que a chuva que tem caído, este ano,
É seca como só o gelo
Sabe ser.

N?o há quem parta comigo,
Ver como é a vida nos filmes,
Preto no branco
Ou verde no azul,
Se as estrelas caem por vontade própria
Ou porque o adesivo que as prende ao céu
Perde a força.
-“Que força é essa?”
-Desculpa, nunca fui bom com cedilhas e lol’s
Eu é mais pontos de interrogaç?o
E reticencias, se nao te importas…

Esperam por mim no aeroporto,
Por detrás de um balcao,
Uma menina com pasta nos dentes
E meias de vidro
(Duvido que sejam de vidro,
Cá para mim, s?o de acrílico).

Uma menina de vidro
Com dois bilhetes,
As malas estao feitas,
Só falta enche-las de espaço,
Mas sempre que vou tirar o carro da garagem,
A chave parte-se na igniçao.

Damon at 3:19 PM


cançao do momento: a naifa, «rapaz a arder»

há bocado lembrei-me de que, afinal, podemos mudar o mundo. por o mar por cima de nós e correr pelo céu em busca de uma nuvem onde nos possamos esconder durante horas. basta um pouco de treino e um dia havemos de lá chegar. sim, eu ainda acredito que um dia serei capaz de fazer o pino.

Damon at 3:26 AM

Domingo, Abril 17, 2005



Pode ser uma mania idiota mas sempre achei piada a reparar nas express?es dos jogadores de futebol nas fotografias que vem nos jornais. No esforço pelo resultado que mais lhes convem, os jogadores, neste caso, o Costinha e o Luisao, revelam-se autenticos mr. fotogenia...


Damon at 2:50 PM

Quinta-feira, Abril 14, 2005

As horas mortas

Horas que morrem,
Atropeladas por autocarros
Desgovernados,
Cruéis e ávidos de tempo,
N?o as vejo
E atravesso sempre
Na passadeira.

As horas moribundas,
Gordurosas,
Transpiradas pelo excesso
De exposiç?o ao sol,
Acenando, a custo,
Os ponteiros desiguais,
Um para cada lado.

Horas que morrem
E que matam
Porque d?o que pensar
E sobretudo
Porque d?o tempo para pensar.
Horas cruéis!

N?o tenho tempo
Para ver as horas
Que morrem,
Deixo-as morrer
Numa eutanásia cobarde
De quem tem medo
De ter tempo.

Damon at 12:52 PM

Terça-feira, Abril 12, 2005

cançao do momento: beth gibbons and rustin' man, «romance».

Vem brincar comigo
Para o jardim,
Construir utopias
Com baldes de areia e água.

Apetecia-me. Muito.
E acho que pior do que ter saudades de alguém é ter saudades de alguém que achamos que nao tem saudades nossas.

Damon at 9:13 PM


cançao do momento: morrissey, «sister, i'm a poet»

Acordo. Mais cedo do que posso quando posso acordar tarde. Abro os olhos. Suspiro. Nao posso pensar no que me leva a suspirar. Sinto uma batida mais forte. Nao posso pensar no motivo da aceleraçao. Por fim, cedo. Entro na viagem da paranóia de ideias. Misturo imagens, cenários, hipóteses remotas e pessoas com argumentos que “nao posso esquecer de anotar qualquer dia”. Fico assim uns bons minutos. Sendo que é um conjunto determinado de minutos que forma os meses, os anos, os séculos… Finalmente, depois de suficientemente sozinho, depois de desiludido q.b., levanto-me a custo porque me apetece adormecer. Apetece-se que seja o gajo sorridente que é o subconsciente a gerir os acontecimentos. Levanto-me. Música on. Nada de muito mexido. Entro na paranóia dos factos incontornáveis e indesmentíveis.

"that's 'cause I'm a... Sister, I'm a... all over this town"
Morrissey.

Damon at 11:31 AM

Domingo, Abril 10, 2005

cançao do momento: josh rouse, «1972».

durante estes primeiros tempos de estágio, tenho pensado bastante e só tenho pena de nao ter oportunidade para anotar a maior parte dessas reflex?es. No entanto, durante um fim-de-semana carregadinho de informaç?o para trabalhar, arranjei uns modestos cinco minutos para vir até cá escrever uma coisa em que tenho andado a pensar.

Ao longo deste tempo, tenho-me surpreendido com a facilidade em comunicar, de um modo geral, com as pessoas ligadas a cultura do nosso país, em particular, a musica e recentemente, as artes. Há uma ingenuidade positiva nos nossos artistas, uma espécie de consciencia de que o país é pequeno e nao tem espaço para narizes demasiado erguidos ao céu. Durante esta semana que passou, dei por mim a pensar que, por vezes, apetece-me mais ser amigo dos meus entrevistados do que o jornalista que lhes faz perguntas. Nesta profissao, persegue-se demasiado a polémica, nao se valorizam as conversas descontraídas, sem o intuito de procurar desesperadamente os podres inevitáveis de cada um. A essas conversas chamam eles «fait-divers»... Excepç?o feita a um ou outro caso, conheci esta semana várias pessoas muito simpáticas, que trabalham como eu para serem reconhecidas naquilo que fazem. Nao desejei nunca denegrir-lhes a imagem ou encurralá-los num beco sem saída. Quis conversar com eles, enquanto se bebe um café, saber as suas histórias. Essa é, sem dúvida, uma das raz?es da minha luta pelo jornalismo cultural. Com o devido respeito: qual congresso do PSD, qual carapuça!...

Damon at 12:11 AM

Domingo, Abril 03, 2005

cançao do momento: cousteau, «mesmer»

morreu Karol Wojtyla

talvez por nao ser católico, por duvidar de muitas das intençoes da igreja, prefiro recordá-lo como Karol Wojtyla, o homem, mais do que como Joao Paulo II, o papa. Karol viveu os extremos irm?os do nazismo e do comunismo soviético na sua Polónia natal. Era um homem inteligente e, indubitavelmente, carregado de boas intençoes. Discordei dele em grande parte das suas opinioes mas isso nao me impede de lhe reconhecer o carisma e a importância, nao porque morreu (a tradiçao manda elogiar sempre quem morre e isso ve-se nos nossos políticos, de cada vez que morre alguém importante) mas porque tentou fazer uma coisa que até entao nenhum dos seus antecessores tinha feito de uma forma tao clara: unir povos separados pela religiao. Para o senhor que se seguir no cargo mais importante da igreja católica, a tarefa nao vai ser fácil.

Damon at 5:06 PM

Quarta-feira, Março 30, 2005

...portanto, caro senhor, a fim de definirmos estratégias para o nosso grupo empresarial, mostro-me desde já disponível para o diálogo. Dessa maneira, levarei comigo um dossier contendo os tópicos abaixo-referidos devidamente acompanhados de gráficos e de uma apresentaçao em powerpoint com a receita para ser feliz.

Tópicos de discussao:

-o meu ensaio pouco científico acerca de lares da terceira idade e hospícios;
-mais um reencontro com o ausente;
-a respiraç?o dos batráquios (o tema do costume...);
-ideias que possam surgir no calor do momento...

Naturalmente, estou aberto a sugestao de outros tópicos de discussao pela parte de V. Exa.

Sendo assim, a reuniao poderá ficar marcada para a sede da nossa empresa, pelas 21h30.

Sem mais de momento,

A minha versao adulta.

Damon at 8:25 AM

Sábado, Março 26, 2005


cançao do momento: jeff buckley, «hallelujah»

a produtividade é relativa. nao gosto de, mesmo estando de férias, me sentir inútil. gosto de ter liberdade para escolher o que me apetece fazer, isso sim. mas temo que nao ande a fazer grande coisa.

ontem, de tarde, fui até a foz. eu e eles: o caderno, o livro do Zimler, a máquina fotográfica e a novidade «pendisk-leitor-de-mp3». estivemos juntos sentados na esplanada, a fazer de contas que sabiamos passar uma tarde descansada, sem fazer grande coisa a nao ser olhar o mar. mas é mentira. já passaram esses dias em que eu conseguia ver nas ondas «os segredos contados em sil?ncio». nao que já nao sonhe, seria preciso nao me conhecer para achar que eu já nao sonho... mas reconheço que sao mais ténues as suas apariçoes.

mas a tarde de ontem acabou por ser útil. nao li muito, ando sem paciencia para ler, nao demoro muito a desconcentrar-me e o livro até é muito bom. mas escrevi dois poemas, um dos quais deixo por aqui como prova. também tirei muitas fotografias. uma das minhas preferidas está lá em cima, como uma espécie de ilustraçao para este post. e caminhei. é curioso como eu ando muito mais se estiver a ouvir música. desde que o meu discman inseparável decidiu que era tempo para parar de andar as voltas, que eu andava muito menos. agora, desde que comprei o pequeno objecto a que o meu pai chama «o supositório» (sem comentários... é um leitor de mp3...) que tenho mais vontade de caminhar.

e é curioso. tenho tido tempo. nao me posso habituar, senao...

aqui fica:

Dois cálices de vinho do Porto

Dois cálices de vinho do Porto, vazios…
No seu tempo – quando estavam cheios,
Quentes, fortes, corados de rubro – fizeram-se
Beber por duas bocas perfeitas.

O vermelho do copo, entontecido
Pelo vermelho da carne húmida,
Ri com os lábios, fala com os lábios,
Numa eternidade pequena de amena cavaqueira.

As duas bocas, quando se riem,
Deixam prever o branco dos dentes
E o verde da esperança de que um fim de tarde
Destes se prolongasse até a manha do dia seguinte.

As duas bocas e os muitos dentes,
Que nao me dei ao trabalho de contar,
Pertencem a duas meninas engraçadas,
Tao portuguesas como o vinho que escorrega
Dos cálices, entre o nórdico e o mulato,
Filhas de vikings e de mouros,
Com os cabelos da cor da madeira
Que fez as promíscuas naus
Que um dia fizeram do mundo seu filho.

Vinte e cinco anos, a mais nova.
A do lado de cá.
Vai contando a outra,
Vinte e sete anos,
Os primeiros dias do emprego.
Ainda se entusiasma
Com os tiques do chefe,
A cor das meias da secretária
Ou as qualidades da fotocopiadora.

Sao irmas,
Daquelas que se fazem ao longo da vida,
Daquelas que nascem de outras m?es e de outros pais.
A mais velha,
A do lado de lá,
Responde muito com os olhos,
Enquanto os lábios se aproximam
Inevitavelmente
Do gosto das uvas mornas.

A intervalos, olham o mar
E imaginam o lado de lá.
A mais nova cobre-se com um casaco de malha,
Sentindo espreitar do céu
Algum olho malandro para o seu decote profundo.

A outra,
A mais velha,
Olha para o relógio,
Um Swatch, como nao podia deixar de ser,
Para alguém tao prático,
E depois olha para o cálice que se esvai
Demasiado depressa.

Chega o empregado e pergunta-me:
-Sao seus estes cálices?
-Nao, já aí estavam quando cheguei.
-Oh, pá, as gajas saíram sem pagar!
-Deixe estar que eu assumo a responsabilidade.
Mas nao sao meus, garanto-lhe.
Aliás, para que quereria eu dois cálices
Se falo sempre na primeira pessoa do singular?


Damon at 1:52 AM

Quinta-feira, Março 17, 2005

Sinto-me cansado, vazio. Sinto um espaço sem sombra na hora de conversar, de brincar com as palavras ou levar a conversa muito a sério. É verdade que, praticamente numa semana, fiquei com os contactos de alguns dos mais importantes nomes da música em Portugal. Entrevistei o JP Sim?es, dos Belle Chase Hotel. Falei com o Manuel Cruz, dos Ornatos Violeta (que, por falar nisso, devia ter entrevistado hoje de tarde, como estava já combinado até ele ter o telemóvel desligado...). Amanh? vou entrevistar o Carlos T?. Daqui a pouco, vou ligar ao Adolfo Luxúria Canibal para o entrevistar. No entanto, esta semana tem sido estranha. Para lá do repentino calor, com o seu qu? (ou o seu erre...) de ridículo; para lá do facto do servidor estar em baixo há quase uma semana e portanto o JPN n?o existir... Foram criados hábitos e de repente... Tenho saudades. Sem complexos.

Damon at 5:15 PM

Sexta-feira, Março 11, 2005

Há pessoas que, apesar de alguns dias rabugentos, s?o uma grande companhia.

Damon at 9:35 PM

Quarta-feira, Março 09, 2005

Em busca de tempo. Durante as últimas semanas cheguei a trabalhar 18 horas por dia, repartidas entre o estágio e a funç?o semi-definida de voluntário-relaç?es-públicas no Fantasporto. Algumas situaç?es cómicas, algumas chatices. Conheci pessoas interessantes, outras mais ou menos. E parece cada vez mais difícil escrever posts com mais de dez linhas...

Damon at 6:05 PM

Domingo, Fevereiro 27, 2005

cançao do momento: leonard cohen, «suzanne»

acabei de chegar. abri e porta e dei de caras com uma ausencia. nao estranhei.
olhei uma última vez lá para fora. vi se estava tudo no sítio.
se todas as árvores se mantinham de pé. se todas as pedras se mantinham constituídas em edifícios.
apaguei a luz. virei as costas. fechei a porta. tranquei-a.
entrei no corredor frio. continuei. conformei-me.
acredito que a ausencia seja apenas um espaço em branco, a espera de ser preenchido.

Damon at 2:50 AM

Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

disco do momento: belle and sebastian, «storytelling»

esta noite, sinto-me só.
e sem vontade de importunar a vida dos que me sao naturalmente próximos.
consciente de que também eles t?m uma vida a viver com as respectivas companhias.
ou nao.
há pessoas que gostam de estar sozinhas. que precisam.
eu ?s vezes também preciso de estar sozinho.
mas esta noite nao.
e daqui a pouco até vou sair de casa.
para um bar provavelmente cheio de gente.
para ter uma reuniao e discutir infinitamente assuntos com fim ? vista.
e vou sentir-me só.
nao sei porqu? as pessoas acham-me com cara de quem gosta de estar só.
e ?s vezes até gosto.
?s vezes, nao.
muitas vezes, nao.
esta noite, nao.

Damon at 10:40 PM

Domingo, Fevereiro 20, 2005

cançao do momento: terrorvision, «free»

poucas vezes regresso a minha antiga escola primária. Depende da duraç?o dos mandatos políticos e dos caprichos dos Presidentes. Hoje, por ocasiao de mais umas eleiçoes, lá fui eu, pela rua abaixo, percorrendo o caminho que, noutro tempo, de mochila as costas, me levava a uma actividade que, na maioria das vezes, me dava prazer. Foi curioso, no meu último ano como estudante, regressar ao sítio onde o fui pela primeira vez (se exceptuarmos a pré-primária). Nunca me calha a minha antiga sala, tenho pena, gostava de ver como está, se as mesas ainda s?o as mesmas... No entanto, ao subir as queixosas escadas de madeira, hipocondríacas como sempre, pareceu-me ouvir as mesmas queixas, os mesmos lamentos para n?o serem levados demasiado a sério: «estas crianças n?o me poupam os degraus, sobem-nos e descem-nos demasiado depressa, com as botas cheias da lama do recreio».

votei em consciencia, olhando com cuidado para o quadrado onde punha o «x». Olhei com desdém para um partido que usa um facho (fascio?) como simbolo e sorri, certo da sua inevitável derrota, uma chuva que extermine (acho que esta palavra lhes diz algo...) a chama da sua incendiária e disparatada existencia. Viva a Democracia!

e vim para casa, estudar. Pelo caminho, ainda compus com palavras uma canç?o que, nunca se sabe, pode vir a existir...

Damon at 7:16 PM

Terça-feira, Fevereiro 15, 2005


Por ter dito asneiras...


Damon at 5:27 PM




Estava triste e saí para tirar fotografias...


Damon at 5:27 PM

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005


Existem inúmeras cançoes de autores mais ou menos conhecidos, mais ou menos recomendáveis, que falam de postais recebidos de parte longínqua ou nao, de alguém mais ou menos próximo que, de momento, se encontra relativamente longe. Também há a versao «referir-destinatário-do-postal», como na «postcard to Rosie», dos Divine Comedy. Por outro lado, o Tom Waits evoluiu, com a chegada do século XX (toda a gente sabe que ele é muito mais velho do que isso...) para o uso do telefone quando escreveu a «telephone call from Istanbul».

Nao conheço nenhuma cançao chamada «postcard from Tampere». E, na verdade, nao sendo este bem o caso, já que o postal que tenho na mao até tem o carimbo de Helsínquia, acho que «postcard from Tampere» dava um excelente título para uma cançao. Podia falar de frio e de neve. Podia contar a historia de um senhor que numa estranha bicicleta de tres rodas (sim, eu sei que já nao seria bicicleta) atravessasse a cidade coberta de neve, distribuindo sacos cheios de novidades, de notícias do resto do mundo, talvez dos países quentes, como o nosso. O senhor, de sorriso no rosto, boné bem enfiado na cabeça para nao deixar entrar o frio nem sair as ideias, seguraria com as luvas recheadas da experiencia das suas maos, os sacos que também poderiam conter pao quentinho ou a matéria com que ele se faz. Ou cobertores para aconchegar do Inverno.

Pouco sei de Tampere. E mesmo de Helsínquia, nao posso dizer muito. Mas talvez venha a escrever uma cançao sobre isso. Conta-me mais coisas!


Damon at 1:09 PM

Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

cançao do momento: pulp, «trees».

tenho a minha frente um papel com nomes de orgaos de comunicaçao social. É suposto escolher aqueles que me dao mais jeito ou simplesmente os que prefiro. Tenho que entregar este papel dentro de poucos dias. E esperar. Nele reside uma aparencia de futuro. Mas é mesmo só isso. Um futuro efémero. Porque a grande fatia de futuro que a vida ainda há-de comer, essa é ainda uma mistura de ingredientes incertos. Mas nao faz mal. O futuro que esta folha fotocopiada representa, ainda que efémero, curto, pode significar aquilo que se retira sempre de positivo em tudo o que nos acontece: experiencia. Tenho as ideias semi-definidas. Nao vou pensar na minha média baixa nem na média alta dos outros. Vou-me concentrar naquilo que gostava mais de fazer, tendo consciencia de que dificilmente fico lá depois desta etapa. E vou acreditar que seja o que for vai ser bom.

Damon at 1:31 AM

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

cançao do momento: embrace, «ashes».

Porque será que há pessoas que semostram chateadas, quase indignadas, quando nos mostramos preocupados com elas? Será pelo medo de assumir que, afinal de contas, precisamos todos uns dos outros?

Ainda há quem pense que podia viver sozinho no mundo... Pensamento ingénuo e pouco inteligente... Há tantas vantagens em apoiarmo-nos nas pessoas que sabemos incapazes de nos deixar cair...

Damon at 7:44 PM

Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

faz hoje dois anos que eu me lembrei de que talvez fosse boa ideia escrever umas coisas no computador e publicá-las na internet, juntando-me assim aos «veteranos» borrasdecafé, speechless e apatia...

faz hoje dois anos que eu vim para a praia sentar-me a ver o mar.

Damon at 8:59 PM

Sábado, Janeiro 29, 2005

porque é que o homem nao pode ser como a pétala de uma orquídea?
porque é que temos sempre inevitavelmente que ser a casca rugosa de um tronco, correndo o risco de, caso contrário, ver posta em causa a nossa masculinidade?

Damon at 1:23 AM

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

cançao do momento: suede, «picnic by the motorway»

«Amanha é uma vida inteira»...
21 anos de aulas
em 24 anos de existencia...

Como é que eu nao hei-de estar assim?

Damon at 8:58 PM

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

cançao do momento: matinée, «a seguir neste cinema»

Ainda bem que foi só um sonho. Ainda bem que amanha nao começa a última semana de um ritual aparentemente monótono, irritante, fútil… a última semana de um ritual que apesar da apar?ncia, engordou todos os sorrisos que consegui tirar do bolso, que os encheu como baloes, com o ar fundamental nas nossas vidas. Ainda bem que amanha nao começa o fim de todo o conforto, da certeza de optar por um dos dois lados: a janela para a rua ou a janela para o mais profundo de todos os desejos. Amanha nao começa o fim dos «Bons Dias» cozidos com sono no forno de um padeiro madrugador, as matinais promessas de cumplicidade e compreensao.

Ainda bem que amanha nao é o princípio do silencio, o fade out que avança devagarinho, pousando cuidadosamente os carapins no chao, subtil como um prenúncio, nao querendo ferir mas acabando por explodir num chafariz de emoçoes. Exactamente. Como um chafariz…
Ainda bem que… Apesar das noites mal-lavadas, construídas ao frio, entre um jantar e uma festa mascarada de filme de terror piegas; apesar das frustraçoes, das ilusoes perdidas em abraços recusados; das legendas erradas para as palavras certas; dos dias em que a presença era uma ausencia de vontade…

Sinto-me bem, obrigado. Nao, nao quero um copo de água. Está tudo bem agora que acordei. Agora que os meus braços se enrolam nas palavras e se seguram ao sorriso para nao cair. Eu estou bem. Estou bem porque foi só um sonho. Nao «O Sonho», apenas um sonho efémero, chateado por ter que ir embora a boleia da madrugada. Está tudo bem. Nao deixemos o café arrefecer. Nem tiremos as ruas a luz da nossa passagem. Está tudo normal.

Ainda bem, Homem Grande. Ainda bem que esta nao é a última daquelas noites de Domingo. Este pólen do Inverno… Já passou.

Damon at 1:34 AM

Domingo, Janeiro 02, 2005

ian brown, «time is my everything».

e pronto...
já enviei o que tinha a enviar. agora é só ficar a espera que decidam o meu destino por mim. pelo menos dos meus últimos tr?s meses como estudante. sinto um ligeiro acelerar do ritmo cardíaco e muitas saudades antecipadas de pessoas com quem ainda vou estar várias vezes. a quebra de alguns hábitos aparentemente banais está-me a dar cabo de todo o optimismo que uma situaç?o de estagiar no estrangeiro possa proporcionar. nao sao só tres meses. sao os ultimos como estudante...
mas eu vou.

Damon at 7:23 PM

Sexta-feira, Dezembro 31, 2004

O meu diário começa amanha

Frases batidas, as passas do Algarve ou de importaçao, nao importa, champagne ou champanhe, alguns segundos e… eis que tudo muda, olho para o lado e os sonhos realizam-se…
Nao me apetece ir a festas de serpentinas e muitos confetis, dançar sob influencia de um qualquer compositor borbulhento e alcoólico, como faz toda a gente que usa esta noite como mais uma altura para se afogar dentro do copo, o que é muito cule, muito tá-se bem… Provavelmente um filme no dvd, uma conversa agradável e muita reflex?o acerca do tempo que passou e daquele que está a porta, que sao basicamente os mesmos doze meses do costume.
Mas o próximo ano vai ser diferente. Muito diferente. Inevitável como o Sonho. É por isso que o meu diário começa amanha. Dez anos depois de eu me ter armado aos cágados a reunir poemas num molho de folhas a que chamei livro. Dez anos depois de os Radiohead terem lançado o «The Bends», os Pulp, o «Different Class», os Blur o «The Great Escape» e os Oasis o «Morning Glory». Uma década depois de termos inventado uma «Nova Era» sem sabermos que havia uma rádio com esse nome (a preferida do meu barbeiro de entao).
Citando-me a mim próprio, «amanha é uma vida inteira».
Citando o Grande Neil Hannon, «Tonight we fly».
Citando o pobo, «Xaudinha é o que é prexijo!».
Citando Bruno Brasil, «Assim é que se quer!»
Citando O Estranho, «Pois, é isso!»
BOM ANO NOVO!

Damon at 11:30 PM

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004



FELIZ NATAL!


Damon at 7:38 PM

Sábado, Dezembro 11, 2004

cançao do momento: radiohead, «a punchup at a wedding»


Enquanto voava
Desfazendo nuvens,
Transformando-as em pó
Daquele que ajuda a combater o stress
E as tensoes altas,
Lembrava-me de todas as nuvens brancas
Que já serviram de moldura
Ao teu rosto.

Inevitavelmente,
Sentindo o céu mais perto,
Vendo-o limpo, mais azul
Do que a adolescencia
Vivida dentro de uma televisao,
Lembrei-me de ti
E de todos os céus
Que o teu sorriso foi capaz de limpar,
Em noites de tempestade.

E recusei-me a acreditar
Que nao viajava
Em direcçao ao teu abraço,
Que o meu aeroporto
Nao eras tu.

Disse ? hospedeira:
«Nao me aperte demasiado o cinto,
Quero flutuar,
Quero deixar-me levar
Até ao fundo mais azul do céu».

Foi só quando
O aviso sonoro se fez ouvir
Chamando os passageiros
Na sua voz incómoda de despertador,
Que eu percebi:
Já nao é preciso sonhar
Para voar.

Damon Durham.


Damon at 3:26 PM

Domingo, Dezembro 05, 2004

estou longe, a uns largos quilometros de distancia, onde os teclados nao tem acentos...
so quero dizer que se ha coisa em que sou um convencido, e em relacao aos meus amigos... sou mesmo um arrogante, acho mesmo que tenho os melhores amigos do mundo!

Damon at 6:47 PM

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

cançao do momento: the gift, «driving you slow»
frase do momento: «A FNAC é uma empresa diferente.»

ALERTA:

Agredidos por seguranças da FNAC

No dia 29 de Novembro de 2004, saía o novo álbum de uma das nossas bandas preferidas, The Gift. Por volta das 16h30, eu e o Joao, sem nada que fazer na faculdade, resolvemos dar uma volta e, porque nao?, passar pela loja da FNAC, na Rua de Sta.Catarina, no Porto, para escutar os novos sons da banda de Alcobaça e mais uma vez perdermo-nos no emaranhado de produtos culturais que aparentemente elevam o nível daquela rede de lojas. Dirigimo-nos ao balcao, onde pedimos a um funcionário para ouvir o disco que ele introduziu no leitor. Ouvimos e a certa altura tivemos que sair por razoes de tempo. Deixámos a caixa pousada no balcao e, obviamente, o cd no leitor. Foi nesse momento que se dirigiram a nós dois amáveis funcionários da empresa de segurança que a FNAC contratou para nos proteger dos larápios e proteger os sagrados bens culturais das maos hábeis dos gatunos – a S.O.V. O alarme soara, portanto fomos gentilmente conduzidos, por entre os consumidores de cultura, até um local longe dos olhares dos transeuntes. Estávamos num espaço pequeno: eu, o Joao, o Senhor Segurança Pedro Coelho e o – por este último intitulado – Chefe de Segurança da FNAC.
-Dá cá os cd’s! – ordenou o Chefe da Segurança.
-Eu nao tenho nenhum cd… – respondi, sem perceber bem o que se passava.
-Tira a roupa! – ordenou mais uma vez o Chefe da Segurança, num tom agressivo. O Senhor Segurança Pedro Coelho observava.
-Só o faço na presença de um agente da autoridade. – respondi.
De imediato as faces dos dois seguranças se encheram de raiva. O Líder disse:
-AI QUERES A POLÍCIA, É?
-Quero! – respondi, despindo o blusao que tinha vestido e atirando-o para o chao que, num lugar tao pequeno, acabou obviamente por atingir ligeiramente o Chefe da Segurança.
E pronto. O meu acto foi considerado uma agressao e de imediato senti os socos do Senhor Pedro Coelho no meu rosto. Ao mesmo tempo, o meu amigo Jo?o perguntava como era possível aquilo estar a acontecer. Fui atirado para um elevador de cargas pelo Senhor Pedro Coelho que me apertou o pescoço, empurrando-me contra a parede e prosseguindo a tarefa de me socar a cara. Eu continuei a dizer:
-Eu nao roubei cd nenhum!
-Isso agora nao interessa nada, se roubaste ou nao! Tu agrediste o meu chefe e vais pagar por isso! – foi a resposta do Senhor Pedro Coelho.
Fui levado para o quarto andar do edifício, para uma sala frequentada por seguranças e funcionários da FNAC, com uma entrada para um armazém. Ao passar por um dos funcionários, empurrado pelo Senhor Pedro Coelho, pedi:
-Chame a Polícia, por favor.
Foi-me respondido:
-Eu é que te f!dia, se pudesse!
O Senhor Pedro Coelho, segurança contratado pela FNAC ? empresa oportunamente chamada S.O.V. sentou-me num sofá e prosseguiu com os socos. Olhou-me nos olhos e disse:
-Fixa bem a minha cara, eu até posso perder o emprego mas hei-de te apanhar no Porto e matar-te!
E deu-me mais alguns socos. Entretanto trouxeram o meu amigo Joao que também havia sido agredido na cara pelo Chefe da Segurança, quando tentara chamar a atençao de duas funcionárias da FNAC para a situaçao, fora completamente ignorado e tentara entao abrir a porta (passível de ser aberta apenas de forma electrónica) para chamar a atençao dos clientes que passavam na parte comercial. Sem sucesso.
O meu amigo chamou entao a Polícia através do 112. A Polícia já tinha sido chamada pelos seguranças para nos acusar de furto. Ficámos ? espera, rigorosamente vigiados.
Durante o tempo todo em que fui agredido, passaram pelo local funcionários da FNAC, alguns riram-se, outros ignoraram, alguns espreitavam do armazém em busca de diversao.
A Polícia chegou e foi convidada pelo Chefe da Segurança, de mao no ombro do agente da autoridade, a entrar no gabinete e só depois fomos chamados. Devidamente revistados, nao encontraram absolutamente indício nenhum de furto.
-A acusaçao de furto está completamente posta de parte. – disse um dos polícias.
Prosseguiu:
-Podemos deixar as coisas como estao, ou…
-Nao, nao, eu quero apresentar queixa. – respondi de pronto.
E pronto. Depois, demos o nosso depoimento aos agentes da PSP que nao anotaram quase nada e que nos aconselharam a apresentar queixa apenas tres dias depois, ou seja, quando as marcas da agressao estivessem já muito menos visíveis. Nao seguimos o conselho, fomos ao hospital e a outra esquadra onde apresentámos queixa.

No dia seguinte, em resposta a RTP, a FNAC negou que se tivesse passado algum destes factos. Nao falou em averiguaçoes, nem inquéritos internos, nao me ouviu nem ao meu amigo. Ouviu os seguranças e concluiu: n?o houve nada.

Tenho hematomas na cabeça, na face, marcas de unhas no pescoço, o lábio ferido, dói-me as costas e o maxilar. Nunca durante o tempo todo respondemos a alguma das agressoes.

As agressoes passaram-se no dia 28 de Novembro de 2004, data de lançamento do «AM FM», por volta das 17h15. Obviamente que o álbum dos Gift entra na história por pura coincidencia. Porque dois jovens apreciadores de música, ansiosos por ouvirem o novo álbum de uma das suas bandas preferidas, acabaram por ser violentamente agredidos por um crime que – de forma comprovada pela Polícia – nao cometeram. Acho que é bom que se conheçam estes casos. Na esquadra, os polícias admitiram que nao é a primeira nem a segunda vez que um caso semelhante acontece naquela loja da FNAC. Peço a vossa compreensao e apoio, acima de tudo para aqueles que foram obrigados a ficar calados por nao terem os meios ao seu alcance. Acima de tudo, em nome de todos aqueles que possam vir a passar pelo mesmo.

Obrigado.

Damon at 1:18 AM

Domingo, Novembro 28, 2004

cançao do momento: scott walker, «the amorous humphrey plugg»

sou feito de muita matéria, neste momento.

sou feito de incerteza. feito de dúvida, num jogo de ping-pong entre a emoçao e a razao. parte de mim percebe que o boletim meteorológico prev? uma boa oportunidade de mudar o rumo natural de um estudante cuja média nao é brilhante, nem pouco mais ou menos. a outra parte de mim nao percebe nada dessas coisas e quer viver próxima das pessoas de quem gosta, numa rotina de conversas e cafés que deixam um bom sabor na boca. mesmo que eu fique, a vida nao será assim. se o combóio aparecer, eu vou. mas, caramba, tantas saudades por antecipaçao...

sou feito de tristeza. pela comprovaçao de que é mesmo assim. de que tinha razao e dentro em breve seremos amigos-de-tomar-café-de-longe-a-longe. nao tem sido nada positivo este ano, nao senhor. nalgumas coisas, isso foi inevitável; noutras nao.

sou feito de preguiça. hoje nao me apeteceu mesmo nada sair de casa. lá fora, a terra matava a sede depois de alguns agradáveis dias de jejum. li um livro. vi programas de puro entretenimento, daqueles que os «dr's» só veem para poder criticar (pelo menos, é o que eles argumentam...) e tratei das minhas fotos, que a grande exposiçao está quase a chegar... e acho que amanha veio cedo de mais...

sou feito de revolta. por ver que o slb vai deixar escapar uma oportunidade tao flagrante de ser campeao, mais uma vez. e que isso só vai acontecer por falta de empenho.

sou feito de espanto (ou talvez nao). por ver que o pcp elegeu como líder um dos seus elementos mais obsoletos, um pedaço de artilharia do século XIX, duro mas tao enferrujado... este homem com um nome que os americanos gritam quando saltam de para-quedas foi a vergonha das eleiçoes presidenciais que opuseram cavaco e sampaio, existindo apenas para denegrir a imagem do primeiro, sem qualquer dignidade. quem me conhece sabe que nao tenho partido. acredito que em democracia, é bom que a esquerda e a direita se mantenham em forma. ainda bem que, com todos os defeitos que possa ter, existe o be.

sou feito de falta de sono. como vem sendo costume de domingo para segunda...

etc.

Damon at 11:31 PM

Terça-feira, Novembro 23, 2004

cançao do momento: dodgy, «so let me go far»


As vezes oiço-vos falar do ano que vem, essa criatura mítica das profundezas do tempo, filha da incerteza e do medo. Nao gosto assim tanto de surpresas. Gosto de saber o que se passa e o que se vai passar. Tal como em relaçao aos E.T.'s, também do próximo ano nao sabemos bem o que esperar: uma recepçao calorosa e amigável ou uma guerra de ricochetes...


Damon at 5:02 PM

Quinta-feira, Novembro 18, 2004

cançao do momento: yann tiersen, «la valse d'Amélie»

Em Inglaterra, nao há só hooligans e gente snob. Nao existem só os Oasis e o Elton John ou o Roy Keane e o Vinnie Jones... Existem também muito boas pessoas, humanas, nao tao frias como as querem fazer parecer. Existem pessoas sem peneiras, apesar dos cargos importantes que ocupam, apesar dos prémios que receberam e da importancia da entidade patronal... Nao quero dizer nomes, mas é impressionante a boa vontade de algumas pessoas para ajudar estranhos (para além de ti...). A sério, parem com essa treta de achar que os ingleses se acham todos superiores e só sabem beber cerveja e andar a pancada nas imediaçoes de um estádio... Hoje foi só mais uma prova...

Damon at 7:36 PM

Terça-feira, Novembro 09, 2004


A fechadura. O regresso as imagens, graças ao Flicker...


Damon at 6:29 PM


cançao do momento: david bowie, «the bewlay brothers»

Sou um saudosista assumido. Considero que o passado é tudo o que temos garantido, já que o presente já foi e o futuro ainda vai ser. É por isso que eu gosto tanto de fotografia, de pintura, de literatura, de música; todas elas sao registos do passado, mais ou menos longínquo, mais ou menos fiel.

É por isso que há doze anos faltava um dia para eu te dar os Parabéns pela primeira vez...

Damon at 5:35 PM

Segunda-feira, Novembro 08, 2004

cançao do momento: cast, «walkaway»

hoje foi um bom dia. um dia bem-passado, vivido aos bocadinhos. é que, como eu te disse, aproveitámos. é que, daqui por um ano, nao nos vai certamente ser possível faltar as aulas para passear pelo Porto, almoçar «pelo caminho» para depois nos deixarmos ficar a conversar... obrigado pela excelente companhia.

Damon at 11:45 PM


cançao do momento: david bowie, «warszawa»

Entao, estou aqui outra vez.
Demorei mais de uma semana a decidir que tinha finalmente alguma coisa para escrever no meu staringatthesea. Vinha cá todos os dias - nao acreditam?. Ficava a olhar para esta caixa branca mas nada me surgia que pudesse ser digno desta e-morada. Talvez e-namorada(?)
Entretanto, recebi aplausos, momento de uma alegria imensa, principalmente porque nunca me levei demasiado a sério e esforcei-me mais do que para um trabalho. Fomos muito bem-acolhidos e mais do que no aplauso final, foi nas vossas expressoes atentas, de um humano enternecedor, que encontrei vontade de continuar, enfrentar tempestades que parecem jogos infantis e que s?o, por isso mesmo, duplamente perigosas.
Entretanto, choveu um bocado. Na terça-feira, tive um dia mau, daqueles que nao sabemos explicar, ou melhor, sabemos (sim, B.B., sabemos sempre...) mas nao queremos ou a censura que nos habita risca com o seu lápis azul as frases proibidas. Simplesmente acordei mal-disposto, longe de me sentir realizado e ainda mais longe de me sentir alguém. Apetecia-me conversar. Apenas isso.
Entretanto, os dias sumiram-se e o sol apareceu e desapareceu mas esta noite, ainda consigo ver estrelas.
Espero que a semana seja boa apesar do Bush ser Presidente do mundo...

Damon at 1:34 AM

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

cançao do momento: ian brown, «f.e.a.r.»
frase do momento: «fantastic expectations, amazing revelations»

amanha começa a Matinée. amanha começar-se-á a perceber A vida depois de Durham Road. amanha subo ao palco, agarro no microfone e desato a contar sentimentos. amanha, vou a correr até a Maia. Outra vez. De outra maneira. Amanha vou ser talvez Participativo outra vez. Vens a correr para me ver? Sejam benvindos...

Damon at 9:32 PM

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

cançao do momento: prefab sprout, «when love breaks down»
frase do momento: «absence makes your heart lose weight»

Pedra moída

Está um vento
Parecido com o teu
Lá fora.

Infinita poeira,
Pedra moída
Enche-me os olhos
De uma cegueira
Que se parece
Contigo.

Amanha,
Espalharei temporais,
Espelharei no mar
O fogo de artifício
Dos relampagos.

Cuspirei fogo,
Despenharei no mar
Os barcos piratas
E os navios de guerra
E decidirei depois
A sorte dos generais.

Cai uma chuva
Miudinha como tu
Lá fora.

Ácido de oxigénio,
É água das pedras
Aquilo que chove,
O segredo
Está na paciencia
Com que se espera
Que os castelos se rendam.

E o granito se transforme
Em pedra moída,
Infinita poeira.

E a poeira se transforme
Em pedra moída,
Granito para fortalezas.

Amanha,
O púlpito será
A trincheira,
Contarei segredos
Que encherao de incertezas
Os coraçoes eruditos
E os tablóides.

Tento aprender
A cantar
Contigo
As coisas feias.

A fazer
Da poeira
Pedra moída,
Da pedra moída,
Castelos
De cartas
Que eu gostaria
De enviar,
Um dia.

Para enchermos
De coisas simples
As tardes de Domingo,
Talvez comer castanhas
Na Foz.

Amanha
Subo ao palco.

Damon Durham.

Damon at 2:30 AM

Terça-feira, Outubro 26, 2004

há um novo blog que vale a pena. depois do fotolog, a Marta Mendes está agora aqui, também.

Damon at 7:57 PM

Sábado, Outubro 23, 2004

cançao do momento: james, «surprise».
frase do momento: «e a recordaçao é o que está depois do que foi vivido, como se fosse a memória a construir o dia de amanh?.», Nuno Júdice.

Ir ao shopping, num fim-de-semana. Que chatice. Aquilo deve ter açúcar, que as formigas vao todas lá parar. E há quem faça as compras de Natal em Outubro. E há os casais que gostam de se passear de mao dada e mostar ao mundo capitalista que estao bem ou, pelo menos, parecem. Nao contava com uma surpresa tao boa quando decidi enfrentar o exercito dos sacos de plástico. Num cantinho, curiosamente deserto, do Norteshopping, há um espaço chamado Silo, onde se fazem exposiçoes. Foi lá que mais uma vez me apaixonei pela fotografia, em particular pela fotografia de seres humanos (e também de animais, como a Rita, uma cadela com um ar incrivelmente fotogénico e simpático). Foi lá que fiquei a conhecer Ouka Leele, uma fotógrafa espanhola de um incrível talento e, acima de tudo, sensibilidade. É pena que os livros de fotografia sejam tao caros... Esta exposiçao a preto e branco (que contrasta com trabalhos anteriores da artista, muito coloridos) vai estar no Norteshopping até 7 de Novembro.
Depois, lá fui comprar o livro sobre Gaudi ao quiosque do Público, para fazer um e-book, que os engenheiros dizem que já ninguém liga aos livros de papel (sem comentários) e pus-me na fila para tomar um café pelo qual valeu a pena esperar. É que, com o café, deram-me um daqueles pacotes de açúcar que me dizem qual é a melhor coisa do mundo.

Damon at 6:00 PM

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

cançao do momento: craig armstrong, «balcony scene (romeo and juliet)»

Exército dos homens que ainda lutam por um sonho

Sejamos invencíveis,
Impossíveis campeoes,
De testas transpiradas
E um olhar
Um pouco mais profundo.

Sejamos insolúveis,
Indecifráveis puzzles,
De olhos abertos
Mesmo que o mar
Os tenha enchido de sal.

Se engordámos,
Foi do ar que nos deram a beber,
Dos segredos que nos contaram,
Das fotografias que nos mostraram,
Polaroids perdidas, achados arqueológicos
Do tempo em que se fazia amor
No fundo do mar.

Peguemos em armas,
Se for preciso,
Ousemos erguer as vozes
Enrouquecidas pela maresia
E façamo-nos ao caminho
Que o inimigo espera por nós
E o sol nunca se poe para ele.

Sejamos fortes, castelos,
Palácios, solares, cabanas
Mas nunca muralhas,
Nunca navio encalhado
As portas da cidade proibida,
Se ainda nos resta vida
Ainda que nao a verdadeira,Vamos combater!

Damon Durham.

Damon at 7:41 PM

Domingo, Outubro 17, 2004

cançao do momento: david bowie, «little wonder».
frase do momento: amanha vou para a escola.

E é assim… Um dia, tinha que ser. Está a chegar. Amanha é o meu último primeiro dia de aulas. Depois de uns longos 18 anos a tentar aprender, o sacana do dia tinha que aparecer. E logo agora que nao me apetece nada começar a procurar emprego. Logo agora que está tudo em crise…
Um dia, tinha eu seis anos feitos há alguns meses, disseram-me para pegar na mochila (ainda vazia) e ir para a escola. Eu disse «está bem» e pus pés ao caminho. Ainda eram uns bons cinco minutos a pé! Pelo caminho, o vento fresco fazia-me esquecer que tinha nariz, enquanto esmagava inofensivas folhas secas e cumprimentava as pessoas que ainda se davam ao trabalho de vindimar. Quando cheguei a escola, fiquei a saber que tinha uma professora chamada Alegria, com um carro verde fluorescente… Mais tarde, fiquei a saber que a D. Alegria se divertia a dar cachaços nos alunos e a ameaçar-nos com uma cana que chegava ao fundo da sala. Na mesma carteira, uma daquelas antigas, com o banco preso a mesa que levantava, com sítio para cábulas, sentei-me com um colega e a mae dele. Esse colega viria a ser o meu melhor amigo durante alguns anos. Há pouco tempo, a luz dos holofotes durante um concerto de música gótica provocou-lhe uma cegueira parcial que faz com que ele só veja metade das pessoas que passam por ele na rua. Eu, por azar, ando sempre do lado das pessoas que ele n?o v?, coitado… O que vale é que ele ainda pergunta aos meus pais por mim…
Depois dessa primeira ida as aulas, num ápice, passei para a Preparatória da Maia, para a Secundária da Maia, para a Secundária do Cast?lo da Maia, para a Universidade do Minho e para a secçao de quarentena da Faculdade de Letras do Porto, que é como quem diz, o curso de Jornalismo.
E pronto, amanha, vou pegar na mochila, meter os livros lá para dentro (que saudades de ter livros que compensassem a mediocridade da maioria dos professores, agora já só tenho a mediocridade…), os cadernos, o lápis para as contas, a borracha, as duzentas canetas de cores e espessuras diferentes, e vou para a escola, conhecer novos colegas para brincar (alguns agora brincam comigo pelas costas, sem eu saber, é uma outra técnica, mais adulta…) e novos professores que também vao brincar comigo, particularmente com a minha cara.
E pronto, depois de amanha, já vou ser um homenzinho. E vou ter saudades.

Damon at 6:38 PM

Sábado, Outubro 16, 2004

cançao do momento: radiohead, «talk show host».

Nao há água cá em casa.
Um cano qualquer rebentou e agora caem pingos do tecto e da torneira… nada…
Deve ser por isso que estou chateado…
Ou porque a minha Internet é um valente excremento…
Ou porque me apetece ver um filme e a sala já está (muito) ocupada…
Ou porque quando me apeteceu ir passear o Jivago, começou a chover…
Ou porque me esqueci do caderno na empresa e agora nao posso fazer o alinhamento para o concerto…
Ou porque me apetece gravar cd’s e tenho o gravador avariado…
Ou porque as tardes agora sao exclusivas para outras actividades que nao aturar-me…
Ou porque estao quase a começar as aulas…
Ou porque vou ter que andar a tirar os acentos todos a este texto senao vai ficar tudo cheio de ~~~~…
Tens razao.
Tornei-me um tipo tao rezingao que até a brincar pareço chateado.
Mesmo quando estou bem-disposto, parece que ninguém nota.
Deve ser porque estou chateado por nao estar sempre assim, bem-disposto.
Sou um dos velhos dos marretas, nao é verdade?
O último poema que pus no blog, escrevi-o com um sorriso nos lábios, pleno de ironia.
Agora que o releio, parece que estava com uma neura quando o escrevi…
Tenho mil e uma desculpas para estar chateado mas sao isso mesmo, desculpas.
O pior é que as vezes já nao sei agir de outra forma.
Parece que desaprendi a brincar.
Acho que é a isso que se chama «ser adulto»…
Até nem estou chateado, neste momento…
A sério!
Olha, foi golo do Benfica no CM…
Há uns anos, era capaz de telefonar a um amigo para celebrar…
Que chatice! Empataram.

Damon at 4:49 PM


cançao do momento: fiona apple, «across the universe».

Mentiroso!

Eu sou um mentiroso
Daqueles que nao podem
Com uma galinha pelo pescoço.

Eu sou um mentiroso
Daqueles que viajam pelo espaço,
Nao perdem tempo
Em filas de autocarro,
Viajam mais do que o trânsito
E do que o comandante Cousteau.

Mas foi uma nave discreta
Que me deu boleia até aqui,
Foi uma nave pouco concreta
Que me deixou em frente ao mar,
Onde me sentei e fiquei
Eternamente a sonhar.

Por isso,
Eu sou um mentiroso
Daqueles que enganam a fome
Com um amargo de boca.

Sou um aldrabao.
Expiro pedaços de nada,
Papéis riscados
Onde alguns l?em poemas,
Mentirosos como eu,
Toda a gente sabe
Que os pais do défice
S?o os poetas.

Eu sou um mentiroso
Daqueles que viajam pelos passos
Que se desenham na areia
E é no Inverno que vao ? praia,
Há quem diga
Que buscam no horizonte
Novas mentiras para contar.

Há quem diga
Que esperam um barco com os olhos,
Um veleiro sem destino,
Que vem de um país inventado.

Eu sou tao mentiroso
Que ?s vezes acredito
Nas mentiras que conto.

Sou um mentiroso,
Mas nao sou tao prepotente
Como o Sr. Presidente.

Damon Durham.

Damon at 2:47 AM

Sábado, Outubro 09, 2004

canç?o do momento: manic street preachers, «the everlasting»

ontem foi um dia útil.
fiz arrumaç?es no quarto, portanto, senti-me responsável.
li um livro, portanto, senti-me intelectualmente activo.
fiz exercício físico, portanto, senti-me fisicamente activo.
fui ao teatro, portanto, senti-me culto.
escrevi um poema, portanto, senti-me só.

Damon at 9:32 PM

Sexta-feira, Outubro 08, 2004

cançao do momento: Rodrigo Le?o, «Rosa».

Em Santarém, regressei ao local de tantas horas bem passadas, tantos mimos e tantos motivos para que eu reconheça, mais de dez anos depois, a importância de ter bons avós e de conviver com eles.

Desci a Avenida dos Combatentes, deserta, como que a pedir o sorriso da minha avó com o neto numa m?o e a trela da Faia noutra; como que a pedir a saudaç?o e os dois dedos de conversa obrigatórios ? porta de cada casa, por trás da qual se escondia sempre uma amiga. No pátio ao pé da Escola Primária, um dia brinquei e joguei jogos inventados no momento, em noites quentes, ribatejanas como os campinos; noites ternas, ribatejanas como os meus avós. Arrisquei descer a rua de asfalto mal passado, pedras abandonadas, íngreme como a vida de alguns dos habitantes deste bairro. A meio, a casa onde devorei as melhores sopas da minha vida (incluindo a primeira que alguma vez comi); onde só se entrava para se ser bem-tratado; onde, logo ? chegada, se ouvia uma voz doce e experimentada de sorrir contra as tormentas que dizia «anda, Faia, vai lá mostrar as meias ao Carlinhos, anda…»; onde passei ser?es intermináveis a ouvir o riso da minha avó por causa da imagem pouco nítida da televis?o, por causa de qualquer coisa, pequena ou grande… Tantos anos depois, o sofá onde muitos desses sorrisos nasceram, pobre, triste, morre ao sol, abandonado ? porta. Lá dentro, n?o se v?em portas nem móveis, apenas um amontoado de objectos e pessoas misturadas como tralha. Disseram-me que a actual dona da casa é uma dessas pessoas com quem brinquei ao pé da Escola Primária. Pobre casa.

Bem sei que o Bairro de Santa Isabel, em Santarém, é um bairro social, maioritariamente habitado por gente pobre. Mas um dia, do meio da rua, ergueu-se um palácio onde viveu uma Rainha. Eu apenas quis reerguer esse palácio. Mas ele já n?o existe. A n?o ser nas minhas lágrimas que s?o sorrisos porque assim me ensinaste. A n?o ser na minha memória, como um livro que nunca se esquece. Que nunca se apaga. Eterno como o teu riso.

Damon at 12:29 AM

Quinta-feira, Setembro 30, 2004

canç?o do momento: radiohead, «2+2=5»

Vou dar uma curva. Vou dar uma volta ao bilhar grande. Vou-me pisgar. Pouco fiz estas férias e sinto um cansaço ridículo, aparentemente sem pés nem cabeça. Talvez ainda n?o seja tarde para rentabilizar as minhas - supostas - últimas férias como estudante. Vou por aí, tirar fotografias, escrever umas «freakalhadas» e ler uns livritos (pouco lhes toquei). Fugir do trânsito caótico. Fugir da rotina das rotundas e dos círculos viciosos viciados pelas vicissitudes da vida... Só uns diazitos, ok? Prometo escrever...

Damon at 5:27 PM

Terça-feira, Setembro 21, 2004

canç?o do momento: D.P. : «King of the hill»
frase do momento: «Sítio de Sonho»

É o dia certo para pôr aqui este poema já com algum tempo...

Eis a quest?o

Jogo ao quarto escuro
Com o meu corpo,
Escondo os olhos debaixo da cama
E o sorriso num sítio incerto,
Nunca me lembro de onde ele está,
Nunca me lembro,
Na hora de o ir buscar.
Talvez ele já n?o se lembre de mim.

Lá fora o Ver?o.
Os olhos procuram-no
Como os lábios procuram a água,
Quero nadar,
Quero voltar a nadar
Voltar a ser

Quero correr,
Quero ir a correr até ? Maia,
«Eu vou a correr para te ver outra vez»,
Eu corro muito quando sou feliz,
Talvez já n?o te lembres do quanto eu corro quando sou feliz,
Mas eu corro muito,
Voo muito,
Ando muito de bicicleta,
Jogo muito futebol,
Vivo muito quando sou feliz,
Talvez já n?o te lembres.

Havemos de voltar a voar,
Havemos de voltar a levantar voo,
Celebrar pequenas coisas
Aos saltos, inventando abraços
Daqueles que se improvisam no momento.
Mas já passa da Uma e Vinte,
Já passa da Uma e Vinte,
Os ponteiros agora arrastam-se,
As horas passam contrariadas
Mas n?o voltam para a Uma e Vinte,
Tudo mudou...

Mas eu quero correr,
Saltar, correr, saltar,
Andar de bicicleta,
Quero ir a correr até ? Maia,
Eu corro muito quando sou feliz,
Corro mais do que as minhas pernas
Quando sou feliz,

Palavras estranhas,
«Quando sou feliz»,
Há qualquer coisa que se estende delas
Como uma parte estranha e oculta que se quer mostrar,
Gasto pontos de interrogaç?o para que me mostres,
Desenho pontos de interrogaç?o
Como outrora iniciais, como outrora os meus passos
Se desenhavam no pó quando eu corria,
Quando eu corria

Gasto pontos de interrogaç?o
Mas n?o quando sou feliz.

Gasto pontos de interrogaç?o para que me digas:
Quando sou feliz
?

Damon at 2:45 AM

Sábado, Setembro 11, 2004

canç?o do momento: sérgio godinho, «espalhem a notícia»
frase do momento: «eu vou ao fundo do mar no corpo de uma mulher bonita.»

Descemos as escadas ? pressa, na escurid?o daqueles que apenas v?em luz.
Sentimos os ossos a pedirem músculo, os músculos a pedirem carne, a carne a pedir pele.
Cobrimo-nos com a escurid?o e abraçámo-nos.
Sentimos os corpos cobertos por pequenas gotas e pensámos pegar-lhes fogo.
Fomos ao fundo do mar.

Damon at 2:08 AM

Quinta-feira, Setembro 09, 2004

canç?o do momento: Bjork, «Pleasure is all mine».

Há dias, no metro, voltei a aperceber-me do crime que, actualmente, na nossa sociedade complexada, constitui retribuir um simples sorriso a uma criança. Depois do caso da Casa Pia, tornou-se proibido dizer a frase «gosto de crianças» sem que uma graçola maldosa ou uma express?o escandalizada logo surjam. No metro, um simpático menino apontava para a paisagem do outro lado da janela e sorria, na sua inoc?ncia, para mim, um estranho sentado ? sua frente. Ao corresponder ao gesto da criança (como poderia deixar de faz?-lo, saturado que estou de adultos que ora exibem esgares enfurecidos, ora sorriem hipocritamente?) logo senti os olhos de Torquemada n?o só da m?e (o que até se pode compreender, por raz?es infelizes que s?o por demais reconhecidas por todos, quanto mais n?o seja, pela tinta ávida dos jornais e afins) como de toda a populaç?o «andante» que naquele momento gritava em sil?ncio contra mim.
Já o meu pai, que sempre gostou de se meter com os miúdos de aspecto traquina, na rua, afagando-lhes o cabelo ou brincando com o seu sorriso purificante, se queixara há tempos de n?o poder fazer mais isso nos dias que correm. É uma realidade triste, com alguma raz?o de ser mas muito empolada. Muitos de nós ainda acham mesmo que as crianças s?o o melhor do mundo. E sem piadas de mau gosto. Até porque felizmente as crianças n?o as entendem.

Damon at 2:10 AM

Terça-feira, Agosto 31, 2004

cançao do momento: Blur, «this is a low».

«Já nao se pode conversar nesta casa», berra ele.
A questao é que ele ainda nao percebeu que nós nao falamos a mesma língua.
Ele aprendeu a conversar no boxe.

Eu nunca pratiquei boxe.

Damon at 9:09 PM

Sexta-feira, Agosto 20, 2004

cançao do momento: Carter Burwell, «Puppet love»

Mario Netto

Quem sou eu
Para além de todos os teus sorrisos?
Qual a minha história
Senao a que desenhares para mim?
Uma ousadia de gestos,
Um improviso, uma dança de cordas…

Quem sou eu,
Amante das minhas loucuras,
Criança que tarda em crescer?
Nao ves que já é tarde
Para mim?
Nao ves que agora é a tua vez
De dançar nas maos dos gigantes negros?

Quem és tu
Senao a minha voz,
O meu sorriso estancado,
Erguido de um momento em que te ris
De um passo em falso, de uma pirueta atrevida?
Entao fervo no meu sangue de farrapos,
O meu coraçao de algodao em rama dá pulos
Porque eu sou teu,
«Eu sou teu!»
E nao de uma qualquer prateleira cavernosa,
E nao das maos pouco hábeis de um antiquário sedento
De notas no bolso.

Pulo mais alto,
Grito sorrisos na tua voz
E espero que nunca me esqueças,
Que nunca o passar das horas
Te faça entregar-me como alimento
Para a arca monstruosa das recordaçoes passadas,
Onde peluches moribundos habitam castelos de Lego em ruínas.

Eu sou apenas
O estender dos teus braços,
Enquanto o despertador nao toca.
Qualquer dia,
Oiço o último aplauso.

Se puderes,
Nao cresças.

Damon Durham.

Damon at 2:20 PM

Segunda-feira, Agosto 16, 2004

cançao do momento: Mew, «156».

Há em cada um de nós um crepúsculo. Um fogo que se extingue com o passar das horas. Regressa para de novo sucumbir ao poder da agua salgada. Uma bailarina nua dança a nossa frente, no engenho de embalar a criança que todos somos. A sua pele escurece com o passar das horas. ? noite ela é o tecto do meu quarto. Suficientemente perto para que eu o observe. Demasiado longe para que eu lhe toque.

Há em cada um de nós um crepusculo. Filho do dia e da noite.

Damon at 9:35 PM

Terça-feira, Agosto 10, 2004

cançao do momento: dEUS, «nothing really ends»

Cadernos do sudoeste 2004

O regresso a casa

O silencio. Entrar em casa. Beijar os pais. Pousar as malas e sentir a aus?ncia de ruído, a perturbadora viol?ncia do regresso ? tranquilidade. Quatro dias n?o s?o nada e eu tenho que ter vinte e poucos anos nalguma coisa. Sinto a falta dos gritos a meio da noite, dos disparates produzidos após os banhos nocturnos e o nevoeiro; da mistura atrapalhada dos corpos debaixo dos chuveiros; dos vídeos dos Pluto, dos Keane, dos Rammstein e da Câmara Municipal de Odemira, formas de encher chouriços entre os concertos; das filas pouco rectilíneas para o p?o com chouriço; do constante abrir e fechar dos fechos das tendas; do som «ploc ploc» dos chinelos; dos djambés omnipresentes e audíveis em qualquer canto da zona; da música, acima de tudo, dos saltos, da emoç?o antes e durante os concertos, principalmente das bandas que sabem que n?o basta tocar, sabe bem falar com o público (ainda bem que n?o s?o todos como os Kraftwerk…). Mesmo que a febre n?o seja a mesma de uma adolesc?ncia menos longínqua do que ?s vezes parece. Aqui, em casa, há uma paz aparente que ?s vezes n?o desejo. Por muito que goste de ver os meus pais novamente. Mas quatro dias n?o s?o nada. E tenho que ter vinte e poucos anos nalguma coisa.

Damon at 7:32 PM

Quarta-feira, Agosto 04, 2004

Apetece-me dizer que sou mesmo «mole como molotov»... Comovi-me a ver o clip da «Yellow» dos Coldplay porque me lembrei de sonhos de estrelas sem espaço no céu nem no mar.
Há bocado, passou por mim um senhor que falava com o relógio de pulso. Nos próximos dias, vou certamente ver muita gente a fazer figuras mais tristes na Zambujeira do Mar... Pelo menos, vou-me encontrar mais uma vez com o meu amigo Neil Hannon, ou seja, com os The Divine Comedy, discretos no cartaz do festival mas gigantes na arte de juntar poesia e melodia. Muitos outros nomes juntar-se-?o a eles num palco cheio de gente interessante quanto mais n?o seja na música.
Ah! E acabei bem o ano lectivo, apesar de todos os lamentos e frustraç?es. Tive o prazer de ver na pauta o meu primeiro (e único) 20 da minha vida universitária. Há um ano atrás, eu dizia que a disciplina de Laboratórios de Som e Imagem ia ser a minha preferida do curso. Deu trabalho fazer uma curta-metragem sobre «Homens sensíveis» mas os dois algarismos na pauta e o prazer de «trabalhar» com pessoas fantasticas compensou. Obrigado a todos!
Até para a semana!!!

Damon at 12:58 AM

Terça-feira, Julho 27, 2004

Estou de férias depois do pior semestre desde que cheguei a este curso de Jornalismo. Depois de deixar para trás duas disciplinas ( a somar ? outra do outro semestre ), há uma sombra de frustraç?o que me segue. Isto tudo apesar de ter nas m?os um dvd com um filme parcialmente meu, elogiado por todos, do qual me orgulho porque foi feito com empenho, carinho e a intenç?o de dar gosto a quem o fez e a quem o vir, sem ser forçado, com enfeites a mais para agradar a professores.
Tenho um novo amigo. Chama-se Jivago, tem dois meses, e já ladra. Vamos de férias os dois.

Damon at 6:03 PM

Domingo, Julho 18, 2004

canç?o do momento: Quinteto Tati, «A graça do amor»
 
Tenho livros para ler.
Tenho blogues para consultar.
Tenho filmes para fazer
E outros para ver.
Tenho poemas para escrever.
Tenho mares para nadar.
Tenho campos para percorrer.
Tenho jogos para jogar.
Tenho discos para ouvir.
Tenho telas para pintar.
Tenho países para visitar.
Tenho amigos para conversar.
Tenho histórias para ouvir
E outras para contar.
Tenho telefonemas para fazer
E cartas para enviar.
Tenho iguarias para saborear.
Tenho esperanças para manter
E sonhos para ampliar.
Tenho vontade
Mas nao posso.
 
E o que diz Dominique Wolton
Acerca disto?

Damon at 9:51 PM

Sábado, Julho 10, 2004

cançao do momento: The Divine Comedy, «The booklovers»
frase do momento: «Que 31 do caraças!»



Sobrevivemos ao caos, ao enxame teórico que tenta picar-nos. «Depois nao deites isto fora», dizes tu. Nao deito fora o que? O que é que nos resta, semi-engolidos por nomes de livros-papoes, monstros com a forma de teses de mestrado? Passeamos de um lado para o outro, tentando fazer com que os pés se colem ao chao quando o que nos apetece é começar a correr no início do parque de estacionamento e, ao chegarmos ao fim, sentirmos que os pés se separaram da terra e que caminhamos em direcçao ao céu. Mantemo-nos acesos com piadas retiradas de um qualquer manual do absurdo e é assim que entramos na noite, trancados na sala, de olhos agarrados as grades, pedindo liberdade para ir pelos campos, tirar fotografias, cantar, conversar enquanto sentimos bem perto o cheiro do verde. Estamos quase... Estamos quase, caros colegas... Quando sairmos daqui, metemo-nos numa nova chamada «procura-se emprego».
-«Disseste expressionismo, nao foi?»

Damon at 7:31 PM

Sexta-feira, Julho 02, 2004

cançao do momento: Bjork, «Hyper Ballad»

Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tao fragil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004).

Damon at 9:35 PM

Quinta-feira, Junho 24, 2004

canç?es do momento: «A Portuguesa» e «God save the Queen»

Nem sempre é fácil ter 2 países... Nunca é fácil quando eles se encontram nos quartos-de-final de um campeonato europeu de football. Que ganhe o melhor!!!

Damon at 7:43 PM

Segunda-feira, Junho 21, 2004

canç?o do momento: Pulp, «Someone like the Moon»
frase do momento: «Contra os canh?es, marc(h)ar, marc(h)ar!»

Vencemos a Espanha numa verdadeira Aljubarrota futebolística. Derrotámos a arrogância de um país que sempre se habituou a olhar-nos de cima para baixo, «nuestros hermanos» quando é preciso, acima de tudo, donos e senhores de uma península que julgam ser sua. Estou certo que neste momento já circula no país vizinho o cartaz com a cabeça do árbitro a prémio porque de certeza que os espanhóis viram neste jogo algum lance duvidoso. A culpa só pode ser do «co?o» do árbitro, n?o é verdade?...
Vimos o jogo na marginal de Gaia, num ecr? terrível, onde n?o conseguiamos ver a bola, mas que, mesmo assim, parecia uma fogueira ? volta da qual uma multid?o se aquecia. Fomos ao Porto celebrar como se já fôssemos campe?es europeus. Cantámos juntamente com suecos, dinamarqueses, holandeses, etc. que, depois de b?bedos, s?o todos portugueses. No fim, faltou qualquer coisa.

Damon at 1:05 AM

Domingo, Junho 20, 2004

Eu sei que n?o existe mas apetece-me lá ir e sentar-me, numa esplanada submersa, enquanto os peixes percorrem as estradas livres ? minha volta. Eu sei que nunca poderia existir, seria demasiado normal para pessoas como nós, seres fragmentados, espalhados no corpo como brinquedos no quarto desarrumado. Um dia, disseram-me para deixar de ser assim, para me aproximar da leveza sem obrigaç?es nem constrangimentos e partir, com um sorriso bem pintado no rosto cheio de base, em direcç?o ? multid?o. «Talvez ainda possas ser alguém», disseram. Nunca consegui levar a sério as palavras de alguém que nunca se despiu. Alguém que, por mais que tire a roupa, tem sempre mais algum casaco, mais alguma camisola interior escondida. Nós somos demasiado reais para nos adaptarmos ? realidade. Somos demasiado verdadeiros para existir. Apetece-me lá ir e sentar-me, numa esplanada submersa, e ver quanto tempo aguento sem respirar.

Damon at 12:45 AM

Sábado, Junho 19, 2004

Detesto as express?es poluentes e pseudo-surfistas «boa onda» e «má onda». Há neologismos que se deviam deixar ficar pelas telenovelas destinadas ? puberdade da TVI...

Damon at 3:35 PM

Quinta-feira, Junho 17, 2004

canç?o do momento: Cl?, «Compet?ncia para amar»

O vento queima. O vento arde. Uma água com gás moribunda repousa, ao meu lado, reluzindo na ténue esperança de me atrair. N?o sei porqu?, n?o tenho sono. Invento festas no tecto do quarto e espero que me caiam levemente em cima as fantasmas esbeltas que dançam por cima de mim. Troco de posiç?o. Ergo os olhos para a janela que irradia escurid?o. O céu cheio de estrelas preenche todo o espaço ? minha frente. Desaperto parte da camisa que n?o tive tempo de tirar. Espero que uma estrela caia para de novo enfrentar a árdua tarefa de adormecer para o mundo. Ainda se as manh?s nascessem nuas…

Damon at 1:19 AM

Quarta-feira, Junho 16, 2004

disco-inspiraçao do momento: Yann Tiersen, «Good Bye, Lenin OST»

Eu ainda sonho que haja montanhas para la do meu horizonte.
Eu ainda acredito.
E o meu carro serve apenas para la chegar.
O meu carro tem dois lugares.
É modesto. Tem pó e pedaços do vidro que partiu, um dia.
Mas va la, eu nao me importo de nao estar sozinho.
Nao me importo. Percebes?
O que eu quero realmente dizer é:
«Antes a forca que a solitaria!»
Mas digo apenas que nao me importo
Para disfarçar os exageros,
Para mostrar que sou forte,
Que sou corajoso
E enfrento mares e ventos sozinho.
So a neve. So a neve me constipa.
Eu ainda acredito.
Ainda sonho que haja horizonte para la das montanhas.
E que haja estrelas.
De que cor serao as estrelas nesse outro pais?
(territorio augusto numa eternidade morna)
«Antes a forca que a solitaria!»
Eu ainda acredito.
Eu ainda sonho que haja espaço na tua mao
Para mim.
Ainda ha espaço no meu carro
(tem dois lugares)
Para ti.

Damon at 1:22 AM

Terça-feira, Junho 15, 2004

cançao do momento: Yann Tiersen, «Les bras de mer»
frase do momento: «De l'endroit, ou je suis, on voit des bras de mer qui s'allongent, qui s'allongent...»

(em resposta ao teu comentario, Joana)

Pensei por momentos parar o tempo mas se o tempo parasse, a musica deixaria de se ouvir, porque a musica (o piano, o violino, a guitarra, o acorde?o e todos os outros) alimenta-se do tempo. Mas também é verdade que o meu tempo se alimenta de musica. E a verdade é que tenho fome de mais momentos como a verdadeira iguaria que é o tempo passado num concerto de Yann Tiersen... Na verdade, gostava de transformar a minha vida num concerto de Yann Tiersen, cheio de valsas da Amelie...

Damon at 12:27 AM

Sábado, Junho 12, 2004

canç?o do momento: Yann Tiersen, «Les jours tristes»
frase do momento: «Who cares what cowards think any way?»

Pois é, Joana, é hoje!

Vai ser Amelie Poulain, Lenine e muitos outros num mesmo local: a Figueira da Foz.

Damon at 12:22 PM

Segunda-feira, Junho 07, 2004

cancao do momento: Oasis, «Roll with it»
frase do momento: «I think I've got a feeling I've lost inside»

Que vontade louca de rebobinar. Que saudades de n?o ter carta de conduç?o nem poder votar. Andar nas camionetas castanhas da A. Maia, logo de manh?zinha, ou no 54 (Avenida dos Aliados). Andar de bicicleta (ir ate a praia, ate ao centro da cidade, no verao, depois de jantar e ter que deixar a bicicleta em casa de um amigo e pedir a alguem (que saudades de nao ter telemovel) que me fosse buscar. Jogar futebol ao sabado de manh?, mesmo que apenas eu e um amigo (dava para treinar os remates e as defesas). Jogar basket ao fim da tarde, com o walkman (que saudades das cassetes gravadas da radio) ou com um amigo. Jogar matrecos nas tardes livres. Ir a todas as festas e todas as romarias. Usar as moedas de colecçao para andar nos carros de choque. Ter explicaçoes de matematica por causa da companhia e nao da explicadora. Gravar cassetes de video e ver outras em casa de um amigo e rir durante horas. Ir a todos os eventos do Forum, incluindo o Festival de Folclore, as audiçoes da escola de musica para ouvir a mesma companhia das explicaçoes de matematica tocar a «Wonderwall», e o inevitavel Festival Internacional de Teatro Comico. Usar o cabelo a tigela e andar com uma mochila da selecçao inglesa. Beber fanta e comer croissants com cobertura de chocolate. Ouvir o segundo toque. Ser advertido por estar a falar demais durante a aula. Cantar opera nas aulas de ingles e amarrotar o teste de portugues e depois ir tirar duvidas. Dar nomes aos professores. Fazer desenhos nos livros, incluindo a letra «S» repetida vezes sem conta. Olhar pela janela e sentir-me bem naquela mesa, naquela cadeira ao fundo. Ver o port?o. Comer cachorros no tasco da velha. Comer nos trengos. Ir a Maiabela comprar rebuçados e ao minimercado comprar bolachas no intervalo. «(What's the story) Morning Glory?», Oasis; «The Great Escape», Blur; «Different Class», Pulp, «The Bends», Radiohead; «Coming Up», Suede...
Oh, Boy... Sera que sou eu na mesma?...

Damon at 2:31 AM

Sábado, Junho 05, 2004

cançao do momento: Coldplay, «Sparks»
frase do momento: «Podes nao acreditar mas a saudade (...) anda no ar».

A conversa que nao temos

Podiamos falar dos barcos
Que pescam por arrasto
E arrastam consigo
Todos os tesouros
Do fundo do mar.

Talvez eles se sintam
Como eu, que me sinto
Arrastado a dizer-te
Que todas as praias
Sao demasiado longe
Do mar alto.

E no fundo,
Do mar apenas espero
Boleia para a outra margem,
Para la do mais proximo
Dos horizontes.

Podiamos conversar
Sobre o fenomeno das ondas
Que, quando batem na areia,
Se desfazem
Em mil pedaços de nos.

E nos nao somos
Suficientemente academicos
Para deixar
Que os cientistas
Espalhem rumores acerca
Da nossa fragilidade
«Patetica», dizem eles.

So nos resta falar sobre
O tempo que faz
No tempo presente
E esperar que o dia nasça
Com vontade de ser
Protagonista
Nos calendarios
Dos proximos anos...

Ou entao ficar a ver
Os navios a chegar ao porto
E as estrelas a adormecerem
E guardar as palavras
Para aqueles dias
Em que os olhos cheios de mar
Nao conseguem falar.

Damon Durham.

Damon at 2:12 PM

Segunda-feira, Maio 31, 2004

cançao do momento: Rosie Thomas, «I play music»
frase (ausente) do momento: «obrigada!»

Estava frio. Estava escuro. Procurei pelas tuas palavras numa cegueira de becos sem saída. Procurei o calor das tuas palavras que respirassem, que soprassem para cima de mim como a minha avó me fazia as feridas quando eu era pequeno. Carreguei as costas os ossos que nao sentia. Apenas uma mancha vermelha me mantinha vivo. Nas tuas palavras, encontrei apenas a aus?ncia. A neve, mas sem o lado belo e inocente. O gelo feito do fogo que queima, nao aquece. Nas tuas palavras, encontrei apenas mais um tunel para a noite.

Damon at 6:07 PM

Terça-feira, Maio 25, 2004

Manifesto pró-Borras

O Borras é blog!
Se todos os blogs fossem como o Borras, o mundo n?o estaria t?o borrado!
O Borras é limpo!
O Borras cheira bem!
O Borras sabe vestir-se e apresenta-se em público como um blog de respeito!
O Borras faz um post parecer uma epopeia!
O Borras é uma epopeia!
Quando se abre o Borras, entra um perfume pelo quarto e o dia corre melhor!
O Borras é pequeno-almoço!
O Borras é almoço, lanche, jantar, ceia e todos com sobremesa incluída!
O Borras é café!
O Borras é de todas as cores que quisermos porque o Borras n?o é chato!
N?o se repete como este manifesto!
Este manifesto é melhor se for lido no Borras!
O Borras l?-se!
O Borras bebe-se e saboreia-se e repete-se porque se quer mais!
O Borras n?o enche, preenche!
O Borras n?o engorda, enriquece!
O Borras n?o enjoa, satisfaz!
O Borras é poeta!
O Borras merece o Nobel!
O Borras é nobre!
O Borras é nobre porque é gente!
Se eu fosse um blog, queria ser Borras!
Se eu fosse um café, seria um café orgulhoso de ter Borras!
E ainda há quem lhe estenda os olhos!
E ainda há quem lhe queira tocar!
E ainda há quem se borre com medo que o Borras morra!
E ainda há quem o queira cheirar!
E ainda há quem goste tanto dele que o queira ver nu para depois vesti-lo!
E ainda há quem lhe queira oferecer flores!
E ainda há quem lhe queira oferecer sementes que um dia ser?o flores e árvores!
E ainda há quem queira beber café apenas para ficar com as Borras!
O Borras faz falta!
O que faz falta é animar o Borras!
Viva o Borras, viva! Pim!

Carlos Luís Ramalhao





Damon at 1:33 PM

Segunda-feira, Maio 24, 2004

canç?o do momento: Beth Orton, «Couldn't cause me harm»

Fotografei a chuva e ela parou por momentos. Guardei a máquina no bolso e voltei para dentro, feliz por ter conseguido quebrar aquela triste corrente. N?o gosto de chuva. É demasiado parecida com aquelas gotas que as torneiras e os olhos de vez em quando n?o conseguem suster. Sentei-me na cama interminável do meu quarto infinito e fiquei a olhar para a fotografia, sorrindo por n?o estar a chover. Só ent?o me apercebi de que o facto de n?o estar a chover n?o significava obrigatoriamente que fizesse sol. O facto da chuva ter parado n?o significava obrigatoriamente que tu fosses voar até ? minha janela. Apaguei a fotografia e dei ? chuva toda a liberdade para cair.

Damon at 11:22 AM

Quarta-feira, Maio 19, 2004

Pedaço de papel

Sou o poema rejeitado,
Atirado para o lixo
Pelas m?os do progenitor,
Reescrito vezes sem conta,
Rejeitado vezes sem conta.

?s vezes,
Quando o balde é despejado,
Ainda me despeço
Das contas telefónicas fora de prazo
E das cartas que trouxeram más notícias
E, num impulso,
Regresso ao mundo,
Ofereço-me como uma nova tentativa
De levar um sorriso ao coraç?o de alguém.

Mas há sempre uma m?o
Cheia de veias,
Cheia de pele,
Ossuda e sem sentimentos
Que me amachuca mais um pouco,
Que me rasga em pedaços
Rigorosamente quadrados
E depois me devolve ao poço sem fundo
Onde os poetas enterram os filhos imperfeitos.

Já nem a fita-cola me vale.
N?o há livro que me queira
Nem metáfora implantada
Que faça de mim desejado.
Sou o poema rejeitado,
Filho do azar e da falta de inspiraç?o,
Que percorre, ao sabor do vento, as ruas
? espera de uma chuva que acabe com a dor.

Damon Durham.

Damon at 5:44 PM

Segunda-feira, Maio 17, 2004

Ontem, vi a Avenida dos Aliados sarapintada de vermelho, num clima de festa e celebraç?o do único clube verdadeiramente nacional.
Ontem, vi algumas pessoas que apareceram só para provocar, com pedras na m?o, a dirigirem-se para o centro do Porto.
Ontem, vi a arrogância de quem, por estar habituado a ganhar sempre, ultimamente, se esquece de que saber perder é, por si, uma grande vitória.
Ontem, vi uma dedicatória bonita a dois jovens que perderam a vida precocemente.
Ontem, redescobri o prazer de saltar e sorrir e gritar pelo nosso clube (e n?o contra o clube adversário).
Ontem, redescobri que, apesar de estar habituado a pertencer ?s minorias, no desporto, n?o há dúvidas, faço parte de uma imensa maioria.
Ontem, senti um orgulho enorme em ser do BENFICA!

(Ah, e Parabéns ao F.C.Porto, que se bateu com muita classe, reduzido a dez jogadores)

Damon at 7:40 PM

Segunda-feira, Maio 10, 2004

Canç?o do momento: «Parabens a voc?»

Ela é Pequenina! Mas Ela é MUUUUITO GRANDE! É uma grande mulher, um MARCO na História de Portugal, mais particularmente da pacata localidade de Guilhufes. É uma grande amiga, com quem partilhei já momentos marcantes e com quem espero partilhar muitos mais. PARABÉNS ANABELA! Mantém o teu riso intocável e repete-o muitas vezes.

Damon at 7:39 PM

Segunda-feira, Maio 03, 2004

Canção do momento: Joy Division, «New Dawn Fades»

Se os edifícios sentissem, eu punha este a sangrar. Afiava as lâminas dos meus dedos e feria cada uma destas paredes. Depois cavava feridas cada vez mais fundas para que as cicatrizes durassem para sempre. Talvez o regasse com álcool. Pequenas gotas de cada vez.
Se os edifícios sentissem, eu punha este a chorar. Repetia-lhe todos os gritos que os ouvidos gravaram ao longo dos anos, todas as provocações, bocas felizes e infelizes, todas as palavras que me magoaram mais do que qualquer lâmina que eu pudesse espetar nestas paredes. Se este edifício tivesse olhos, eu colori-los-ia de um vermelho tão vivo como os meus já foram, tantas vezes, depois de sair daqui e ir para casa.
O que me irrita mais neste edifício é que nem as suas paredes eu conseguiria magoar. O que me irrita mais é que a única coisa que me apetece fazer neste edifício é ligar o computador, digitar a minha password e entrar no meu weblog para desabafar. Por mim, não punha cá mais os pés. E conseguiria? Apenas se isso fizesse alguém feliz. E às vezes, penso que sim.

Damon at 4:50 PM

Quarta-feira, Abril 28, 2004

Canção do momento: Menswear, «Being Brave»



Apetece-me fechar o meu corpo dentro de um quarto e, pior que isso, apetece-me ser escritor, ficar lá dentro a desenhar personagens surreais, mais Filhos do Outono, mais miúdas com medo do escuro, mais seres estranhos com nomes feitos de trocadilhos. E não voltar mais a este lugar. E não sair mais do meu quarto escuro. Mas há sempre o mar a chamar-me. «Meu H2O em chamas, qualquer dia ainda me reduzes a mais um pedaço de cinza branca que morre na areia, sem saber o que é o céu.»

Damon at 7:30 PM

Sábado, Abril 24, 2004

Cançao do momento: «Parabens a voce...»
Frase do momento: «Parabens.»


Nasci hoje as 9.30.

Tu tambem nasces hoje. O dia e nosso. Se ha alguem com quem seja uma honra partilhar a data (ok, tirando o ano...) de nascimento, esse alguem es tu. E portanto a bebe a quem ha um ano dei os parabens, ja cresceu mais um bocadinho. Qualquer dia ja fala e ja anda e observa com os olhos grandes e redondos o mundo a sua volta. MUITOS PARABENS para uma das pessoas mais bonitas (por dentro e por fora) que eu tive o prazer de conhecer ate hoje! Que o dia te seja PROFIQUO (´´e assim que se escreve, nao e?...) e que o ceu permaneça tao bonito como hoje de manha, tao bonito como na hora em que nascemos, mesmo que com tres anos de diferença.

Damon at 3:30 PM

Sexta-feira, Abril 23, 2004

...

Damon at 8:41 PM


...

Damon at 8:41 PM


Cançao do momento: Muse, «Please, please, please let me get what I want»

No próximo sábado vou, finalmente, nascer. Depois de fazer a primária, partirei para a escola da Maia, centro urbano em pleno crescimento, jovem e cheio de gente com um nível de vida acima da média, pleno no entanto de assimetrias que se reflectirão no ambiente escolar. Vou conhecer o Sílvio e o Gildo e, mais tarde, o Nuno. Vou vibrar com uma Daniela que, ao que sei agora, é veterinária. Mais tarde, vou-me atirar de cabeça para dentro de uns olhos azuis e tornar-me poeta à custa deles.
Sei que, nos dois primeiros anos, a adaptação não será fácil. No início da década de noventa, eu vou ser um miúdo moralista, com a mania que é um anjo, o que não vai facilitar o diálogo com os meus colegas da cidade. Mas vou fazer amigos. Grandes amigos, alguns deles ainda me vão dar os parabéns quando eu fizer 24 anos, em 2004. O facto da mãe do Miguel ser minha professora de Historia vai fazer com que ele tenha que deixar a turma, o que vai ser bom para mim. Vou-me libertar mais, entregando-me a um grupo que será um dos mais marcantes de que farei parte.
No 7º ano vamos, todos juntos, sem alterações, mudar de escola. É nessa altura que vou conhecer o Nuno. E tudo vai mudar. Os intervalos vão deixar de ser simplesmente altura de ir jogar futebol, os furos vão deixar de ser simplesmente momentos para ficarmos sentados a ver as nossas colegas passar. As aulas vão deixar de ser para estar atento. Esta altura será o auge de todas as formas de aproveitar o tempo, o clímax da qualidade de vida na adolescência, com apenas alguns buracos aqui e ali, colmatados com sonhos do tamanho de casas. Vou querer ser piloto de Formula 1, vou ter um kart para dar umas voltas e sonhar ainda mais. Vamos – eu e o Nuno – a tudo o que for festa, romaria, espectáculo de folclore, teatro, manifestação, comício, discurso do padre. E vamo-nos divertir como nunca… mais.
O meu pai ainda conduzirá o velhinho Ford Granada e a minha mãe, o Seat Ibiza. Será nesta altura que a minha avó paterna nos deixará para ficarmos cada vez menos lá em casa. Mas será esta a altura mais feliz da minha vida, pelo menos, até aos 24. Talvez não a mais importante. Essa virá a seguir…

(continua)

Damon at 12:36 PM

Terça-feira, Abril 20, 2004

Cancao do momento: The Gift, «Me, myself and I»
Frase do momento: «Gostas muito do avo, nao gostas?»

No proximo sabado, vou nascer...

(Parabens a quem nasceu hoje, como o Senhor Meliante...)

Sei que no primeiro dia da escola Primaria vou reencontrar o Miguel e ficar espantado por ele estar ali. Vou-me sentar numa carteira daquelas antigas, em que o banco está preso à mesa cujo tampo levanta. Vamo-nos sentar os três – eu, o Miguel e a mãe dele que um dia será minha professora de História.
A D. Alegria – que, por falar nisso, conduzirá um BMW de museu, verde fluorescente – não tem propriamente muita paciência. Vai-nos dar «cachaços» e bater-nos com uma cana que chega ao fundo da sala. Não desfazendo, eu vou ser dos mais bem-comportados. Eu e o Miguel vamos passar os intervalos a conversar enquanto os outros jogam futebol. Mais tarde, vou-me arrepender de não ter corrido e saltado mais…
Isto vai acontecer em 1986. O meu jogador preferido do Benfica, por esta altura, vai ser o Carlos Manuel, por ter o nome do meu tio e por ser também o jogador preferido do meu avô materno – a grande influência no facto de eu vir a ser benfiquista. De facto, ao longo da minha infância, vou desejar com muita força cada uma das visitas dos meus avós ribatejanos, os meus grandes amigos. Vou passear com o meu avô por caminhos que, anos mais tarde, vão deixar de existir. Vamos conversar os dois com vizinhos que, anos mais tarde, vão deixar de estar lá, ao portão, a espera de que um avô passe com o neto de mão dada. Quando eu fizer oito anos, o meu grande companheiro que eu só via algumas vezes por ano vai-nos deixar. Vou finalmente perceber o inevitável e definitivo. A partir de então, já só posso esperar as visitas da minha avó materna e dos meus tios, tanto os de Santarém como os de Lisboa, juntamente com os meus primos. Aliás, com o meu primo Vasco que, alguns anos mais tarde, vai ser um brilhante licenciado em Medicina, vou viver algumas aventuras, como aquele Carnaval em que um adulto enraivecido por ter sido alvo das nossas pistolas de água me vai tentar destruir a bicicleta atirando-a várias vezes para o chão. Com a minha prima, a Vera, vou mais tarde ter conversas de uma ajuda preciosa. A sua atenção, a sua amizade vão-me ajudar várias vezes e vou desejar não estar tão longe…
Outro dos meus grandes amigos, por esta altura, vai ser o Fúria – o nome engana… O meu pastor-alemao irá morar connosco quando eu tiver à volta de três anos e só deixará de respirar quando eu tiver quase dezanove. Pelo meio, correremos o jardim todo, ele tentará morder-me os pés enquanto eu ando de baloiço e encostará a cabeça às grades para que lha cocemos.
Mais ou menos por esta altura, vou começar a desmaiar e vou ser tratado por um médico galego. Vou então fazer muitas viagens a meio da noite até Pontevedra e outras tantas para o Hospital de S. João.
Um dia, por volta do ano 2004, vou-me aperceber do vazio da minha casa sem todos aqueles amigos. Alguns vão entretanto desaparecer no espaço mas não na memória; outros, cujas visitas serão cada vez mais raras, vão crescer e, tal como vai acontecer comigo, deixar de ter tempo para correr e saltar e passar as férias a brincar.
Mas antes que isso aconteça, ainda vou ter tempo de rir e ver muitos episódios do Dartacão e inventar concursos e coleccionar cromos e jogar cartas com a minha avó e ir de bicicleta até sítios que se transformarão em hipermercados onde um dia farei compras e… Antes de 2004, ainda terei tempo de ser feliz.

(continua)

Damon at 9:08 PM

Segunda-feira, Abril 19, 2004

Cançao do momento: Ilya, «Soleil, soleil»
Frase do momento: «Ola, Sr. Inverno!»

Hope Hospital, Manchester, Abril de 1980

No próximo sábado, vou nascer. Vou ver a luz do dia e sentir-me aconchegado nos braços de uma enfermeira escocesa, sardenta. Avisaram-me à ultima da hora que ia ter que saltar cá para fora um mês mais cedo do que o previsto. Uma maçada… Por um lado, já estou farto de me alimentar sempre da mesma coisa. Por outro lado, isto aqui parece-me bem mais acolhedor do que o mundo dos «grandes».
Em princípio, se tudo correr como previsto, vou passar alguns meses a ser empurrado num carrinho pelos parques verdes de Salford, particularmente aquele que se vê da janela do escritório onde o meu pai aparentemente trabalha. Quando me estiver a habituar a humidade do clima inglês e ao leite de soja do Tesco, já sei que me vão levar para um país distante onde se conduz pela direita apesar de todos andarem pela esquerda e onde todos os carros têm alguma coisa pendurada no retrovisor. É o país dos meus pais. Chama-se Portugal e pelo menos parece ser bastante mais quente…
O meu avô paterno, doente, é a razão da nossa mudança. No fim, poucas recordações vou ter dele, já que morrerá quando eu tiver dois anos.
Com três anos, vão-me inscrever no Lúmen, para eu fazer a pré-primaria. Vai haver lá uma funcionária a quem vou chamar «tio». Quando ela me perguntar «e porque não tia?», vou responder «porque pareces um homem…». Lá, vou conhecer o Miguel, que me vai acompanhar na Primaria e um ano na Preparatória e que vai ser o meu melhor amigo (sim, aquele que agora passa por mim na rua e não me vê, coitado…). Com cinco anos, vou dizer aos meus pais que estou apaixonado por uma Ana que faz anos no mesmo dia que eu e que não me vai ligar nenhuma. Aliás, eu só vou às festas de anos dela porque a mãe dela me vai convidar. Vou ser um miúdo tímido com quem quase ninguém brinca mas vou ser feliz, nesta fase. Nos tempos livres, vou construir casas com Lego e arrumar os carrinhos nas garagens debaixo dos móveis, achando sempre que cada família deve ter pelo menos um carro pequeno, um carro familiar, uma «space wagon» e um jipe. As vezes, também vou rabiscar papéis, fingindo que sei escrever, e entrevistar pessoas com uma caneta em vez de um microfone.

(continua)

Damon at 11:49 PM

Domingo, Abril 18, 2004

O Soltas foi reactivado. E consta que tem um novo «pai»...

Damon at 12:46 PM

Terça-feira, Abril 13, 2004

Cançao do momento: Suede, «Picnic by the motorway»
Frase do momento: «Share your flames with me.»

The great unknown mistake

I'm gone like wind
I'm gone like rain
The law men cheer
There's someone to blame

I'm in a cell
That's warm like hell
Condemned to be
Alone with myself

It's alright
It's alright

It's warm in here
It's warm in here

I've been erased
An absent face
I wasn't told
The crime that I made

They said:
«Accept your guilt
Kill your smile
And move away

And don't come back
Keep this town
Clean and safe»

I said:
«I know
It was my fault
I do it all the time
I do it all the time

I don't know what
But I do it all the time
But I do it all the time

I know why I'm to blame
You do it all the time
You do it all the time

This crime that has no name
Can someone explain?
Can someone explain?»

I can see the Sun
Like no one can
It keeps me from harm and says:
«You're just a lonely man
Like I'm a lonely star
The crime that you made
Was to be who you are

Share your flames with me

Share your blames with me»

Damon Durham.

Damon at 4:44 PM

Quinta-feira, Abril 08, 2004

Cancao do momento: Radiohead, «We suck young blood»


(foto tirada pela Luisa...)

Ideias para um filme

Talvez flores,
Pousadas em cima do piano
Fechado, timido,
As teclas partidas escondidas

E as flores,
Ao lado da moldura vazia,
Sem recordacoes de um qualquer jantar
Selado por um beijo,
Encerrado num sorriso

E depois, as pessoas batiam palmas de pe,
Dos camarotes pedia-se mais,
Mais abraços,
Mais olhares de compromisso,
Mais espectaculo
Para calar os criticos
Com manchetes de titulo emocionado
E relançar as nossas carreiras.

Talvez folhas,
Riscadas a tinta permanente,
Daquela que nunca e provisoria
Mesmo depois de lavar com detergente.

As folhas
Castanhas do tempo e da terra
E do po dos passos parecidos
Com os teus na tijoleira
Esquecida de dancas.

E depois, o gira-discos funcionava de novo,
A sua mao acariciava o vinil
E das paredes erguiam-se as sombras
Que varriam o chao de todos os passos mal-dados
E desenhavam de novo os teus pes e os meus
E so entao o sol se punha,
E so entao, com as faces cobertas de luz alaranjada,
Os olhos nos olhos,
As maos nas maos,
So entao,
O filme podia morrer por momentos
No prenuncio das palavras «The End».
So entao,
Iamos para as nossas casas
Separadas por estradas mal-iluminadas
Com quilometros de linhas continuas
Mal desenhadas no chao.

Damon Durham.

Damon at 7:50 PM

Quarta-feira, Março 31, 2004

Cançao do momento: Mimi, «Fire and roses»
Frase do momento: «Hoje nao vou, xau xau».

«G: Eu podia ter-te dado outro destino.
L: Es uma vitima da tua sensibilidade.
G: Estamos aqui os dois.
L: La fora, o mundo e controlado por pessoas como eu.
G: As pessoas como tu acabam por enferrujar.
L: Continuas a escrever coisas muito esquisitas, Graham…
G: A esperança e a ultima a morrer.
L: Tens voado de mais, aterraste so e deste com a cabeça no chão…
G: Talvez. Havemos de voltar a voar.»

Damon at 7:41 PM

Terça-feira, Março 30, 2004

Cançao do momento: Morrissey, «Margaret on the guillotine».
Frases do momento: Todas as piadas que magoam.

And in the words of a dead poet,
«Life is boring,
Take me down below,
That's where the badly behaved people go...»

Am I a dreaming soldier,
Sleepless with a gun on my side,
Reading mad words of dead poets
Whose life evaporated in pride...

Am I a dark flower,
Still seeking a sun to rely on,
Writing mad words of living dead people,
Too sensitive to be called a man.

Damon Durham.

Damon at 8:50 PM

Sexta-feira, Março 26, 2004

Cançao do momento: Jorge Palma, «Bairro do amor».
Frase do momento: «Nos somos os homens sensiveis, os monstros embrutecidos pelo dever de parecer mais fortes...»

As emoçoes esbatem-se lentamente, numa transiçao demorada entre a imagem de um sorriso - suprema imagem de festa, muito para la das figuras frageis que se seguram aos copos para se manterem em pe - e a imagem escura e extremamente adulta do cepticismo. O Benfica quase ganha. Eu quase fico feliz. De ambos os jogos ninguem se lembrar´´a porque nao existe quase ganhar ou quase ficar feliz. Para a historia, ficam a derrota e a infelicidade.
Ja nao tenho a mesma força que argumentava de forma clara, deixando em pratos limpos uma opiniao com garra. Quantas vezes agora deixo que os outros digam e fecho-me no silencio de um olhar desiludido. Nao interrompo. Nao ponho o dedo no ar para falar. Sento-me e observo e dou o meu apoio a quem de direito. Se ´´e que falamos de direito porque ´´e o lado esquerdo que me governa.

Damon at 10:21 AM

Quinta-feira, Março 18, 2004

Cançao do momento: Sigur Ros, faixa um do album ()

Desabafo:

Sinto-me fragil como um poema rejeitado.
Nao foi de proposito. Por isso estou triste e nao chateado.
Cada vez gosto menos de mim.
Estou cansado. Triste.
Embruteço na ausencia de um vaso onde lançar as minhas sementes.
E tudo isto se mistura como os papeis envelhecidos no bau das recordaçoes.
Nao estou chateado. Estou triste. Cansado.

Damon